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Bandeira antifascista
Bandeira antifascista: objetivo do movimento é destruir a democracia liberal| Foto: BigStock

A morte de George Floyd, no fim de maio de 2020, nos Estados Unidos, desencadeou uma série de manifestações pelo país. Se no início os protestos tinham como objetivo trazer para a pauta da violência policial, aos poucos, eles próprios se tornaram violentos.

Enquanto na maioria das cidades os atos duraram dias, em Portland, maior cidade do Oregon, na Costa Oeste norte-americana, as manifestações se estenderam por meses, muito por conta da vista grossa do prefeito Ted Wheeler, do Partido Democrata. Por lá, os protestos foram capitaneados por um movimento cuja bandeira, literal e figurativamente falando, já se tornou conhecida: o Antifa.

Comumente diz-se que o Antifa é um movimento descentralizado, sem liderança clara e de associação orgânica. Essa fachada faz com que a identificação de seus membros e eventual responsabilização seja dificultada, mas a verdade é que se trata de uma ação organizada, com eventos sociais para atrair simpatizantes e até mesmo treinamento com currículo estruturado. Ao menos é o que afirma o jornalista americano Andy Ngo, que nos últimos anos tem se dedicado a estudar o Antifa.

Ngo é autor do livro “Unmasked: Inside Antifa's Radical Plan to Destroy Democracy” (“Desmascarado: Por Dentro do Plano Radical do Antifa para Destruir a Democracia”, em tradução livre), lançado no início deste ano e ainda sem versão em português. Em junho de 2019, Ngo foi atacado por contramanifestantes do Antifa enquanto cobria uma manifestação do grupo de extrema-direita Proud Boys, justamente em Portland. O jornalista foi golpeado na cabeça e recebeu diversos chutes.

O livro reúne documentos, entrevistas com ex-seguidores do Antifa, com pessoas que foram atacadas por integrantes e incorpora relatos pessoais a fim de traçar a história do movimento, que sempre foi marcado pela violência, com agressões físicas e vandalismo, desde o início, além de desenhar o perfil do Antifa padrão. Na maior cidade do Oregon, a publicação chegou a ser vetada na maior rede de livrarias, a Powell's Books, após protestos de manifestantes de extrema-esquerda.

No dia 28 de maio de 2021, enquanto cobria um protesto, novamente em Portland, para a próxima edição de seu livro, Ngo apanhou mais uma vez. Segundo o jornalista, ele foi perseguido, atacado e agredido por uma gangue de mascarados.

“O Antifa me quer morto porque eu documento o que eles querem que fique escondido. Os ataques contra mim e as ameaças à minha vida são uma resposta ao meu trabalho como jornalista, registrando as táticas e a verdadeira ideologia de um movimento clandestino e extremista que se baseia no engano e considera a verdade a maior ameaça de todas. Eles querem ter o direito de esconder suas identidades atrás de máscaras e apagar registros de suas prisões e supostos crimes. Eles me querem morto por descobrir essas coisas e reportá-las”, escreveu o repórter em seu Twitter.

Quem saiu em defesa de Ngo foi o psicólogo canadense Jordan Peterson, um dos intelectuais mais influentes da atualidade. Ele tuitou imagens do repórter ferido com a frase “jornalistas: vocês não conseguem ver isso?”.

Movimento organizado

Ngo escreveu “Unmasked: Inside Antifa's Radical Plan to Destroy Democracy” com o objetivo de fornecer ao cidadão comum uma fonte não somente sobre as origens do Antifa, mas que explicasse sua ideologia, estratégias e de que modo se organiza. No entendimento do jornalista, tanto a esquerda quanto a direita cometeram muitos equívocos no tratamento dado ao movimento, o que permitiu seu crescimento.

“Meu processo de escrita ganhou uma urgência adicional quando toda a violência estourou no ano passado [2020] em nome do Black Lives Matter. Isso porque, de cidade em cidade, o que eu observava nos vídeos, e também quando estava presente em alguns lugares, era que, além dos manifestantes que diziam ser do BLM, havia elementos vestidos com uniformes pretos, carregando armas de contato, com mochilas cheias de coquetéis molotov ou outros suprimentos para motins”, afirma Ngo, complementando que de forma estratégica e efetiva, essas pessoas transformavam os protestos em massa, já marcados pela forte emoção, em tumultos.

