i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

Fernando Martins

Foto de perfil de Fernando Martins
Ver perfil
Análise

O dilema do prisioneiro e a política: o que a teoria dos jogos diz sobre a polarização

  • Por Fernando Martins
  • 31/01/2020 14:53
Como a teoria dos jogos explica a polarização política e a democracia
Ilustração: Felipe Lima.| Foto:

A teoria dos jogos, um ramo do estudo da lógica matemática, vem sendo usada há algumas décadas para avaliar quais são as melhores e piores decisões quando pessoas competem entre si para melhorar seus ganhos. O foco inicial era a economia. Mas logo a teoria passou a se debruçar sobre estratégias geopolíticas e militares. Hoje, é utilizada nas mais variadas áreas do comportamento humano. E pode ser útil para compreender a democracia, a atual polarização política e as atitudes mais adequadas para o bem da coletividade.

O “dilema do prisioneiro” é um experimento da teoria dos jogos particularmente interessante para analisar regimes democráticos, bem como a radicalização política contemporânea. Embora esse exercício de lógica use dois criminosos como personagens, o dilema se aplica a qualquer cenário em que pessoas têm diante de si a opção de colaborar com os adversários em busca de um resultado que seja aceitável para todos ou de pensar apenas em si para obter um ganho individual maior. Como a política é uma disputa entre grupos de interesse com impactos sobre a sociedade inteira, essa é uma boa ferramenta de análise.

O dilema do prisioneiro consiste no seguinte cenário: a polícia prende dois comparsas de um crime e os encarcera em celas separadas para que não possam se comunicar. Como as provas contra eles são fracas, a alternativa para os policiais obterem uma condenação mais pesada é por meio de uma confissão ou delação.

Então, a polícia oferece aos dois um mesmo acordo. Se confessar o crime e testemunhar contra o outro, poderá ser posto em liberdade ou ter de cumprir cinco anos de prisão, dependendo da atitude que seu parceiro vier a tomar. Ele estará livre se o outro não colaborar com as investigações e ficar quieto. Nesse caso, o criminoso que optou pelo silêncio pega dez anos de prisão. Na outra opção, os dois colaboram entregando o cúmplice e  dividem a pena: cinco anos de detenção para cada um. Há uma última possibilidade: se ambos ficarem calados, eles só poderão ser condenados a seis meses de detenção com as provas disponíveis.

Do ponto de vista lógico, a melhor solução para ambos – o grupo – seria nenhum deles abrir a boca (ou seja, eles cooperarem entre si). A punição é relativamente baixa: as penas somadas são de um ano de prisão, contra dez nas demais alternativas. Individualmente, o melhor seria delatar e não ser delatado. Mas o problema é que os dois sabem dessa condição e dificilmente vão apostar que o outro ficará quieto. O resultado é uma tendência a ocorrer uma traição mútua, que levará ao pior cenário para o grupo: o maior número de condenados com a maior punição possível (na soma das duas penas).

Nos anos 1980, o cientista social norte-americano Robert Axelrod usou o dilema do prisioneiro para investigar os efeitos da cooperação e das atitudes mais egoístas e individualistas numa comunidade. Axelrod testou qual seria a melhor estratégia de vitória em jogos desse tipo. Programadores de softwares foram convidados para a disputa. Cada programa jogou contra outros softwares num campeonato com 200 partidas para cada jogador.

O modelo matemático vitorioso bateu softwares extremamente complexos com uma programação simples, de apenas quatro linhas. A tática – batizada de tit for tat (expressão inglesa que significa “olho por olho” ou “na mesma moeda”) – consistia em sempre começar o jogo com uma atitude amigável para depois, nas rodadas seguintes, invariavelmente repetir o lance anterior do adversário.

Se houvesse cooperação e atitude amistosa, isso seria mantido. Mas se o oponente buscasse seu próprio benefício individual, como no caso de uma traição, haveria retaliação na mesma intensidade. Mas, caso o outro se arrependesse e viesse a adotar uma postura cooperativa, ele seria perdoado. E receberia essa mesma atitude de retribuição.

Axelrod analisou os resultados do experimento no livro A Evolução da Cooperação, lançado em 1984. A conclusão não chega a surpreender: a cooperação sempre é mais benéfica para a coletividade do que estratégias não colaborativas, egoístas e individualistas. Uma comunidade saudável, enfim, não pode ser constituída majoritariamente por pessoas que só pensam em si mesmas.

Mas há minúcias menos evidentes. Um detalhe importante é que o software do “olho por olho” não venceu todos os embates; foi o que conseguiu a melhor média de pontuação no campeonato. Ou seja, não existe sistema perfeito. Às vezes, o individualismo, o egoísmo, a trapaça serão mais eficazes – embora a melhor estratégia de longo prazo para obter maiores ganhos individuais seja apostar na cooperação.

A tática vitoriosa tampouco é 100% cooperativa e amistosa, apesar de essa ser sua essência. O modelo “olho por olho” mistura atitudes diferentes. É “justa” (alguns classificam de “vingativa” ou “punitiva”) porque retribui o erro, a traição e o comportamento negativo do adversário com uma punição. Mas também é “generoso” ao perdoar o oponente quando ele reconhece que errou. Por fim, a estratégia de sucesso também é “transparente e previsível”: o outro consegue identificar claramente quais são as regras de conduta com as quais está lidando.

