Presidente Jair Bolsonaro| Foto: EVARISTO SA/AFP or licensors
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A pesquisa Datafolha que aponta popularidade recorde do governo de Jair Bolsonaro coincide com um momento em que o presidente tem apresentado uma versão light, desidratada, de si mesmo. Bolsonaro é um governante que desde janeiro de 2019 flertou pelo menos duas vezes com a possibilidade de uma intervenção militar, acostumou-se a interpretar a dificuldade de relacionamento com o Congresso Nacional como um desafio à sua autoridade, deu asas às teorias de complô do Supremo Tribunal Federal (STF) contra ele e fez da imprensa seu saco de pancadas e bode expiatório favorito. No lugar desse presidente, o que temos visto nos últimos dias é um ser humano mais comedido, menos polêmico e combativo, disposto a expor uma agenda positiva de políticas públicas no lugar da retórica ideológica e de enfrentamento a moinhos de vento. Estamos diante da melhor versão de Bolsonaro?

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Para efeito de esclarecimento, os flertes com a intervenção militar já foram bem mapeados por colegas da imprensa. O primeiro ocorreu em maio de 2019, quando milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra sua política educacional. Na volta de uma viagem para os Estados Unidos, Bolsonaro compartilhou no WhatsApp um texto conspiratório que taxava o Brasil de "ingovernável". Nos dias que se seguiram, a cúpula do Congresso sentiu uma atmosfera de rompimento da ordem constitucional — que contava, suspeitava-se, com o apoio de parte do generalato do Palácio do Planalto — e o ministro do STF Dias Toffoli entrou em cena, nos bastidores, para abafar a crise.

O segundo flerte ocorreu no dia 22 de maio, quando surgiu o risco de Bolsonaro ter de entregar seu celular para investigação, por determinação do ministro Celso de Mello, do STF. Em consonância com o presidente, o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, divulgou uma nota de ameaça à independência entre os poderes.

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Os dois episódios — e ainda não sabemos se foram os únicos — demonstram que o presidente, quando acuado, tende a reagir com arroubos autoritários, com o desejo de recorrer à solução do "cabo e do soldado", na definição de um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

As últimas semanas, porém, sugerem que Bolsonaro e seus conselheiros mais próximos encontraram um caminho mais suave para mantê-lo no comando, ou melhor, para afastar a sensação, que muito o atemoriza, de que seu poder está ameaçado.

Esse caminho tem um lado bom, florido, que é o de evitar declarações polêmicas, abandonar as provocações desnecessárias a membros de outros poderes da República, reduzir os ataques à imprensa e deixar um pouco de lado a guerra cultural — aquela combatividade ideológica influenciada pelo olavismo e personificada no ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que divide os brasileiros em bons e maus, bolsonaristas e comunistas.

O velho Bolsonaro, aquele que nega a ciência, minimiza as mortes da pandemia e lança impropérios contra opositores, ainda pode ser vislumbrado em espetáculos pocket, como na sua live semanal de quinta-feira. Mas está mais tímido, menos exuberante.

Seria essa a melhor versão de Bolsonaro?

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Mas o caminho que o presidente vem percorrendo tem, também, um lado mais árido, pedregoso e complicado, que é o do toma lá da cá com distribuição de cargos para conseguir blindagem política no Congresso, do populismo assistencialista e do abandono da agenda econômica liberal.

A preocupação com as camadas mais pobres da população, como defendo desde antes da pandemia, é algo que sempre deveria estar na pauta do governo Bolsonaro. O auxílio emergencial, que existe graças ao Congresso Nacional e que se tornou bandeira do Executivo, serviu de colchão necessário aos mais vulneráveis nos últimos meses.

Dado o seu já demonstrado potencial político e eleitoreiro, contudo, o assistencialismo de planejamento escasso, sem porta de saída, arrisca-se a se tornar o cavalo de troia do descontrole do gasto público e do aumento de impostos. Junte-se a isso o fortalecimento da ala desenvolvimentista do governo federal e tem-se um cenário em que a fachada liberal de Jair Bolsonaro, que como deputado nunca rezou por essa cartilha, começa a ruir. Quanto tempo durará Paulo Guedes, o ministro da Economia, que deu cores a essa fachada?

Desenvolvimentismo de direita, populismo assistencialista e rendição ao toma lá da cá: a melhor versão de Bolsonaro parece um híbrido de Ernesto Geisel, Hugo Chávez e Lula.