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Pantocrator, na Capela Palatina, em Palermo (Itália).
Pantocrator, na Capela Palatina, em Palermo (Itália).| Foto: Wikimedia

Responsável por editar e publicar textos sobre educação na Gazeta do Povo, recebo diariamente centenas de sugestões de pautas. E, muitas vezes, ao avaliar as comunicações das Pontifícias Universidades Católicas de todo o país, me pergunto: o que ainda há de católico nas PUCs? É tanto conteúdo abertamente contrário aos mais básicos preceitos da Igreja Católica, sem espaço para o contraditório, que é difícil de acreditar.

Sejamos pragmáticos: qualquer funcionário que se preze não sai falando mal da empresa para a qual trabalha, sob pena – justa pela deslealdade – de amargar uma demissão sem perdão.

Nos trabalhos intelectuais, busca-se um conhecimento verdadeiro, baseado em uma metodologia científica com evidências ou, ao menos, lógica no debate de ideias sobre questões nas quais ainda não há certezas e diálogo com quem apresenta uma argumentação diferente, mas bem fundamentada. E sem todas essas premissas, discordar do patrão – em um jornal, universidade, etc. –, ainda mais com campanha contra, justifica, sim, ser convidado a procurar outro lugar para trabalhar. Mais: uma personalidade nobre nem aceitaria prestar serviços a uma organização com a qual não compartilha os mesmos princípios.

Essa coerência, que se espera de qualquer pessoa honesta, está em falta em muitas PUCs, tanto do lado dos professores quanto dos seus dirigentes. A “síndrome de Galileu” se repete de forma tupiniquim nos corredores das pontifícias. Tupiniquim porque docentes e alunos que assumem o papel de “heróis” contra as “maldades da Igreja” não têm, nem de longe, a genialidade científica de Galileu Galilei – lembrando que Galileu morreu como um bom católico, em sua cama e o caso está bem explicado em diversos livros (como “Galileu: pelo copernicanismo e pela Igreja”, de Annibale Fantoli).

Os exemplos de afronta direta à Igreja nas PUCs, sem evidências científicas e com argumentação fraca, são incontáveis.

O teólogo marxista e dissidente Leonardo Boff, por exemplo, é peça-chave em cursos, eventos, seminários e palestras em diversas PUCs do Brasil. Sua próxima aparição em uma pontifícia, será no curso de pós-graduação Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global, da PUCRS. Não haveria nenhum problema em convidá-lo para dar conferências se houvesse alguma evidência científica no que ele diz. Mas o que Boff faz não é mais do que continuar a instrumentalizar a fé católica para fazer política, disfarçando o ato de “justiça social”. Confronta abertamente a antropologia católica, com uma visão marxista de que a religião, na prática, é irrelevante para trazer bem social. O que é um absurdo histórico (a bibliografia, para quem tem honestidade intelectual de procurar, é vasta). Mas quem sou eu para condená-lo por pensar assim? Só é difícil entender por que gente como ele e da“Teologia da Libertação”, que tem quase nada de católico (para eles, liturgia e sacramentos não têm valor) ou original (os pobres são preocupação da Igreja desde o século I), é convidada para ensinar em uma universidade pontifícia.

Outro exemplo é a propaganda do poliamor. Apesar de não ter benefícios comprovados por pesquisas sérias, esse comportamento é idolatrado nas faculdades de psicologia das PUCs e outros departamentos. Uma “expoente” desse pensamento é a psicóloga Regina Navarro Lins, que deu aula na PUC-Rio por 18 anos e continua a participar de cursos esporádicas nas pontifícias – segundo outra sugestão de pauta recebida aqui na minha mesa. A sua disciplina é lugar de ataque ao casamento, sem bases filosóficas ou empíricas, a partir de suas “experiências de consultório”, e o tema é “ensinado” com um verniz científico duvidoso. O conjunto já seria bastante questionável – pesquisas mostram como a monogamia é benéfica para a economia e a sociedade –, mas muito mais quando a cátedra está em uma pontifícia, onde o casamento monogâmico é defendido como um caminho de crescimento e felicidade pela antropologia cristã.

E infinitas são também as iniciativas, dentro das PUCs, que buscam divulgar com orgulho cursos que promovem o aborto como solução (tendo pessoas como Angela Davis no comando), a ideologia de gênero e o movimento feminista no que tem de falacioso e incoerente. E, claro, colocando a Igreja como opressora e responsável por “reprimir” a sexualidade à rédea solta – sinal de progresso e liberdade para esses professores. Novamente: a liberdade de opinião existe e está aí, mas fazer isso dentro de uma universidade pontifícia? Sem dar lugar ao contraponto? Sem argumentos cientificamente convincentes?

Esses e outros casos, como querer excluir a Igreja das decisões administrativas (lembram do “#DomOdilonaomerepresenta” na PUCSP?), dão vergonha alheia: a crítica é ácida, mas ninguém quer deixar de se aproveitar dos edifícios e outros benefícios das pontifícias, que só o são por estarem vinculados à Igreja Católica. Do ponto de vista de caráter, deplorável.

Tenho certeza de que, além dos padres e das capelas, seja possível encontrar algo genuinamente católico nas PUCs. Como a busca pelo verdadeiro conhecimento e a harmonia entre a fé e a razão. E, sobretudo, a misericórdia – haja misericórdia! – com quem pensa diferente ou expõe teorias sem pé nem cabeça.

A dúvida que paira, porém, é se o saldo é positivo não só para a Igreja, mas para um verdadeiro pluralismo – que para ser real, deve aceitar e dialogar com a visão católica no que tem de científico. Ainda mais quando se tolera ideologias sem fundamento, com consequências deletérias, e ninguém parece se importar com isso.

* Denise Drechsel é editora de Vida e Cidadania.

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