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Saideira

“Saideira” desta semana fala da MPB contra Ana Campagnolo, filmes de terror e Tamara Klink

No debate cultural brasileiro, poucos fenômenos são tão sintomáticos quanto a recente sanha processual de medalhões da MPB contra a deputada Ana Campagnolo. Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan, que construíram suas carreiras sob o manto da contestação e da liberdade de expressão, acionaram a Justiça exigindo indenizações porque suas músicas foram analisadas em um curso conservador. As gravadoras autorizaram o uso das músicas, mas os artistas alegam má-fé pelo simples fato de o público não rezar pela cartilha progressista.

No “Saideira” desta semana, essa polêmica serve de trampolim para uma reflexão crucial sobre a nossa herança cultural. Francisco Escorsim, Omar Godoy e Paulo Polzonoff Jr. expõem a mentalidade Dona Florinda desses artistas, que agem como se a beleza artística fosse propriedade de uma elite iluminada que diz “não se misture com essa gentalha”. O “Saideira”, contudo, vai além do óbvio e provoca a própria direita a não cair na armadilha de descartar gênios como Drummond ou João Bosco por picuinhas ideológicas. Recuperar o patrimônio nacional exige separar a mesquinharia do criador da imortalidade de sua obra, um exercício sempre raro de lucidez e de inteligência.

“Obsessão” e “Backrooms”

Deixando o tribunal ideológico de lado, o segundo bloco do “Saideira” mergulha no surpreendente fenômeno das bilheterias de terror com os filmes “Obsessão” e “Backrooms”. Dirigidos por cineastas jovens, esses longas arrecadaram fortunas e revelaram que o cinema de horror é o verdadeiro laboratório estético da atualidade. O trio analisa como o gênero se tornou o refúgio ideal para experimentar linguagens visuais inovadoras e narrativas complexas. Para além dos sustos fáceis, essas obras funcionam como espelhos de uma época que transformou o medo em entretenimento de massa altamente decifrável e comercial.

Enquanto “Obsessão” desconstrói a primeira paixão adolescente como uma patologia egoísta e controladora, “Backrooms” cria um labirinto psicológico angustiante com a estética minimalista do Minecraft e da aclamada série “Ruptura”. O debate do “Saideira” disseca o analfabetismo emocional de protagonistas desarmados para lidar com frustrações cotidianas, uma característica marcante da geração hiperconectada. Longe do proselitismo barato ou das lições de moral politicamente corretas, o cinema de terror moderno engaja o público jovem na obsessiva tarefa de desvendar teorias nas redes sociais. Há, afinal, uma fascinante inventividade criativa brotando muito fora dos circuitos tradicionais.

Eremita

O ato final do “Saideira” desmistifica um fetiche contemporâneo: as odisseias solitárias planejadas milimetricamente para virar engajamento digital. O estopim é a navegadora Tamara Klink, filha de Amir Klink, que pediu aos leitores que não comprassem seu livro bestseller para “poupar as árvores”. Com ironia cortante, o “Saideira” escancara a desconexão dessa elite  com o mundo real, ignorando a cadeia produtiva editorial que alimenta desde revisores até gráficos. Esse ambientalismo romântico e performático revela uma ingenuidade quase constrangedora, no qual o sofrimento na natureza é pasteurizado para satisfazer o fetiche de uma juventude urbana ávida por fáceis narrativas de autodescoberta.

A jornada de Tamara ilustra o impagável meme do “jovem que descobre o óbvio”, chocando-se ao ver comunidades isoladas consumindo biscoitos recheados ou constatando que pessoas comuns não leem pensamentos. Os debatedores resgatam o desbravamento genuíno e questionam esse eremitismo de butique que precisa desesperadamente de lives, palestras e contratos editoriais para existir.

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