Presidente da Câmara, Hugo Motta, durante reunião de líderes| Foto: Douglas Gomes Photography
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Apesar de a oposição ter reunido o apoio de 262 deputados para aprovação da urgência do projeto de lei da anistia, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), informou que não vai pautar o requerimento protocolado pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sinalização foi dada nesta quinta-feira (24), durante a reunião de líderes, onde os parlamentares discutem as votações das próximas semanas. 

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“O colégio de líderes discutiu, de forma exaustiva, onde todos os líderes presentes, que representam algo em torno de quase 500 parlamentares, e, especificamente, sobre o tema da urgência da anistia: se foi decidido pelo adiamento da pauta desse requerimento de urgência”, explicou Motta aos jornalistas, após o fim da reunião.

Ainda de acordo com o presidente da Câmara, os parlamentares vão seguir discutindo, até que haja um consenso para que o tema seja pautado. "Nós seguiremos conversando, principalmente também com os partidos que estão defendendo a pauta, ou seja, os partidos que fazem a oposição, o PL, o Partido Novo, que aqui defenderam a inclusão na pauta com muita força e de maneira também legítima, para que a casa possa encontrar uma saída para esse tempo", completou.

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Antes deste encontro, Motta se reuniu individualmente com ao menos 17 líderes de partidos e de bancadas no intuito de buscar apoio para sua estratégia de esvaziar a pressão da oposição. O objetivo do deputado é usar as próximas semanas para "esfriar" o tema dentro do Congresso, enquanto tenta construir uma alternativa junto ao Executivo e o Judiciário sobre as punições aos presos do 8 de janeiro de 2023. 

"Há esse sentimento de convergência de que algo precisa ser feito para que, se houve o se está acontecendo algum tipo de injustiça, isso possa ser também combatido, para que ao final o parlamento, a casa do debate, jamais possa ser insensível com qualquer pauta", disse Motta.

Na última semana, o presidente da Câmara sinalizou que a decisão sobre análise do pedido de urgência do projeto da anistia seria tomada de forma conjunta com os líderes partidários. Essa não é a primeira vez que Motta atua diretamente para tentar frear o avanço da proposta dentro da Câmara.

O deputado já havia pressionado para que os líderes partidários não assinassem o requerimento de urgência do projeto, o que fez com que a oposição buscasse as assinaturas de forma individual junto aos deputados. Antes da reunião de líderes desta quinta-feira, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), chegou a sinalizar que o partido pode romper com Motta, caso o presidente da Casa decidisse engavetar o requerimento de urgência.

Além disso, o partido de Bolsonaro ameaça segurar as emendas de comissão que o partido controla. Atualmente existe uma regra informal de que 70% dos recursos das emendas de comissão são distribuídos entre todos os partidos e 30% ficam com a legenda que comanda o colegiado.

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O PL preside atualmente as comissões de Relações Exteriores, Saúde, Agricultura, Segurança e Turismo, que juntas somam mais de R$ 7 bilhões em recursos. “Somos cumpridores de acordo, ele precisa cumprir o dele. Todos os deputados precisam das emendas”, disse Sóstenes Cavalcante. 

A oposição ainda não se manifestou publicamente sobre a decisão anunciada por Motta durante a reunião de líderes. A Gazeta do Povo aguarda retorno por parte dos parlamentares da direita.

Motta quer usar velório do Papa e feriado para esvaziar anistia 

Hugo Motta embarca na noite desta quinta-feira com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o Vaticano, onde eles irão acompanhar o velório do Papa Francisco. A viagem vai contar ainda com as presenças dos presidentes do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso. 

Além desta viagem, o feriado do Dia do Trabalhador, na próxima quinta-feira, 1º de maio, deve manter o plenário da Câmara esvaziado. A expectativa é de que Motta libere os deputados das votações presenciais e as sessões ocorram pelo sistema remoto. 

A avaliação de aliados de Motta é de que o presidente da Câmara vai usar o período para tentar reduzir a pressão por parte da oposição em relação ao projeto da anistia. Lula e Motta estiveram reunidos na quarta-feira (23) em um jantar, com a presença também de líderes da base governista. Na ocasião, o petista reafirmou a posição contrária do governo em relação ao projeto da anistia. 

