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No ponto certo, na hora certa: como o Athletico despachou gigantes e assumiu novo patamar
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Instantes antes de receber o tradicional banho de água gelada surpresa na entrevista coletiva do título do Athletico na Copa do Brasil, na última quarta-feira (18), na sala de imprensa do estádio do Internacional, o técnico Tiago Nunes demonstrou alívio por participar de uma “retratação histórica”.

Em 2005, quatro anos depois de vencer pela primeira e única vez o Campeonato Brasileiro, o Furacão alcançou, também de forma inédita, a final da Copa Libertadores da América. Porém, como a Arena da Baixada ainda não comportava os 40 mil lugares exigidos para uma decisão continental, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) obrigou o time paranaense a mandar o jogo contra o São Paulo no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre.

Nem mesmo a instalação de arquibancadas móveis – obra feita a toque de caixa, mas liberada pelo Corpo de Bombeiros – foi capaz de alterar sentença. Uma decisão infinitamente mais política do que técnica.

O Athletico, naquela época sem “h”, empatou a partida na capital gaúcha por 1 a 1. Depois, foi goleado no Morumbi (4 a 0) e perdeu não só a taça, mas também a primeira oportunidade de realmente mudar de patamar no futebol nacional.

Até a última quarta. “A oportunidade de vencer a Copa do Brasil no Beira-Rio era a oportunidade de retratar um erro histórico. Uma das memórias mais tristes dos torcedores do Athletico foi ter que disputar a final da Libertadores de 2005 fora de casa”, discursou Nunes.

“Fazer com que o Beira-Rio seja lembrado como um momento único, de alegria, é maravilhoso para toda a torcida”, continuou o técnico de 39 anos.

Em apenas um ano e quatro meses no comando da equipe principal atleticana, Tiago Nunes conseguiu algo inimaginável. Substituto do queridinho de Mario Celso Petraglia, Fernando Diniz, o gaúcho de Santa Maria conduziu o Furacão ao primeiro título internacional do clube ao levantar a Copa Sul-Americana em uma nervosa decisão por pênaltis contra o Junior Barranquilla, da Colômbia.

Desta vez, com duas vitórias sobre o Inter (3 a 1 no placar agregado), o Athletico chegou à segunda taça nacional e se consolidou como um dos “grandes” do país. Pelo caminho, derrubou gigantes como Flamengo e Grêmio.

Reconhecido por seu estádio moderno, estrutura modelo e organização europeia, o clube paranaense sofria com a falta de títulos de expressão.

Essa é a lacuna que começou a ser preenchida – e que faz toda a diferença para a roda girar de maneira positiva. Não adianta ser referência fora das quatro linhas se o grito de campeão não vem.

“A vitória dentro de campo é uma consagração daquilo que o clube fez (e faz) fora de campo. Todo investimento em infraestrutura, em conceito de que o clube quer, do que acredita, acaba sendo transferido para dentro do gramado. Não à toa o Tiago Nunes é um dos técnicos mais longevos dentro do futebol brasileiro hoje, não à toa o clube tem uma das melhores estruturas de centro de treinamento, um estádio moderno”, pontua o jornalista Erich Beting, criador do site Máquina do Esporte, referência na cobertura de negócios esportivos.

“O Athletico tem demonstrado há muitos anos que é um clube diferente dos outros porque tem uma premissa forte de investimento em infraestrutura, que outros não tiveram, de investimento em categoria de base. E na combinação dessas duas coisas ele consegue uma eficiência, do ponto de vista financeiro, que os outros não têm. E isso está colocando o Athletico no ponto certo na hora certa”, concorda Rodrigo Capelo, jornalista especializado em negócios do esporte e comentarista da SporTV.

Para Capelo, o momento do salto atleticano também faz toda a diferença para o firmar entre as principais forças do Brasil. Até 2018, o futebol brasileiro viveu um longo período em que as cotas de televisão (principal fonte de receita dos clubes) eram definidas com uma grande parcela de politicagem (leia-se Clube dos 13).

O Brasileirão tem, por exemplo, 30% do bolo dividido de acordo com o desempenho. “Isso dá a oportunidade para clubes que em um passado próximo, por questão política, não teriam acesso a dinheiro por melhor que fosse o trabalho, mas hoje têm”, explica Capelo.

Esse exemplo sintetiza o Athletico. Liderado por Mario Celso Petraglia, atual presidente do Conselho Deliberativo, o Furacão tem a estrutura pronta para continuar a vencer.

“O clube tem conseguido, aos poucos, se colocar nessa posição de ser um dos líderes do país. E pra isso não basta só estrutura, precisa também performance”, ressalta Beting.

O próximo passo é saber o que vai mudar (se é que algo vai mudar) com o aumento do faturamento do clube. O próximo balanço deve apontar um número próximo de R$ 300 milhões, de acordo com Capelo.

Se houver uma mudança de comportamento, o investimento em futebol (contratações) vai aumentar, lembrando que Petraglia prometeu o título mundial até 2024. Porém, não dá para esquecer que o clube tem uma dívida crescente que envolve a Arena da Baixada, na casa de meio bilhão de reais, situação que está na Justiça. O que vai acontecer?

