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Dois dias depois das eleições, entre retardatários e esparsos foguetórios ao longo do dia, não sabemos se algum dos fogos tenha sido para lembrar a participação do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) na campanha da ex-guerrilheira Dilma Rousseff.

A tímida comemoração também não foi uma senha para a divulgação do manifesto de veteranos generais-de-Exército que, no mesmo dia, voltaram a contestar a recente declaração do ministro da Defesa à Comissão Nacional da Verdade, de que "as Forças Armadas aprovaram e praticaram atos que violaram direitos humanos no período militar".

O MR-8 foi uma organização participante da luta armada que ganhou esse nome em homenagem a Che Guevara, capturado na Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Entre membros da facção que participou do sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, constam os conhecidos nomes de Fernando Gabeira, Franklin Martins, Stuart Angel Jones e o capitão Carlos Lamarca – além de Nando Coimbra, irmão de Arthur Antunes Coimbra, o craque Zico.

Pouco antes de sua morte no interior da Bahia, em setembro de 1971, o capitão Carlos Lamarca convocou Nando Coimbra para uma missão estratégica no Rio de Janeiro: tomar o quartel do Exército em São Cristóvão, na Avenida Pedro II: "Vamos invadir na calada da noite, roubar todo o armamento do arsenal e, se preciso, passem fogo nos que reagirem".

O irmão do ídolo flamenguista reuniu mais dois camaradas no carro caindo aos pedaços, e partiram de Copacabana para São Cristóvão. No caminho, como nenhum dos guerrilheiros sabia exatamente o endereço do quartel – hoje Museu do Exército, na época a 5.ª Brigada de Cavalaria Blindada –, Nando Coimbra encostou o carro num ponto de ônibus e perguntou a um homem da fila: "O senhor sabe onde fica o quartel de São Cristóvão?" "Positivo! Sou tenente da Cavalaria Blindada e, se me vocês derem uma carona, posso indicar o caminho".

O tenente era dos mais simpáticos. Tão simpático que, ao atravessarem a guarita sem apresentar credenciais, os três foram escoltados até a cantina do quartel: "Hoje é aniversário do comandante. Estou à paisana para participar do churrasco que estamos oferecendo a ele. E vocês são meus convidados!"

Foi longe a festa. No dia seguinte, os três guerrilheiros se apresentaram para a prestação de contas ao comandante Lamarca: "Como é que é mesmo? Vocês entraram no quartel, encontraram os oficiais bêbados, os soldados na farra e saíram de lá sem nem mesmo uma pistola escondida na cueca?" "Nos desculpa, capitão... mas fomos muito bem tratados. De jeito nenhum, a gente não podia passar fogo naquela gente boa!"

Nando Coimbra precisa ser chamado pela Comissão da Verdade para esclarecer a história. Deve ser bem por isso que muita gente acha que a ditadura foi um período de fogos e festas.

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