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Mais cedo, Motta já havia sinalizado que a proposta da anistia, encampada pelo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, não iria "prejudicar" projetos da agenda econômica. Em aceno ao Palácio do Planalto, o presidente da Câmara disse que pretende priorizar a aprovação do texto que trata sobre a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil. 

"Anistia é um tema que divide a Casa. Desde que me coloquei como candidato a presidente é um tema recorrente. Temos que evitar crises no país, tenho dialogado bastante com Alcolumbre e não vamos misturar essas pautas (IR e anistia). Não vamos permitir que outras pautas prejudiquem o andamento de um projeto importante como esse da isenção", disse Motta em evento organizado pela CNN Brasil

Líderes do Centrão que estiveram no jantar de Motta e Lula, ouvidos pela reportagem, afirmam que o presidente da Câmara indicou que, além do projeto que aumenta a isenção do IR, a Câmara vai deliberar sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, apresentada nesta semana pelo governo. Lula, inclusive, incluiu o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, na comitiva que vai ao velório do papa, justamente para que haja uma articulação sobre o tema durante a viagem com presidentes do Legislativo. 

"O presidente Lula pediu atenção a duas questões principais: a PEC da Segurança, que ele apresentou o texto aos presidentes (da Câmara e do Senado) e a questão do Imposto de Renda. Isso foi a centralidade do pedido nosso para discutir nos próximos três meses", disse o deputado José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara. 

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Presidente da Câmara vai debater dosimetria das penas com STF 

A viagem ao Vaticano também deve ser usada por Motta, segundo seus interlocutores, para que ele aborde junto ao ministro Luís Roberto Barroso, presidente do STF, a questão da dosimetria das penas aos condenados do 8 de janeiro de 2023. A avaliação dos aliados de Motta é de que a costura de um acordo com o Judiciário poderia enterrar as discussões do projeto da anistia dentro da Câmara. 

"Temos buscado trabalhar dialogando com as lideranças partidárias, com o Senado, com as outras instituições. É um tema, como todos sabem, que divide a Casa", disse Motta durante o evento da CNN Brasil

Antes disso, durante encontro com empresários em São Paulo, o presidente da Câmara já havia defendido que é preciso ter "sensibilidade" na discussão sobre as penas aos condenados do 8 de janeiro de 2023. "Defendo a sensibilidade para corrigir algum exagero que vem acontecendo com relação a quem não merece receber uma punição. Acho que essa sensibilidade é necessária, toca a todos nós", disse Motta. 

A avaliação de parlamentares ouvidos pela reportagem é de que o movimento da oposição acabou pressionando o próprio STF em relação aos condenados do 8 de janeiro. Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes deu liberdade para 12 pessoas envolvidas com o 8 de janeiro — entre elas Débora Rodrigues dos Santos, que pichou a frase “perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, e foi para o regime domiciliar.  

Débora Rodrigues, que virou um dos símbolos da oposição na defesa pela anistia, chegou a escrever uma carta ao magistrado em que pede desculpas e se diz arrependida pelo que fez.  

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Dentro do governo, a ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais, disse que a anistia, a mediação ou redução de penas poderia ser discutida no Congresso. “Talvez a gente até tenha que fazer essa discussão mesmo no Congresso. Agora, o que não pode acontecer é uma anistia a aqueles que conduziram o processo do golpe no país”, disse Gleisi. 

Após a repercussão, a ministra recuou e afirmou que eventuais revisões de pena aos réus do 8 de janeiro cabem única e exclusivamente ao STF. Já o ex-presidente Bolsonaro manifestou-se publicamente contra a modulação das penas como forma de barrar uma anistia irrestrita. 

“A modulação de penas não nos interessa. Redução de penas não nos interessa. Nós queremos a anistia ampla, geral e irrestrita”, disse Bolsonaro no começo do mês, ao destacar que as pessoas que acabaram presas foram “atraídas para uma emboscada”. 

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]