“Vamos descobrir nos próximos meses e anos como o Athletico vai se posicionar nesse momento de virada. Mas ele está virando a chave para conquistar o espaço de alguns clubes tradicionais e subindo na escala do futebol brasileiro”, diz Capelo.

Distância para o rival

Quando os capitães Wellington e Lucho González levantaram a taça no Beira-Rio, o Athletico ampliou a distância para o Coritiba na eterna disputa particular de grandeza entre os rivais.

Mais do que os dourados 12 kg do troféu da Copa do Brasil, o Furacão acrescentou um segundo título de relevância nacional à sua galeria de conquistas, que já ostentava o Brasileirão de 2001. No ano passado, quando venceu a Copa Sul-Americana, segundo troféu mais importante da Conmebol, os rubro-negros se consolidaram à frente do Coxa, que foi campeão nacional há 34 anos, em 1985.

A questão da rivalidade local, aliás, já foi até desdenhada por Petraglia no início da temporada. “A nossa rivalidade é com Flamengo, Corinthians. A nossa rivalidade hoje é com Real Madrid, quer dizer, com River Plate. Com o Boca Juniors. Rivalizar o Coritiba? Com todo o respeito né...”, ironizou o dirigente em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, em fevereiro.

Ao todo, em 2019, foram três conquistas do time da Baixada. No primeiro semestre, o time sub-23 ganhou o bicampeonato Paranaense.

Em agosto, a comemoração aconteceu no Japão. Contra o Shonan Bellmare, então campeão da Copa da Liga Japonesa, o Athletico goleou por 4 a 0, levou a Levain Cup, antiga Copa Suruga, além de uma premiação de US$ 900 mil, cerca de R$ 3,7 milhões.

Dinheiro na mão é vendaval?

Dinheiro de premiação, aliás, não falta pelos lados do CT do Caju. Somente com o título do mata-mata nacional, o Furacão recebeu impressionantes R$ 52 milhões – a maior premiação da história de uma final no Brasil.

O clube já havia recebido outros R$ 12,350 milhões referentes às fases anteriores, terminando a competição com prêmio total de R$ 64,350 milhões.

Some também os R$ 16,6 milhões referentes à campanha até as oitavas de final da Libertadores (eliminado pelo Boca Juniors) e ainda o valor de R$ 1,44 milhão pelo vice-campeonato da Recopa Sul-Americana (derrotado pelo River Plate), além dos R$ 3,7 milhões da Levain Cup.

A quantia, obviamente, não tem precedente no futebol paranaense – e ainda vai engordar. O Athletico já tem mais R$ 5,83 milhões assegurados da Turner (dona do canal TNT, que transmite na TV fechada) pela colocação no Brasileirão. O valor é o mesmo independentemente da classificação final por causa de um acordo entre os times.

Assim, a arrecadação atleticana com premiação atinge, no mínimo, o patamar de R$ 91,8 milhões na temporada – mais do que o clube recebeu com sua maior negociação de atleta da história, por exemplo: o lateral-esquerdo Renan Lodi, vendido por R$ 87,25 milhões com o Atlético de Madrid em julho.

O Athletico possuía 70% dos direitos econômicos do atleta, sendo que os 30% restantes eram do clube amador curitibano Trieste.

Muito provavelmente, porém, a receita de premiação passará da casa dos R$ 100 milhões. A partir deste ano, a televisão distribui premiação entre R$ 33 milhões (campeão) e R$ 11 milhões (16º colocado). O Rubro-Negro não receberá o valor integral, contudo, porque não assinou com a Globo em todas as mídias, apenas TV aberta.

Fator Tiago Nunes

O técnico Tiago Nunes já é o maior técnico da história do Athletico?

Muitos se perguntavam isso em 2018, quando o time liderado pelo gaúcho venceu a Copa Sul-Americana em uma noite histórica na Arena da Baixada. Era cedo demais para o questionamento – hoje não é mais.

Após a conquista da Copa do Brasil, Nunes acumula quatro taças em seu primeiro trabalho à frente de um time de Série A: Sul-Americana e Paranaense, em 2018, e Levain Cup e Copa do Brasil, em 2019.

O próprio Geninho, o treinador do Brasileiro de 2001, admitiu o ‘peso’ do companheiro de profissão. “Ele começa a ter um peso maior e está colocando mais frutas dentro da cesta”, destacou, em entrevista ao Globo Esporte antes da decisão de quarta.

A conexão entre Tiago e a torcida começou justamente no Estadual, com o sub-23, quando lançou nomes como Bruno Guimarães, Léo Pereira e Renan Lodi.

Quando assumiu o time principal, em julho, iniciou uma campanha de recuperação. Pegou o time na zona de rebaixamento e o conduziu à sétima posição. Isso, claro, além de brilhar na campanha da Sula.

Por isso, superou qualquer jogador no quesito ‘carinho da torcida’ durante a festa de recepção da conquista em Curitiba. E depois de colocar em dúvida sua permanência, disse que quer conquistar mais pelo clube em 2020.

“Eu estou com casa montada em Curitiba. Mas depende do Athletico. Não pretendo deixar o clube. Espero fazer minha segunda Libertadores aqui. E espero ir mais longe do que fomos neste ano”, disse.

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