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Espiritualidade

Fé e práticas religiosas aumentam a resistência à dor e fortalecem vínculos sociais

Pesquisa realizada no Brasil e no Reino Unido mostrou como as práticas religiosas impactam na percepção de dor
Pesquisa realizada no Brasil e no Reino Unido mostrou como as práticas religiosas impactam na percepção da dor. (Foto: Adrianna Geo/Unsplash)

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Pesquisa realizada no Brasil e no Reino Unido mostrou como os rituais religiosos liberam substâncias químicas que atuam na percepção da dor. Publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, em junho deste ano, o estudo apresenta um resultado que mescla fatores psicológicos e físicos. Os pesquisadores acompanharam cristãos de várias denominações em 24 locais do Reino Unido e, no Brasil, estiveram com praticantes da umbanda.

Os resultados revelaram que, logo após os rituais religiosos, os participantes apresentaram um aumento significativo do limiar da dor. Para medir esse efeito, os pesquisadores utilizaram uma braçadeira de pressão arterial, inflada gradualmente em intervalos de 10 mmHg. Os participantes indicavam o momento em que a pressão se tornava intensa o suficiente para que não desejassem aumentá-la mais. Quanto maior a pressão suportada antes dessa interrupção, maior era o limiar da dor.

Esse fenômeno, de acordo com os pesquisadores, é explicado pela Teoria do Cérebro Opioide do Apego Social. Comportamentos sincronizados comuns em rituais religiosos, como cantar juntos, orações e preces em uníssono, levantar-se ao mesmo tempo e compartilhar crenças, estimulam a liberação de “opioides mu”, como a beta-endorfina.

Os receptores opioides mu formam a principal estrutura do sistema nervoso responsável pelo alívio da dor. Eles funcionam como analgésico natural do corpo, diminuindo a percepção de dor e promovendo a coesão social em larga escala.

Além da maior resistência à dor, outra questão percebida na pesquisa, por meio de respostas a um questionário, foi o fortalecimento do vínculo social entre todos os participantes. Houve um crescimento de 5,4% no sentimento de conexão e pertencimento ao grupo, acompanhado por uma nítida melhora no estado afetivo, evidenciada pelo aumento de 13,1% no afeto positivo e por uma redução expressiva dos sentimentos negativos, o que impacta também na percepção de dor.

A fé propicia sentimentos de segurança e otimismo

O efeito psicológico da fé em relação à dor tem explicação devido à interligação estreita entre mente e corpo, de acordo com a terapeuta e psicanalista Fernanda Ferreira Junqueira. Ela diz que no ambiente terapêutico é possível observar dinâmicas fundamentais que aliviam dores.

“O fato de o paciente acreditar, ter esperança e ter confiança em algo além de si mesmo tem um efeito muito grande, tanto em relação à recuperação quanto em relação ao processo do tratamento. Isso aumenta a resiliência e a capacidade de suportar o processo de dor, porque ele atribui um sentido ao sofrimento e tem algo a que se agarrar”, explica.

Quando uma pessoa sente dor física, ela naturalmente a interpreta como um sinal de perigo. Essa sensação de ameaça ativa um ciclo biológico prejudicial: aumenta a ansiedade e a tensão muscular, que tornam a dor ainda mais intensa. A espiritualidade age quebrando esse ciclo ao oferecer sentimentos de segurança e otimismo.

“Na minha experiência, vejo que a fé tem uma capacidade muito grande de transformar o indivíduo. Acredito que o oposto do medo não é coragem, porque a coragem você pode ter mesmo com medo. O oposto do medo é a fé. É ela que faz você acreditar que não está em perigo, que vai dar certo e que pode ser bom”, afirma a especialista.

Comunidades de fé se tornam local de amparo

A comunidade religiosa também se torna espaço de amparo, o que também resulta em uma maior facilidade para absorver e superar a dor, seja ela física ou emocional. Segundo a pesquisa, rituais religiosos podem ser especialmente eficazes em comparação com outras atividades sincronizadas, como assistir a um evento esportivo juntos, “porque combinam sincronia com intencionalidade e objetivos sagrados compartilhados, além da conexão com um agente transcendente ou poder superior”.

“O vínculo social tem esse papel de amparo emocional e que faz com que a pessoa se sinta mais fortalecida e menos ameaçada ao passar por situações dolorosas, sejam elas dores emocionais ou físicas”, pontua Fernanda. Ela explica, ainda, que, em um ambiente sagrado, vários elementos — como o pertencimento, o amparo, a esperança, as música e as preces — proporcionam uma regulação emocional que também alivia o sentimento de dor.

Fernanda ressalta, por fim, que a fé não impede que o sofrimento faça parte da vida, mas oferece a perspectiva de que ninguém precisa enfrentá-lo sozinho ou desamparado. “A experiência de fé tende a ser muito benéfica para o ser humano porque o torna mais otimista e esperançoso diante dos sofrimentos da vida”, afirma.

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