O grupo palestino Hamas afirmou nesta terça-feira que "não se opõe" ao monitoramento da União Europeia na passagem fronteiriça em Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito. A sugestão feita seria um modo de romper o bloqueio israelense e egípcio ao território controlado pelo Hamas. Mais cedo nesta terça-feira, o governo egípcio disse que manterá aberta "indefinidamente" a fronteira com a Faixa de Gaza, mas apenas para a entrada de ajuda humanitária e para que ocorra um certo número de viagens.

"Nós não nos opomos à presença de um organismo de monitoramento europeu na passagem de Rafah, contanto que não haja interferência israelense nesse assunto", afirmou um porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri. "Nós estamos prontos e preparados para estudar a ideia das inspeções europeias de navios vindo para Gaza quando os detalhes estiverem prontos...não nos opomos a esta ideia."

A Espanha, que ocupa a presidência rotativa da UE, afirmou que divulgará em breve uma proposta para encerrar o bloqueio israelense na Faixa de Gaza. A iniciativa é sugerida após a ação israelense para interceptar uma flotilha humanitária que seguia para Gaza, que resultou em nove ativistas mortos, na semana passada.

Um funcionário egípcio disse hoje que o cerco à Faixa de Gaza, que já dura três anos, levou apenas a mais militância e radicalismo no território palestino. O gesto egípcio restaura uma ligação entre a isolada e empobrecida Faixa de Gaza, com 1,5 milhão de habitantes, e o mundo exterior. A medida também parece ser maneira do Egito reduzir as crescentes críticas, no mundo árabe, à participação do Cairo no cerco à Faixa de Gaza. "O Egito é um dos que quebrou o bloqueio", disse Hossam Zaki, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Egito. "Nós não deixaremos a potência ocupante (Israel) escapar das próprias responsabilidades".

Os Estados Unidos têm pressionado por algumas mudanças na situação. No domingo, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, teve uma reunião com o presidente do Egito, Hosni Mubarak, no balneário de Sharm El-Sheikh.

No domingo, o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, disse que a UE poderia ajudar a reduzir as tensões em Gaza ao inspecionar as cargas do navio que seguirem para o território e também o material que passar por terra, em Rafah.

Israel mantém as fronteiras de Gaza praticamente fechadas, após o Hamas e dois grupos militantes capturarem o soldado israelense Gilad Shalit, em junho de 2006, e um ano depois o Hamas tomar o controle da Faixa de Gaza.

Com isso, apenas itens de primeira necessidade podem passar pelo território e a capacidade de os palestinos se locomoverem ficou bastante restringida.

Israel afirma que isso é necessário para conter o Hamas, que está comprometido em seu estatuto com a destruição do Estado israelense. Os críticos veem o embargo como uma "punição coletiva" aos 1,5 milhão de habitantes do território.

Também nesta terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse em Berlim que a UE poderia atuar nessa questão, desde que houvesse a concordância das duas partes envolvidas. O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, afirmou que a UE poderia "ajudar como ajudou no passado", garantindo o fluxo de bens e auxílio para Gaza, além de evitar que entrem armas no território, uma demanda israelense

Medidas egípcias

O Egito pagou um preço pesado por participar do bloqueio à Faixa de Gaza, inclusive com mais protestos contra o governo de Mubarak, o qual foi acusado de ser um "agente" de Israel. Em janeiro de 2008, militantes do Hamas explodiram um trecho do muro na fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza, permitindo que centenas de milhares de habitantes do território palestino entrassem no Egito para fazer compras e visitar amigos e parentes, que eles não viam há anos. As forças egípcias levaram 12 dias para restaurar a ordem e fechar novamente a fronteira.

Após o anúncio das medidas, o funcionário egípcio que falou com a Associated Press, sob anonimato, disse que seu país tem ficado numa "situação permanentemente crítica" por causa do bloqueio. Segundo ele, o bloqueio não é uma medida eficaz, da parte da Israel, para alcançar uma série de exigências feitas ao Hamas, incluída a libertação de Gilad Shalit.

"Israel ainda insiste que o bloqueio é uma ferramenta de pressão Que ele pode levar à libertação de Shalit e forçar o Hamas a parar com a resistência. Ao contrário, o Hamas ficou mais extremista", disse o funcionário.

As medidas do Egito são mais uma mudança relativa que radical na questão do fechamento da fronteira. A partir de hoje, o Egito permitirá que um número restrito de habitantes deixem a Faixa de Gaza, incluídos pacientes que precisam de cuidados médicos, estudantes e palestinos locais que residam em outros países. O Egito já fez isso no passado durante alguns períodos. O governo egípcio não irá transferir grandes quantidades de suprimentos humanitários à Faixa de Gaza ou material de construção, porque o cruzamento na fronteira foi projetado para os viajantes, disse o funcionário. Um comboio de ajuda humanitária, organizado pela Irmandade Muçulmana, grupo político egípcio semi clandestino, foi barrado bem antes da fronteira na segunda-feira.

"Nós temos preocupações enormes com a segurança, porque o Irã tem seus objetivos, o Hezbollah também. O Hamas e seus simpatizantes também têm, bem como a Al-Qaeda, que já pode estar presente no Sinai e na Faixa de Gaza", disse o funcionário.

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