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Sem cultos, as igrejas devem aproveitar suas instalações e recursos para promover ações de solidariedade aos mais vulneráveis. É essa a posição da Associação de Juristas Evangélicos que iniciou campanha focada em líderes religiosos.

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"[É preciso cuidar] dos grupos vulneráveis impactados pela pandemia do coronavírus, como forma de manifestação do caráter compassivo inerente à igreja cristã em toda a história", diz a Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure), que se apoia também no artigo 19 da Constituição Federal para garantir a sua liberdade de atuação nesses casos.

"Temos um cenário propício para o exercício da fraternidade. Há anuência legal e um legado de solidariedade construído através da história, de modo que o mesmo senso de compaixão presente em outros períodos deve nos mover no contexto de caos gerado pelo coronavírus", diz a nota publicada pela associação.

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"Por isso, conclamamos os pastores, líderes de ministérios e de agências missionárias, assim como cada membro de igreja, a contribuírem, segundo a multiforme graça de Deus que nos é concedida, com recursos, dons e talentos em prol dos necessitados".

A Anajure sugere que as instituições criem um "fundo de compaixão que possa suprir necessidades básicas de pessoas vulneráveis da igreja e da comunidade". Segundo o presidente da associação, Uziel Santana, as entidades já têm atuado nesse sentido.

"Fundos específicos para obra social já existem na maior parte das igrejas. A ideia é que elas possam aportar mais recursos ainda agora, para ajudar, por exemplo, moradores de rua, pessoas que não têm capacidade econômica, que precisam de proteção à pandemia", explica. "É preciso que essa frente assuma os holofotes da igreja".

Igrejas também podem estimular seus membros a realizar compras que contribuam com os chamados pequenos empresários que, no contexto atual, temem a quebra de suas empresas. Muitos pedem ao governo medidas como subsídio e corte de taxas e impostos.

"Temos recebido relatos de comerciantes, ambulantes, que vivem do mercado informal, que começam a enfrentar situações de vulnerabilidade", diz Santana. "A igreja tem a possibilidade de atender às pessoas que estão desesperadas nesse momento".

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O grupo, além disso, discute a possibilidade de criação de um fundo de âmbito nacional que consiga dar suporte às instituições que não tenham capacidade de acolher suas comunidades. A Anajure já solicitou o engajamento de parlamentares nesta causa.

Leia a nota na íntegra:

O Conselho Diretivo Nacional da Associação Nacional de Juristas Evangélicos – ANAJURE, no uso das suas atribuições estatutárias e regimentais, emite à sociedade brasileira a presente Nota Pública, conclamando as igrejas, pastores e líderes evangélicos a promoverem ações de fraternidade e solidariedade no contexto de pandemia do coronavírus.

O exercício da compaixão é uma marca que acompanha a igreja cristã desde os primórdios. No Antigo Testamento, há diversas passagens que orientam o cuidado de grupos vulneráveis, como os pobres, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos (v.g. Dt 24.17, Dt 24.20, Is 1.17, Zc 7.10). No Novo Testamento, as referidas orientações são ratificadas, como exemplifica a passagem contida em Mateus 25:34-40, na qual Cristo instrui seus discípulos sobre o cuidado do estrangeiro, do doente e das demais pessoas necessitadas.

Tais ensinos categóricos das Escrituras Sagradas têm inspirado diversas gerações de cristãos a se deixarem gastar em prol dos vulneráveis. Na época do domínio do Império Romano, quando a taxa de mortalidade era alta e o número de doentes também, o cristianismo foi tido como resposta à miséria, ao caos e ao medo, a partir das iniciativas da igreja primitiva.

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Relatos históricos narram ações de pessoas como John Wesley, que se dedicou, dentre outros afazeres, ao levantamento de ofertas para adquirir roupas para os pobres, à visitação dos encarcerados e à obtenção de provisões para eles, bem como à organização e apoio de albergues para crianças. William Wilberforce, conhecido pela luta bem-sucedida contra a escravidão e o comércio de escravos, também se empenhou em prol da reforma de prisões e se dedicou à fundação de escolas cristãs para os pobres. Num tempo de caos e de incertezas, C.S. Lewis concedeu uma série de palestras, pelo rádio, sobre o cristianismo, revigorando pessoas angustiadas pelas atrocidades da Segunda Guerra Mundial por meio da esperança contida no Evangelho.

Na atualidade, as ações de solidariedade continuam a ocorrer. Cristãos se engajam para auxiliar em meio aos desastres, abrigam moradores de rua em noites frias, acolhem crianças em situação de abuso e abandono, contribuem para a ressocialização de socioeducandos, dentre outras atividades.

A ANAJURE, compromissada com a ajuda humanitária, executa o projeto ANAJURE Refugees, por meio do qual fornece apoio aos refugiados em meio à crise migratória que atinge o mundo todo. Através do Refugees, famílias de refugiados já foram acolhidas no Brasil, bem como foram fornecidos atendimentos odontológicos, jurídicos, psicológicos e assistência social.

Em reconhecimento ao papel exercido pelas entidades religiosas, o constituinte brasileiro, ao prever disposições sobre a laicidade estatal, estabeleceu restrições à subvenção e ao embaraço de cultos, por exemplo, mas também mencionou expressamente a possibilidade de colaboração de interesse público (art. 19, inciso I, CF/88). Nessa linha, a Carta Magna assegura a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva (art. 5º, VII, CF/88).

Temos, portanto, um cenário propício para o exercício da fraternidade. Há anuência legal e um legado de solidariedade construído através da história, de modo que o mesmo senso de compaixão presente em outros períodos deve nos mover no contexto de caos gerado pelo coronavírus. Por isso, conclamamos os pastores, líderes de ministérios e de agências missionárias, assim como cada membro de igreja, a contribuírem, segundo a multiforme graça de Deus que nos é concedida, com recursos, dons e talentos em prol dos necessitados.

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Nesse sentido, sugerimos algumas possibilidades:

  • Criação de fundo de compaixão nas igrejas locais, a ser destinado para suprir as necessidades básicas de pessoas vulneráveis da igreja e da comunidade na qual a instituição está inserida;
  • Estímulo aos membros da igreja para a realização de ofertas específicas para ações de compaixão, segundo as condições de cada um;
  • Ênfase especial em grupos vulneráveis, como idosos, trabalhadores informais, pessoas em situação de rua e ambulantes das respectivas localidades;
  • Estimular compras que auxiliem pequenos empresários;
  • Estabelecer redes de contato com demais pastores e líderes para o compartilhamento de ações de compaixão realizadas.

Pelo exposto, a ANAJURE se pronuncia na presente ocasião convocando pastores, líderes e membros das igrejas a se engajarem, respeitando possíveis limitações financeiras e de saúde, com o cuidado dos grupos vulneráveis impactados pela pandemia do coronavírus, como forma de manifestação do caráter compassivo inerente à igreja cristã em toda a história.

Brasília, 24 de março de 2020.

Dr. Uziel Santana
Presidente da ANAJURE

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