Apesar de ser mais antigo, o movimento realmente explodiu em 2016, com a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, quando o jornalismo, a cultura e o entretenimento acabaram aderindo às pautas "progressistas" com o intuito de se posicionar contra o republicano. Foi, portanto, a “tempestade perfeita” para o Antifa crescer.

Um dos documentos que o autor disponibilizou, de forma inédita, consiste em uma espécie de currículo do Antifa, cujo processo de radicalização dura quase metade de um ano. De acordo com Ngo, os extremistas submetem os recrutas a um processo intenso de lavagem cerebral e doutrinação, além de treinamentos com armas e sobre como machucar oponentes. O grupo é organizado na medida em que eles angariam simpatizantes convidando-os a eventos sociais e, aos poucos, apresentam-lhe ideias cada vez mais radicais.

“O currículo é parcialmente estruturado como um currículo universitário, exceto que dura meses a fio. E eles englobam unidades diferentes. Esse currículo é bastante significativo porque não foi usado apenas para a Rose City Antifa, que é uma célula em Portland. A Rose City Antifa, na verdade, faz parte dessa rede chamada Torch Network. E eles estão conectados a outras células nos Estados Unidos, que são organizadas em linhas semelhantes”, explica Ngo, que acrescenta que o grande “trunfo” do Antifa é se esconder atrás da fachada de que o movimento não está organizado, tratando-se apenas de uma ideologia contra todas as formas de fascismo.

Violência

Para o jornalista David Harsanyi, da publicação conservadora americana National Review, o Antifa não se diferencia dos grupos de extrema direita que alega combater. Harsanyi lembra que o perfil no Twitter da organização encorajou seguidores a perpetrarem atos de violência e vandalismo nos protestos que ocorreram após a morte de George Floyd em 2020.

“Esses supostos antifascistas e nazistas de extrema direita se merecem. A América não merece nenhum. A diferença é que um grupo é condenado com razão por todas as pessoas decentes, enquanto o outro recebe joinhas da classe artística e panos quentes do Washington Post”, escreveu em artigo.

Andy Ngo ressalta que o mundo ficou horrorizado com o que ocorreu no Capitólio dos Estados Unidos, em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump protestaram contra o resultado das eleições de 2020. O episódio foi, sem sombra de dúvidas, lamentável. Mas a opinião pública não pareceu condenar de forma tão veemente o que se viu em Portland no verão (no Hemisfério Norte) do ano passado, algo similar à invasão de Washington, mas que se estendeu por meses a fio.

“Na pior das hipóteses, a opinião pública estava encorajando os desordeiros. E estavam encorajando a população a doar para algumas dessas campanhas de crowdfunding, para que os desordeiros pudessem receber arcar com viagens, acomodação, comida e até mesmo equipamentos anti-motim. Era realmente como uma zona de guerra”, diz o jornalista.

Segundo Ngo, o Antifa deixa muito claro aos novos membros do movimento que eles precisam cumprir o currículo proposto e, eventualmente, participar de atividades criminosas. Caso não sigam essas ordens, estão sujeitos à expulsão.

Origem comunista

O Antifa atual tem inspiração na Antifaschistische Aktion, fundada na Alemanha na década de 1930, proclamada pelo Partido Comunista Alemão durante a República de Weimar. O Antifa original se opunha não somente aos fascistas propriamente ditos, mas também — e principalmente — aos social-democratas, que estavam à frente do governo germânico na época.

Apesar de o movimento atual não ter linhagem direta com esse primeiro grupo, ele se apropriou do nome, mensagem e símbolos da Antifaschistische Aktion. Os objetivos de ambos, contudo, convergem. “Seu objetivo, desde o início, sempre foi deslegitimar a democracia liberal. E o Antifa hoje ainda dá continuidade a esse legado. Se você recuar, mesmo após a Segunda Guerra Mundial, o que se tornou a Alemanha Oriental, o estado comunista da Alemanha Oriental... Eles na verdade institucionalizaram a chamada ideologia antifascista na ideologia do Estado”, explica Ngo.

O que se viu em seguida foi uma sociedade extremamente repressiva, que dizimava a dissidência política. Para ele, que se constata, portanto, é que o rótulo de "antifascismo", que, à primeira vista, parece muito nobre, sempre esteve presente para ocultar outro tipo de extremismo, tão nocivo e radical quanto o da extrema direita.

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