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Rodrigo Constantino

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Sacrifício de militares foi ínfimo e prejudica reforma, mas categoria é sim especial

Todos estão condenando a reforma previdenciária dos militares apresentada nesta quarta ao Congresso. E com razão! O ajuste na categoria, que tem um dos maiores rombos per capita e também o que mais cresce, foi ínfimo. Ou melhor: foi até razoável, de quase R$ 90 bilhões em dez anos, mas compensado por outros mecanismos como aumento de salário e gratificações, que basicamente anularam a economia feita na década. O saldo líquido ficou em patéticos R$ 10 bilhões, na década! Não dá nem para chamar isso de reforma…

Naturalmente, num clima em que todos estão sendo convocados para cortar na carne e aceitar sua cota de sacrifício em prol da nação, a proposta gerou reações negativas. Logo os militares, que deveriam ser os mais patriotas e adeptos ao sacrifício pelo coletivo, serão poupados dessa forma?! Não parece justo.

E do ponto de vista político, em nada ajuda na tramitação da reforma no Congresso. Afinal, este é um governo composto por muitos militares, vários em ministérios importantes. Fica a sensação de que Bolsonaro resolveu aliviar para seus companheiros, enquanto mete a faca nos demais…

Como constatou reportagem da Folha, o tratamento especial às Forças Armadas irritou líderes partidários. A reestruturação das carreiras militares ativou o balcão de negociações para que outras categorias sejam beneficiadas. Todos querem se sentir “especiais”, mesmo que haja, de fato, argumentos razoáveis para alegar que os militares são uma categoria especial (aqui nos Estados Unidos os veteranos gozam de vários privilégios, mas claro que é preciso levar em conta que os militares americanos, ao contrário dos brasileiros, vivem em guerra).

Somado a isso temos as pesquisas que mostram queda acentuada de aprovação do governo. Bolsonaro estaria no patamar mais baixo para um presidente nesse período. Sim, é verdade que esses institutos erraram feio no passado, e diziam que Bolsonaro não venceria. A margem de erro deve ser muito maior do que a oficial, portanto. Pode haver interesses obscuros por trás também, como aponta Fiuza:

Segundo o Ibope, em nenhum cenário Bolsonaro seria eleito. Segundo o Datafolha, o Ibope estava certíssimo. Segundo a realidade, vocês fermentaram Bolsonaro p/tentar ressuscitar os ladrões simpáticos e agora voltaram ao normal: só querem sabotar as reformas e o Brasil, como sempre.

Mas mesmo assim os dados em nada ajudam na tramitação das reformas. Afinal, presidente enfraquecido tem menos força e capital político no Congresso, e os deputados, sentindo a fragilidade, partem para cima como tubarões ao primeiro sinal de sangue. O preço do voto aumenta, em português mais claro. Nada disso ajuda na aprovação das reformas, e a mais importante delas, a previdenciária, pode acabar sendo “desidratada”.

Enfim, a proposta para os militares prejudica a reforma, mas não necessariamente assinala seu fim. Vai aumentar um pouco o custo da aprovação, reduzir o efeito final após outras categorias “especiais” conquistarem seus privilégios, e talvez a marca de um trilhão de reais de economia ao longo de uma década não seja atingida. Mas não é o fim. É ruim, pega mal num governo repleto de militares, pois parece corporativismo, mas dá para justificar, sem forçar muito a barra, que militares merecem mesmo um tratamento especial.

Sigamos em frente, pois o Brasil tem pressa e esse deslize não pode paralisar a agenda de reformas.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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