É possível traçar paralelos entre o modelo matemático de sucesso e a democracia. Os regimes democráticos assentam-se numa cooperação social baseada em direitos e deveres e na negociação para resolver problemas. A justiça – punição de quem desrespeita as regras de convivência – é outro de seus pilares. A transparência e a previsibilidade de regras também são características dos países democráticos que deram certo. Não é coincidência que as nações mais desenvolvidas econômica e socialmente na “competição global” sejam democracias, embora em alguns momentos e em casos específicos haja ditaduras vitoriosas.

A estratégia de sucesso no dilema do prisioneiro também serve de alerta para as ameaças da polarização e da radicalização política atuais. Com dois lados sem disposição de colaborar com o oponente, enxergando-o como um inimigo a ser eliminado, corre-se o risco de uma guerra política em que todos serão prejudicados.

12 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 12 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • F

    Fernando

    ± 4 dias

    Achei a explicação sobre a Teoria dos Jogos um pouco confusa. Além disso, a conclusão foi um tanto quanto abrupta como já mencionado nos comentários anteriores. A ideia geral do artigo é boa mas poderia ter sido melhor apresentada, desenvolvida e exemplificada.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Marcos eisenschlag

    ± 4 dias

    O artigo comeca bem, mas quando tenta modelar a democracia como "dilema do prisioneiro" se perde. Se existe algum modelamento comparavel seria o do "jogo do ditador" : nos e' imposta uma proposta e nos aceitamos-a para ambos ou nao. Ja' que 2020 parece ter chegado mais cedo, a tonica dos jornais daqui pra frente sera das vantagens de viver sobre o grande pacto entre a cleptocracia do centrao do Rodrgio Maia e do parasitismo estatal da grande midia sob a representacao de Luciano Huck. Sem polarizacoes...mas so' se vc aceitar.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    1 Respostas
    • M

      Marcos eisenschlag

      ± 4 dias

      * 2022

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • V

    VANESSA SEGER APLEWICZ

    ± 4 dias

    Excelente artigo com algumas ressalvas! Explicou a Teoria dos Jogos de forma didática e clara! Insta salientar, que é justa as críticas dos comentários infra sobre a rápida e rasa conclusão sobre a polarização da política brasileira. Faltou também citar o famigerado Equilíbrio de Nash. Parabéns por trazer esse tema ao debate.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • F

    Francisco

    ± 4 dias

    Ótimo artigo. A teoria está bem exposta. A conclusão explorou pouco o jogo político brasileiro. Aqui a função objetivo de um lado é aniquilar o outro, num ambiente em que não há confiança. Assim não há uma possibilidade em que coexistam os dois lados. Só há solução quando um perde, não há uma intersecção honesta no conjunto de interesses. Logo, um tem de perder, ainda que o outro ganhe uma terra arrasada. Nada racional. Somente humano.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    Antonio Antunes Rodrigues Jr.

    ± 4 dias

    Excelente artigo, porém a conclusão foi súbita e forçada para englobar a polarização política atual na teoria dos jogos.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • V

    Vanderlei da Rosa

    ± 4 dias

    E quando apenas um lado é composto de ladrões, corruptos, é que pensam só em si? Como chegar num acordo com pessoas assim, sendo que este lado só pensa em sair da prisão para cometer mais crimes? Essa teoria não leva em conta esta possibilidade? Negociar com bandidos definitivamente não é a solução!!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    3 Respostas
    • A

      Alex Fox

      ± 3 dias

      Acho que vocês não entenderam. Na teoria dos jogos não existe como jogar fora das regras do jogo, não existe restrição quanto à atuação dos personagens do jogo... assim como na política, os atores envolvidos podem tomar QUALQUER decisão, mesmo que seja ilegal ou imoral, as suas ações terão reflexos e assim por diante.

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • M

      Marcos eisenschlag

      ± 4 dias

      Takushi: O Vanderlei foi exatamente no fundamental; Nao e' possivel aplicar modelos de teoria dos jogos quando um dos lados esta disposto a nao jogar dentro das regras do jogo.

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • T

      Takushi

      ± 4 dias

      Acho que vc não entendeu bem o raciocínio da teoria

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Marçal

    ± 4 dias

    Excelente artigo Fernando. Me faz ver que o atual governo não quer chegar a um acordo com a sociedade como um todo, mas sim que a discordância aberta e o apoio do seu grupo mais extremista. Por fim, se o outro grupo não pensa igual torna-se imediatamente inimigo a ser eliminado. Talvez, se tivessem umas aulas da teoria dos jogos e não da teoria da conspiração, melhorasse o clima interno do país.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • E

    Eduardo Prestes

    ± 4 dias

    O problema é que quando um quer guerra, o outro lado fica obrigado a reagir ou será aniquilado. Há um lado que ataca (a esquerda), por convicção ideológica. E há um lado que reage (a direita), mesmo que seus membros estivessem mais interessados em tocar suas vidas, sem grandes preocupações políticas. Mas isso com a esquerda é impossível, como sabem os povos de Cuba e Venezuela. A esquerda precisa ser enfrentada ou irá transformar o Brasil em mais uma tirania marxista. Bolsonaro foi eleito de forma legítima, mas a esquerda sempre desprezou a democracia e entrou em guerra. Estamos reagindo a estes loucos, que sonham com uma guerra civil para materializar seu mantra: “luta”.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

Fim dos comentários.