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Espécie invasora

Por que a rã que “muge como boi” virou caso de alerta máximo em Florianópolis

a rã-touro, espécie gigante que “muge como boi”
A rã‑touro (Aquarana catesbeiana), espécie exótica invasora de origem norte‑americana (Foto: Felipe Szterling/PMF)

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Uma rã gigante que “muge como boi” levou Florianópolis (SC) a acionar o alerta máximo ambiental no bairro Ratones, no norte da ilha. A rã‑touro (Aquarana catesbeiana), espécie exótica invasora de origem norte‑americana, está sendo mapeada e monitorada pela Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) desde 2025, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e órgãos como Ibama, Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA/SC) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Classificada na categoria 1 da Resolução Consema nº 272/2025, que reúne a fauna exótica invasora sob vigilância no estado, a espécie é tratada como um risco potencial para a fauna nativa de áreas sensíveis como o manguezal do bairro.

O primeiro registro oficial da rã‑touro em Florianópolis foi confirmado em outubro do ano passado, em uma propriedade em Ratones. “A partir desse primeiro registro, realizamos o mapeamento das áreas de ocorrência e iniciamos ações de monitoramento e captura da espécie, atuando de forma preventiva para evitar sua dispersão e reduzir impactos sobre a fauna nativa”, explica a bióloga da Floram, Priscilla Tamioso.

Desde então, foram desenvolvidas duas ações de campo, em novembro de 2025 e março de 2026, que resultaram na captura de 11 animais, entre juvenis e adultos, com presença confirmada em três propriedades do bairro. Segundo a instituição, o trabalho na região segue uma lógica de “detecção precoce e resposta rápida”.

“Quando uma espécie exótica é identificada logo no início, é possível compreender melhor a situação, mapear sua ocorrência e tomar decisões fundamentadas, em parceria com as demais instituições e com a comunidade”, afirma o presidente da fundação, Fábio Henrique Machado. Os animais capturados foram encaminhados ao Laboratório de Herpetologia da UFSC para análises, incluindo testagem para patógenos como o ranavírus e o fungo da quitridiomicose.

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Como a rã‑touro chegou até Ratones

Os pesquisadores explicam que a Aquarana catesbeiana foi trazida ao Brasil em 1935 para criação em ranários e comércio de carne. Com a desativação de muitos desses empreendimentos ao longo das décadas, escapes e solturas levaram à presença da espécie em ambientes naturais de diferentes lugares do país.

Em outras regiões onde foi introduzida, a rã‑touro já foi associada à transmissão de patógenos como o fungo da quitridiomicose e o ranavírus, doenças que afetam exclusivamente anfíbios e peixes, explica a Floram. A fundação ressalta que esses agentes não representam risco à saúde humana nem a animais domésticos, mas reforça que a presença da espécie exige acompanhamento próximo para proteger a fauna nativa.

É por isso que ela aparece na categoria 1 da lista de fauna exótica invasora de Santa Catarina, classificação que orienta um manejo mais rígido no estado e ajuda a explicar por que um foco localizado foi suficiente para acionar o alerta máximo ambiental na capital.

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O que está em perigo

Ratones abriga um manguezal e áreas alagadas que funcionam como berçário natural para diversas espécies de peixes, crustáceos e outros organismos. A presença de um predador generalista de grande porte, com dieta que inclui peixes, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, acende o alerta das equipes técnicas.

Segundo a fundação, trata‑se de uma espécie que, além da “dieta variada”, tem “alta capacidade reprodutiva”, características que aumentam o potencial de competição com as espécies nativas e de ocupação de seus nichos em áreas sensíveis como é o caso do bairro.

A espécie Aquarana catesbeiana foi trazida ao Brasil em 1935 para criação em ranários e comércio de carneA espécie Aquarana catesbeiana foi trazida ao Brasil em 1935 para criação em ranários e comércio de carne (Foto: Felipe Szterling/PMF)

O risco, segundo a instituição, não está em um único indivíduo, mas no potencial de a rã‑touro se estabelecer como população reprodutiva. A preocupação é reforçada pelo fato de a espécie já ter sido associada, em outras regiões, à transmissão de patógenos que atingem justamente anfíbios e peixes.

A Floram lembra que, se a invasão se consolidar, o controle tende a se tornar mais caro, mais complexo e com chance menor de reverter completamente os impactos sobre o ecossistema local. Por isso, o foco atual das instituições é atuar em um estágio considerado precoce, quando o número de registros ainda é reduzido e concentrado.

”Estamos executando um plano de ação justamente para dar uma resposta organizada à presença dessa espécie”, afirma a educadora ambiental da Floram, Maria Aparecida Cabral de Sá.

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Próximos passos: ajuda da comunidade e educação ambiental

Para tentar conter o avanço da rã‑touro, Floram e UFSC apostam no engajamento direto de moradores, escolas e associações da região. O objetivo é transformar o mapeamento da espécie em um esforço participativo, no qual a população identifica e comunica ocorrências, ajudando a orientar as expedições de campo das equipes técnicas.

Uma das principais ferramentas desse mapeamento é justamente o som que tornou a espécie conhecida: uma vocalização grave, semelhante ao mugido de um boi, que dá origem ao nome popular de rã‑touro. A Floram orienta que qualquer pessoa que ouvir o canto característico ou avistar o animal registre o local e comunique a ocorrência por e‑mail (fdepuc.floram@gmail.com) ou pelo WhatsApp (48) 3237‑5660, canais oficiais da fundação.

O órgão reforça que o manejo não deve ser feito por conta própria: a recomendação é não tentar capturar, transportar ou eliminar os animais, deixando a intervenção para equipes treinadas que possam, além de retirar os indivíduos, coletar amostras para análise e alimentar o banco de dados sobre a presença da espécie.

O plano de ação inclui um conjunto de atividades de educação ambiental voltadas principalmente para crianças e jovens. “Vamos focar em atividades de educação ambiental para incentivar a conscientização. Isso vai nos ajudar a mapear melhor as rãs e agir com precisão”, afirma a educadora ambiental.

As instituições também planejam novas incursões de campo pelo bairro afetado para consolidar o mapeamento, ampliar o número de análises laboratoriais e definir estratégias de médio e longo prazo para manter a espécie sob controle. A aposta de Floram e UFSC é que a combinação de ciência, monitoramento contínuo e participação da comunidade seja suficiente para evitar que a rã deixe de ser um foco localizado no manguezal de Florianópolis e se transforme em mais um caso de invasão consolidada na fauna catarinense.

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