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Rocco Morabito fugiu da prisão no Uruguai em 2019| Foto: Divulgação/Ministério do Interior do Uruguai

Até sua prisão nesta segunda-feira, pela Polícia Federal, Rocco Morabito era considerado um dos líderes da máfia calabresa ‘Ndrangheta – a maior organização criminosa da Itália e uma das mais poderosas do mundo – e o segundo fugitivo mais procurado da Itália. Nos anos 1990, foi batizado de “rei da cocaína” de Milão, onde gerenciou uma lucrativa rede de tráfico de drogas, com ramificações na América do Sul. Em seu país de origem, foi condenado a 30 anos de prisão por associação criminosa e tráfico de drogas, mas passou grande parte dos últimos 25 anos fugindo da polícia.

"Rei da cocaína"

A vida criminosa do italiano Rocco Morabito começou por volta de 1988, quando tinha pouco mais de 20 anos. Na época ele passou a integrar o clã Morabito da máfia ‘Ndrangheta, liderado por Giuseppe Morabito, parente de Rocco que, posteriormente, foi considerado pela Comissão Parlamentar Antimáfia da Itália como o criminoso mais perigoso do país.

Poucos anos depois, seu faro para os negócios escusos o levou para Milão. Ao lado do seu tio Domenico Mollica, também filiado à 'Ndrangheta, Rocco rapidamente se destacou na cidade, onde era reconhecido como o “rei da cocaína” por banqueiros e investidores, por vender uma droga de boa qualidade e por seu estilo discreto. Estima-se que, nesta época, ele faturava cerca de 3,5 milhões de euros por mês.

Rocco também estava envolvido em um grande esquema da ‘Ndrangheta que levava cocaína de países da América do Sul à Itália, e que tinha um de seus centros logísticos no nordeste brasileiro. Eventualmente, porém, o negócio foi descoberto pelas autoridades e o nome de Rocco Morabito passou a figurar na lista de fugitivos da polícia italiana.

Tráfico internacional

Em 1994, a polícia deflagrou uma operação que vinculou o mafioso italiano a traficantes colombianos. Fotos e gravações de telefonemas comprovaram o envolvimento de Rocco na negociação da compra de quase uma tonelada de cocaína, cujo preço foi estimado em oito milhões de euros. As autoridades italianas e a Interpol, porém, já estavam observando os movimentos dele anos antes: ele foi vinculado ao envio de cocaína do Brasil para a Itália, após uma operação realizada em 1992, que resultou na apreensão de mais de meia tonelada de cocaína e na prisão de 90 de seus capangas.

Condenado a 30 anos de prisão na Itália, o mandado de prisão internacional contra Rocco foi emitido em 1995. Ele, então, decidiu deixar a terra natal, dando início a sua vida de fugitivo, mas sem perder prestígio e as conexões com a ‘Ndrangheta.

"Rocco Morabito é o protótipo do chefe da 'Ndrangheta moderna: ele combina a internacionalização dos negócios e o culto à discrição. Para a geração anterior, ir para o exílio teria sido visto como um fracasso. Mas ele é um ‘negociador’, pode trabalhar de qualquer lugar do mundo. Ele é um homem muito inteligente que sabe se manter discreto. Com a polícia, ele joga xadrez estando duas jogadas à frente", disse ao jornal Le Monde o pesquisador Antonio Nicaso.

Com essas habilidades, Rocco ficou foragido por 23 anos, atuando como “narcobroker”. Durante esse período, o clã Morabito continuou ativo no tráfico internacional de cocaína. O livro Zero Zero Zero, de Roberto Saviano, que fez um mapeamento do tráfico internacional de drogas, indicou que em uma série de prisões feitas pela polícia de Milão em 2012, a ‘Ndrina Morabito foi apontada como um dos administradores de “uma grande rede de importação de cocaína destinada à Itália, Bélgica, Holanda, Áustria e Alemanha”.

“Os carregamentos, escondidos entre camarões congelados ou caixas de banana, chegavam da Colômbia e do Equador, tanto de navio quanto de avião, sendo desembarcados nos portos de Hamburgo e Antuérpia, assim como no aeroporto de Viena. O tráfico era administrado pelas ramificações lombardas das mais poderosas famílias calabresas — os Pelle de San Luca, os Morabito de Africo, os Molè de Gioia Tauro”, cita o autor.

Prisão e fuga no Uruguai

Rocco foi preso apenas em 2017, em Montevidéu, no Uruguai, onde desde 2004 vivia como “Francisco Antonio Capeletto de Souza”, um rico empresário brasileiro de cabelos grisalhos que ganhava dinheiro negociando soja. O que o denunciou às autoridades foi a matrícula escolar de sua filha: ele a registrou em uma escola usando o sobrenome Morabito.

Porém, o mafioso ficou preso no Uruguai por menos de dois anos. Enquanto sua extradição para a Itália era arranjada, ele fugiu do Presídio Central de Montevidéu com outros três presidiários. Segundo as notícias da época, que citaram como fonte o Ministério do Interior do Uruguai, os quatro abriram um buraco no teto e escaparam por uma tubulação de ar, conseguindo chegar ao terraço do prédio, que fica na região central de Montevidéu. Na fuga, eles entraram na casa de uma senhora e roubaram todo o dinheiro que ela tinha. Segundo esta mulher, Rocco chegou a se desculpar pelo assalto e disse que estava fazendo aquilo porque sua filha estava muito doente.

Mas desta vez a vida de fugitivo durou pouco. O mafioso foi preso em um hotel em João Pessoa, na Paraíba, nesta segunda-feira (24), durante uma operação conjunta da Polícia Federal brasileira, da polícia italiana e da Interpol. Ele ficará sob custódia da justiça brasileira, em local sigiloso, até que o processo de extradição para a Itália seja finalizado.

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