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O papa Francisco e o patriarca Bartolomeu I durante visita do pontífice à Hungria, em 12 de setembro: os dois líderes assinaram uma carta sobre o cuidado com o meio ambiente.
O papa Francisco e o patriarca Bartolomeu I durante visita do pontífice à Hungria, em 12 de setembro: os dois líderes assinaram uma carta sobre o cuidado com o meio ambiente.| Foto: Luca Zennaro/EFE/EPA

Em 7 de setembro, o Vaticano divulgou uma carta conjunta do papa Francisco, do patriarca ortodoxo Bartolomeu e do arcebispo anglicano da Cantuária, Justin Welby, “pela proteção da criação”. Um textinho curtinho, de 15 parágrafos, para recordar o Tempo da Criação – que vai do começo de setembro a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis – e que aproveita a proximidade da COP26, em Glasgow, na Escócia. O Guilherme de Carvalho escreveu uma ótima coluna sobre o tema, e a reação negativa de muitos comentaristas me levou a fazer este comentário.

Eu compartilho a perplexidade dele a respeito da insensibilidade de muitos conservadores e cristãos a respeito da questão ambiental, que no caso específico ainda traz junto uma hostilidade inacreditável direcionada ao papa Francisco. Nessas horas, me vem à cabeça o ótimo trocadilho do Carlos Ramalhete sobre a webcam, aquele instrumento que permitiu a tanta gente se expor como nunca na internet: muitos, diz ele, ao atacar publicamente o papa, são web-Cam, em referência ao filho de Noé que zombou da nudez do pai bêbado, em vez de cobri-lo como fizeram seus dois irmãos. Aconselho a vocês seguirem lendo a história para descobrirem que fim ele leva. Em vez de insultarem o papa na rede, façam o que ele pede e rezem por ele. Rezem para que ele tenha um pontificado não como eu quero, não como vocês querem, não como o próprio Francisco quer, mas como Deus quer. Já estará de bom tamanho.

Ainda que tudo que viesse do IPCC fosse uma grande mentira, a obrigação cristã de cuidar da criação não mudaria um milímetro por causa disso

O fato é que na carta dos três líderes religiosos não há uma única linha que possa ser considerada heterodoxa ou que desvie da doutrina tradicional cristã. Existe, sim, uma obrigação moral de cuidar da criação – “cultivar e guardar” o jardim é uma das primeiras ordens que Deus dá ao homem (Gn 2,15). Você pode não achar que é a obrigação mais importante, pode achar que o papa fala demais disso e de menos sobre outras coisas (provavelmente não é verdade, e de qualquer forma fica o conselho do fim do parágrafo anterior), pode achar que o papa está se baseando em “mentiras do IPCC”, mas não pode negar que há o imperativo divino de cuidar do planeta. Quando Deus diz ao homem “enchei a terra e submetei-a”, não deu carta branca para a exploração irresponsável dos recursos naturais. O reinado do homem sobre toda a Terra (Gn 1,26) é de responsabilidade, não de tirania. Qualquer criança que viu O Rei Leão sabe explicar como isso funciona.

(E algo me diz que uma outra obrigação cristã muito cara ao papa Francisco anda tão negligenciada quanto a de cuidar do meio ambiente: a de cuidar dos pobres. Quem manda embora o pedinte achando que já paga muito imposto e que ele é assunto para o poder público vai ter uma péssima surpresa mais cedo ou mais tarde; quer dizer, só vai ter surpresa mesmo caso nunca tenha lido Mateus 25,31-46.)

E, falando em IPCC (que nem é citado na carta), mesmo que fosse tudo mentira, uma enorme conspiração do Al Gore com a Greta Thunberg, a obrigação cristã de cuidar da criação não mudaria um milímetro por causa disso. Seguiríamos tendo de tratar a natureza com responsabilidade. Bento XVI falou disso. João Paulo II falou disso, muito antes de haver IPCC. E Francisco não se distancia deles, basta ler o capítulo 3 da Laudato Si’, em que o atual papa afirma com todas as letras que a crise ambiental é consequência da crise moral. Quem quer ver no papa Francisco um xiita ecorradical se surpreenderia com várias passagens da encíclica caso passasse menos tempo xingando e mais tempo lendo e fazendo sua parte, mesmo que pequena, para tentar preservar o planeta.

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