| Foto: Pixabay

Em uma realidade na qual a má nutrição é uma das grandes chagas do mundo contemporâneo, reinventar a cultura alimentar, em todas as etapas da cadeia, é um chamado urgente. Uma mudança que terá consequências não apenas na melhor qualidade da alimentação da população, mas também na economia mundial, na erradicação da pobreza e no desenvolvimento sustentável do planeta.

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O tema do Dia Mundial da Alimentação de 2019, comemorado em 150 países no próximo dia 16 e que também marca o aniversário da fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1945, nos dá uma boa perspectiva dessa cadeia de impactos: “Nossas ações representam o nosso futuro: dietas saudáveis para um mundo fome zero”. A ideia na escolha desse slogan é a de que, a partir de uma alimentação mais diversificada e nutritiva – que depende não só de uma mudança comportamental de cada indivíduo, como também de políticas públicas que fomentem essa transformação social –, impactos começarão a ser sentidos nos mais diferentes cenários.

A começar pela saúde da população. Segundo o último relatório da FAO, enquanto a fome afetou 821 milhões de pessoas em todo o mundo em 2017, a proporção de adultos obesos chegou a 13,3% em 2016 – o equivalente a 672 milhões de pessoas. Já pessoas com sobrepeso ultrapassam o número de pessoas em insegurança alimentar. No Brasil, enquanto a fome atinge menos de 2,5% da população, a obesidade já afeta quase 20% dos brasileiros. Em algumas regiões, como o Nordeste, outras facetas da má nutrição ainda persistem: a desnutrição infantil, por exemplo, segue acima dos 5%.

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Em plena década da agricultura familiar, devemos endossar a bandeira da alimentação saudável

É importante entender que tanto a fome quanto o sobrepeso não estão presentes no mundo por falta de alimentos, tampouco pelo excesso de consumo. Tais problemas, que parecem ser extremos opostos, são, na verdade, lados de uma mesma moeda: em ambas os casos o foco está na falta de acesso à comida saudável e nutritiva.

O que sabemos é que, na atualidade, os sistemas alimentares não favorecem dietas saudáveis. Nas últimas décadas, a dieta da América Latina e do Caribe mudou dramaticamente. Isso não é consequência de decisões pessoais de 626 milhões de indivíduos agindo de acordo com suas vontades. A comida que consumimos hoje resulta de um sistema alimentar novo, diferente do tempo de nossos pais, em que novos atores dominantes apareceram e, com eles, novas regras do jogo.

Basta avaliar as vendas de grandes redes de supermercados. Em uma amostra de países da região, verificou-se um aumento nas vendas de US$ 40 bilhões, em 2002, para US$ 154 bilhões em 2011. Quase quatro vezes em nove anos. Entre 2008 e 2016, as principais cadeias de fast food dobraram suas vendas, totalizando pouco mais de US$ 16 bilhões em 12 países sobre os quais temos informações.

O consumo de alimentos fora de casa também cresceu exponencialmente na região: enquanto um indivíduo gastava cerca de US$ 50 por ano em 1995, em 2016 o consumo per capita pulou para US$ 350, um aumento de sete vezes. Esses novos atores no sistema alimentar têm um poder enorme sobre o que é produzido, como é produzido e o que é importado.

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A má notícia é que esses efeitos são transferidos para a agricultura familiar. Quando consumimos mais produtos industrializados, além de prejudicar nossa saúde – com um impacto imediato nos gastos públicos –, desaceleramos também a economia das comunidades rurais, que vendem e produzem menos por causa da menor demanda. Em muitos países, tais comunidades representam as populações mais vulneráveis à fome.

Comer melhor significa apoiar os pequenos agricultores, tirando-os da pobreza ou da miséria. Os ganhos transversais desse apoio também são importantes: a agricultura familiar incentiva a diversificação das dietas. Quando mais culturas são integradas, temos solos mais ricos e ajudamos a preservar a biodiversidade do planeta.

É urgente transformar a forma como nos alimentamos. Em plena década da agricultura familiar, devemos endossar a bandeira da alimentação saudável, até que seja reconhecida como a principal defensora da tarefa de reestruturar nossos sistemas alimentares, erradicar a fome e conseguir o desenvolvimento sustentável.

Se nossas ações representam nosso futuro, e se as dietas saudáveis podem nos levar a um mundo fome zero, como sugerido no tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano, é hora de agir. A FAO segue com seu compromisso de estimular essas transformações em prol de um mundo sustentável e livre da fome e da má nutrição.

Rafael Zavala, mestre em Agricultura Sustentável pela Universidade de Londres e doutor em Políticas para o Desenvolvimento Rural pela Universidade de East Anglia (Inglaterra), é representante da FAO no Brasil.

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