O ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, deu palestra na USP.| Foto: Reprodução Youtube

Sem citar diretamente o presidente Jair Bolsonaro, o ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, disse nesta sexta-feira (16) que “não existe salvador da pátria” e pediu aos jovens para não usarem as palavras “herói” ou “mito”. A declaração foi dada durante palestra na Universidade de São Paulo (USP), com o título Autonomia e Liberdade Científica. Recentemente, Bolsonaro exonerou Galvão do cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.

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Ao longo de quase duas horas, Galvão defendeu a comunidade científica dos ataques ideológicos: “Se um partido político atacar a ciência, devemos nos manifestar contra isso. Não podemos deixar que nossa ideologia política turve nossa vista”, afirmou. Segundo ele, toda vez que os dados forem manipulados e que um colega sofrer “pressão para não divulgar o que ele está fazendo porque aborrece algum poderoso”, “os cientistas devem se organizar e trabalhar em conjunto”.

O cientista questionou se o Brasil está "de volta às trevas, estamos em perigo?". Ele foi aplaudido pela plateia quando afirmou que a "comunidade científica não se calará" e disse ter se sentido "triste e angustiado" quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acusou todas as instituições do Brasil de estarem aparelhadas para a ideologia de esquerda. "Infelizmente essa ideia está espalhada em parte do governo, é mais profundo que um preconceito".

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Galvão não poupou críticas nem a Olavo de Carvalho. Ele disse que não conhecia o guru de Bolsonaro até assistir a um vídeo em que Olavo contestava Albert Einstein. “O sujeito fala bem, de uma forma convincente”, avaliou, mas alertou que “essas influências são preocupantes”. “Eu digo para meus filhos, não acredite no que está na mídia. Não acredite em tudo”, completou.

Dados do desmatamento

Ao citar a polêmica sobre os dados do desmatamento da Amazônia, Galvão fez uma retrospectiva das críticas recebidas pelo Inpe. Ele lembrou que já nos governos de José Sarney e Lula da Silva, os números foram chamados de “mentirosos” e criticados por causarem "alarde".

Galvão explicou também porque o desmatamento de junho de 2018 só foi computado nesse ano, o que causou um salto de 88% de um ano para o outro. “No ano passado houve degeneração da mata” e não desmatamento. Ele disse também que é verdade que a regeneração da floresta não é computada pelo Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real), que é uma das críticas do governo.

Contudo, ele frisou que desde 1988 o desmatamento causou uma perda de cerca de 11% da floresta e que se esse número alcançar 25%, “toda a Amazônia será irrecuperável”.

Embora o cientista defenda a divulgação dos dados sem passar pelo crivo do governo (como sugerido por Bolsonaro), Galvão pediu que o repasse à sociedade seja feito com um retardo de cinco dias, isso porque “os desmatadores também têm acesso” aos dados. Ele recomenda que os estudos sejam primeiro enviados ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) para que o órgão tenha tempo de fiscalizar. Era o que, de fato, ocorreu até novembro do ano passado, antes que o acordo entre Inpe e Ibama não fosse renovado.

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