Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Alan Ghani

Alan Ghani

Tarifaço

Um balanço das tarifas protecionistas de Donald Trump

Se Donald Trump tivesse ouvido os conselhos de Regan entenderia que o protecionismo é uma arma que atinge o próprio país que a aplica. (Foto: AARON SCHWARTZ/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

Quando o presidente dos EUA, no dia 02 de abril de 2025, lançou o tarifaço, muitos analistas tentaram entender os motivos da medida. As explicações mais plausíveis eram reindustrializar os EUA, arrecadar com tarifas de importação e enfraquecer a China.

Na época, os apoiadores de Trump vislumbravam ali uma estratégia genial do presidente americano, defensor do protecionismo desde a década de 1980. Passados mais de um ano da implementação da medida, o saldo do tarifaço não foi tão bom quanto se imaginava para os EUA.

Do lado positivo, o governo arrecadou US$195 bilhões no ano fiscal de 2025 e conseguiu atrair mais investimentos para alguns setores. Do lado negativo, a arrecadação foi muito aquém do desejado, sem contribuir efetivamente para reduzir um déficit fiscal de US$1,9 trilhão (5,8% do PIB), e não houve reindustrialização dos EUA.  Além disso, muitos países conseguiram contornar o protecionismo, e a China, principal alvo, não foi duramente atingida.

Na disputa com o gigante asiático, a arma americana era impor barreiras protecionistas para gerar uma perda de receita tanto para empresas como para o governo chinês. Ironicamente, a arma americana contra a China também era uma carta na manga do gigante asiático contra os EUA, uma vez que barreiras protecionistas aos produtos chineses significa maior inflação ao consumidor americano.

Trump tem buscado parcerias com o Brasil, detentor da segunda reserva mundial, para diminuir a dependência com o gigante asiático

Entretanto, ao contrário do que se imaginava, a grande arma chinesa não foi ferir o consumidor americano com inflação ou falta de mercadorias no Wall Mart, mas ameaçar os EUA com o fim de exportação de terras raras, minerais essenciais para diversas indústrias americanas (bélica e tecnologia). Quando a China anunciou a possibilidade de retaliar os EUA via terras raras, Trump recuou.

O recuou em relação à China evidentemente apontou fraqueza do ponto de vista geopolítico, ao mostrar a vulnerabilidade em relação a um ponto sensível à indústria norte-americana. Não à toa, Trump tem buscado parcerias com o Brasil, detentor da segunda reserva mundial, para diminuir a dependência com o gigante asiático.

As consequências negativas do tarifaço não param por aí. O imposto tarifário não foi absorvido pela perda de margens das empresas de outros países, mas repassada para os importadores e consumidores americanos. Não por acaso, importadores americanos recorrerem à Suprema Corte dos EUA para anular as tarifas protecionistas, impondo uma derrota para o governo Trump.

Se Donald Trump tivesse ouvido os conselhos de Regan entenderia que o protecionismo é uma arma que atinge o próprio país que a aplica. De acordo com o ex-presidente dos EUA, o protecionismo leva à perda de produtividade e inovação, estagnando a competitividade industrial da nação.

Reagan estava certo. Tarifas protecionistas não são a solução para reindustrializar os EUA e reduzir o déficit comercial e fiscal americano. Não há suporte teórico tampouco empírico que sustentam essa visão.

Do ponto de vista teórico, um déficit comercial significa apenas que o país gasta mais do que produz. Ou de outra maneira: investe mais do que poupa. Os EUA só conseguem sustentar esta situação por conta do financiamento de sua dívida, com a compra das Treasurys por parte do Japão, China e outros países.

Do ponto de vista empírico, países que adotaram mais abertura comercial elevaram seu grau de desenvolvimento. Inclusive essa foi a fórmula exportada pelo próprio EUA para vários países que tiraram milhares de pessoas da pobreza.

Seria muito mais eficaz para os EUA, Trump reduzir gastos governamentais (seguridade, militares, etc.) o que permitiria redução de custos para as empresas americanas, tornando-as mais competitivas no mercado internacional.

Menos gastos do governo significa menos impostos para empresas e consumidores. Foi justamente a receita de “menos Estado” um dos fatores essenciais que levou os EUA a se tornarem a nação mais rica do planeta. Trump deveria prestar mais atenção nas políticas de Reagan.

VEJA TAMBÉM:

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.