Massacre no Centro Cívico. Foto: Bruno Covello/Arquivo Gazeta do Povo.
Massacre no Centro Cívico. Foto: Bruno Covello/Arquivo Gazeta do Povo.| Foto:

Da coluna Caixa Zero, publicada nesta quarta-feira, na Gazeta do Povo:

Suponha que o sujeito tem um vício. Mais do que um vício – algo que é proibido por lei. Ele passa a vida fazendo aquilo às escondidas. Entre quatro paredes, ou em lugares escuros. Acha que sai impune só porque ninguém nunca está vendo o que ele faz. Em certo sentido, isso mantém o vício reduzido, e seus danos menores. Ele só pode agir quando está longe dos olhos dos outros.

Agora imagine que um dia, por descuido ou por acaso, esse cara faça a mesma coisa em praça pública. E, para seu espanto, descobre que mesmo assim passa incólume. A tendência, óbvio, é de que ele perceba que todos os cuidados que tomava antes eram desnecessários, quase exagerados. Agora, poderá agir ainda mais livremente, embora o que faça seja, repito, ilegal.

Essa é a situação de vários policiais militares neste momento. A polícia militar sempre teve, reconhecidamente, em sua tropa, gente que age de maneira violenta. Não se trata de todos os PMs. Mas é muito comum, por exemplo, que a polícia atire para matar em suas operações. Lógico que não dá para comparar de maneira simplista, mas a Grã-Bretanha no ano passado inteiro teve uma pessoa morta pela polícia.

No Paraná, só nos dias que antecederam a queda de Fernando Francischini (SD) da Secretaria de Segurança, foram sete mortes em confronto noticiadas pela imprensa. Sete vezes mais do que a Inglaterra em um ano inteiro, em menos de dez dias. Pode ser que tenham sido situações excepcionais que exigissem violência da polícia? Claro. Mas só uma investigação profunda revela essa necessidade – ou o abuso dos PMs.

Em geral, as denúncias de que os “confrontos” são armados passam batidas. Uma única vez, nos últimos anos, a morte de cinco pessoas por policiais virou escândalo. Descobriu-se pelo GPS da viatura que os assaltantes não tinham reagido coisa nenhuma à ordem de prisão. Se entregaram, mas foram levados a um matagal, assassinados e depois levados ao hospital, como se tivessem morrido no caminho.

Essas coisas geralmente acontecem na periferia. Às escuras. Sem imprensa, OAB ou autoridades por perto. E imaginava-se que era por isso que as coisas ficavam impunes. Será? O governo do estado vai dizer agora se isso procede. Dessa vez, a violência, que não terminou em morte, mas em 213 feridos, aconteceu diante dos olhos de todo mundo. Em praça pública, literalmente.

Não há apenas indícios de que os policiais agiram de maneira truculenta no Centro Cívico. Há provas cabais. Imagens em vídeo de PMs dando com o cassetete em gente caída no chão. Vídeos de celular mostrando que policiais espirraram spray de pimenta nos olhos de manifestantes caídos. Sem falar nos depoimentos sobre os mais variados graus de abuso – culminando com a história absolutamente incrível de uma estudante da UEL sendo deixada nua por policiais dentro do palácio de governo.

À polícia, à Secretaria de Segurança, ao governo do estado, ao governador sobram duas opções. Fingir que essas provas não existem, mesmo sabendo que elas estão em público, ou punir os responsáveis. A segunda opção pode ajudar a refrear novos impulsos de policiais que possam querer agir novamente de maneira violenta. Seria uma mensagem de que nem tudo é aceito por aqui.

A opção de jogar tudo para baixo do tapete, que parece a mais provável, só piora as coisas, só manda aos PMs o recado de que eles podem fazer o que quiserem e que nada vai acontecer com eles. A violência dará mais um passo rumo à institucionalização. E a periferia sofrerá na pele, literalmente, as consequências.

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