Após uma tarde de filmagens no centro de Curitiba, no último dia 14, a atriz Daniela Escobar, que interpreta Teresa no longa 400contra1 Uma História Sobre o Comando Vermelho, conversou com a Gazeta do Povo Online, no set de filmagens, e descreveu sua personagem como uma psicopata. "Estou contando a história de uma psicopata, mostrando que mulher é tão capaz quanto homem de fazer maldades com requinte de maldade", disse.
Segundo Daniela, Teresa é uma mulher que coloca seus próprios interesses à frente de tudo e não mede esforços para alcançar seus objetivos, mesmo que para isso precise matar. Na trama, ela é ex-mulher de um carcereiro, mata seu marido, se envolve com William da Silva Lima - um dos fundadores do Comando Vermelho -, e entra no mundo do crime por influência de sua nova paixão.
400contra1 narra a criação do Comando Vermelho no Brasil, durante o período do regime militar, quando presos políticos e comuns dividiam a Galeria B, do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. O filme mostra a luta dos detentos contra as condições subumanas da cadeia e o respeito e companheirismo que surgiram junto das "leis" que proibiam roubos, ataques e violência física e sexual entre os presos.
Parte do longa (cerca de 60%) foi gravada no Presídio do Ahú, em Curitiba. As demais cenas serão filmadas em Ilha Grande e Rio de Janeiro. O filme tem previsão de estreia para o fim de 2009 ou início de 2010.
Loira e com roupas dos anos 70, Daniela fala como foi a composição da personagem, sobre a importância de ter convivido com os internos da Colônia Penal Agrícola de Piraquara e de onde veio a ideia de tingir os cabelos: "tinha que destruir literalmente o cabelo e eu destruí. Achei fantástico."
Confira a entrevista na íntegra:
Como você define sua personagem?
Estou contando a história de uma psicopata, mostrando que mulher é tão capaz quanto homem de fazer maldades com requinte de maldade. É uma pessoa que não tem consciência alguma, ela não sofre, não se comove, não se emociona, não se sente culpada em momento algum. Ela começa como uma mulher de porta de cadeia, que apanha do marido, um dos carcereiros da Ilha Grande. Mas o que parece ser uma coitadinha se transforma nisso que vocês puderam ver hoje: de coitada não tem nada. Ela só está traçando a estratégia de como sair dali, de como fugir dali. De como chegar onde ela quer. Mata o marido sem piedade, pelas costas, com um tiro na cabeça e depois foge com outro preso, um caso antigo. Traça tudo direitinho. O comportamento dela é como o de uma criança mal criada, eu diria: "eu quero e quero já. Eu quero agora". E uma pessoa psicopata é assim, tira da frente quem incomoda, elimina os obstáculos e, às vezes, nem precisa de muito motivo. As pessoas também vão perceber que pode ser qualquer um, alguém do trabalho, da família, um vizinho, um amigo, qualquer pessoa pode ser um psicopata. Foi isso que eu procurei fazer. Eles são sedutores, extremamente inteligentes, pessoas com senso de humor. E, de repente, quando você vê, está sendo manipulado por pessoas com requinte de esperteza. A Teresa é assim: uma psicopata, uma bandida.
O diretor comentou que foi você quem decidiu pintar o cabelo de loiro. De onde veio a ideia?
A referência que a direção me passou foram as chacretes dos anos 70. Então eu vi a Rita Cadilac e o cabelo era exatamente esse. Houve uma sugestão, que eles acharam que eu não aceitaria, porque tinha que destruir literalmente o cabelo e eu destruí. Achei fantástico. Se a referência era essa, por que não? Eu nunca tinha feito um trabalho loira e descolorida. Essa referência era de todas as mulheres de cadeia, não só a Rita Cadilac que fazia shows na prisão, mas também as namoradas dos detentos. Vimos fotos delas e 70% eram assim. Então essa é a personagem. Eu embarquei de verdade. Como foi a preparação para interpretar Teresa?
Ficamos 15 dias fazendo laboratório dentro do presídio aqui em Curitiba e na Colônia Penal. Conversei com os internos, ouvi histórias de pessoas que mataram com a maior tranquilidade. Foi bastante chocante. Também li o livro "Mentes Perigosas - O Psicopata Mora ao Lado", da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva que fala sobre todos os casos que aconteceram no Brasil nos últimos 10 anos. É uma médica falando do ponto de vista clínico. É fantástico. Esse livro foi fundamental pra eu construir esse personagem. Até então, achava que ela era aquela mulher que apanhava do marido, ficava com raiva da situação e se vingava dele. Não foi vingança. Ela simplesmente tira do caminho. Ela só abriu o caminho dela, não teve motivo além, porque apanhar a bater dá no mesmo para essa pessoa. É a índole. É a falta de consciência.
A construção da sua personagem é inspirada em alguma pessoa real que conviveu com o Willian?
É uma mistura de várias, porque não podemos dizer nomes verdadeiros, até por uma questão de segurança pessoal. São informações de pessoas que passaram pela vida do William, e que ele contou para o Caco. Fisicamente a Teresa é uma mistura de várias, mas a índole é de algumas pessoas específicas.
Nesta quarta-feira, confira a entrevista com diretor de '400contra1 - Uma História Sobre o Comando Vermelho', Caco Souza