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Fernando Schüler

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Desigualdade para além da retórica

  • Por Fernando Schüler
  • 14/11/2019 00:01
Mãe de quatro filhos, Neuzilene Silva, de 32 anos, caminha 40 minutos para levar uma das filhas para escola: renda familiar mal chega nos R$ 600.
Mãe de quatro filhos, Neuzilene Silva, de 32 anos, caminha 40 minutos para levar uma das filhas para escola: renda familiar mal chega nos R$ 600.| Foto: Lúcio Vaz

Tempos atrás uma jornalista me disse que se preocupar com os mais pobres e não com a desigualdade era uma posição "conservadora". Eu havia escrito um artigo baseado na visão de James Heckman de que era preciso capacitar e integrar as pessoas à dinâmica do mercado e me perguntava em que sentido isso poderia ser uma posição conservadora.

Na verdade, não é. Trata-se apenas de uma posição pouco sexy, em nossas democracias polarizadas. Falar mal dos mais ricos ou enfileirar gráficos com a diferença de renda entre as pessoas tem muito mais efeito, no mundo retórico, do que pensar com seriedade sobre como melhorar a vida dos mais pobres.

Imaginem a seguinte situação. João Pedro está para nascer e a loteria da vida decidiu que ele irá viver em algum lugar do Piauí. Sua chance de crescer em uma casa com acesso à rede sanitária é de 7%. Se a sorte o tivesse feito descer em algum lugar de São Paulo, seria o inverso: teria mais de 90% de chances de crescer em um casa com esgoto tratado.

A pergunta a fazer: seu problema é a desigualdade de condições em relação ao seu alter ego paulista ou o fato de não dispor de acesso sanitário?

Falar mal dos mais ricos ou enfileirar gráficos com a diferença de renda entre as pessoas tem muito mais efeito, no mundo retórico, do que pensar com seriedade

O Congresso está para votar o novo marco regulatório do saneamento básico. Ele parte de uma constatação básica: o Estado é responsável por 94% da coleta de esgoto do país e perto de metade dos brasileiros está até hoje sem o serviço. A ideia é atrair investimento privado para o setor, via competição e segurança jurídica para contratos de longo prazo.

É a melhor solução? Há alguma outra ideia na mesa? É possível que exista, mas é esta a discussão a ser feita. É assim o mundo real da decisão pública que de fato afeta a vida das pessoas, ainda que esteja muito longe da lógica do entretenimento que tomou conta da política.

O mesmo ocorre com nossa educação básica. Se abrirmos os números do Pisa, o teste educacional na OCDE, veremos que há dois brasis escondidos ali. O país das escolas particulares, que pontua próximo à média norte-americana, e o país das escolas estatais, nas últimas posições.

O Congresso está para votar o novo desenho do Fundeb, o principal instrumento de financiamento de nossa educação básica. A pergunta é: vamos continuar proibindo, contra o que está escrito na Constituição, que estados e municípios possam fazer parcerias com boas instituições privadas sem fins lucrativos e permitir que as crianças mais pobres estudem nas mesmas escolas que seus vizinhos de maior renda?

Esta é a pergunta séria a ser feita. Exatamente a pergunta que os que já têm a vida ganha e apreciam uma boa retórica não gostam de fazer.

Tempos atrás, li uma reportagem, aqui na Folha, sobre os super-ricos e a concentração de renda no Brasil. O foco era a desigualdade, mas os exemplos e histórias de vida contavam algo bastante diferente: elas mostravam os males da pobreza, em regra provocados por nossas escolhas erradas, no mundo real da política.

Uma dessas histórias era a do Guimarães, pequeno empreendedor que tentou abrir uma rede de barbearias e quebrou. Seu insucesso veio na crise brasileira de 2015/16. O desemprego bateu e sua clientela desapareceu. Nenhum bruxo mau transferiu seu dinheiro para o top 1%. A economia entrou em crise pelas razões sabidas, associadas à irresponsabilidade fiscal e às barbeiragens na condução da política econômica. E o Guimarães pagou a conta.

Vai aí uma lição: há um tipo de desigualdade que realmente devemos combater. Ela não diz respeito a quem produz valor, legitimamente, no mercado, mas, sim, a nossas decisões erradas e à captura do Estado pelos grupos organizados no mercado político.

A lista é grande. Incentivos fiscais localizados, como os jatinhos a juros subsidiados, via BNDES; as aposentadorias especiais, capturadas por quem se move bem no Congresso. Tudo que faz com que 75% das transferências públicas, no Brasil, sejam classificadas como "pró-ricos" pelo BID e os servidores federais ganhem em média 96% a mais do que seus pares do setor privado.

Reconheço que são temas indigestos. Eles tocam em interesses corporativos bem posicionados e exigem, para sua solução, um caminho espinhoso: que as demandas difusas, em especial dos mais pobres, sejam postas à frente das urgências dos grupos de pressão, com sua imensa capacidade retórica.

Ser um conservador, digo pra minha amiga jornalista, no mau sentido da expressão, é precisamente isto: sustentar o status quo de um Estado estruturalmente quebrado e que, a par disso, funciona alegremente como Robin Hood ao avesso.

16 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
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Comentários [ 16 ]

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  • W

    WILSON MUGNAINI

    ± 4 horas

    Pertinente. Vai ao encontro que, ao longo da minha carreira, sempre enfatizei: como é fácil ser crítico de obra feita!!!! O difícil é fazer a critica e apontar soluções alternativas. Um exemplo: entre apresentar projetos para a solução de falta de moradias o pessoal ligado à esquerda prefere a invasão!!!! Por que não usar seus representantes políticos e propor leis? Seguir a liturgia? Ahhhh, isso exige reflexão, inteligência, coordenação, acordos, consensos. Invadir é mais fácil e dá mais visibilidade.

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    Sandra eberle de Carvalho

    ± 8 horas

    Texto brilhante . Só tenho a discordar na parte que toca o funcionalismo público e os enfia tudo no mesmo balaio de gato . Infelizmente, toda vez que surge uma crise gostam de jogar a culpa nos “altos” salários dos servidores . Ocorre que , em sua esmagadora maioria esses altos salários não estão no executivo e sim no judiciário e essa pecha de que o funcionalismo ganha muito acaba colando em todos os servidores , o que não condiz com a realidade.

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  • C

    Carlos Indio do Brasil de Paula Neves.

    ± 8 horas

    Uma coisa me deixa feliz com toda essa discussão: muita gente está acordando para a realidade perversa da interferência do Estado na vida das pessoas. E isso irá abrir novas perspectivas na sociedade, trará um novo alento. Não sejamos ingênuos, o mercado por si só, não resolve todos os problemas, mas podemos encontrar um meio termo, que se adeque às nossas necessidades e atenda com eficiência às demandas dos mais pobres, esses sim precisam de atenção do Estado.

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  • E

    eduardo pontes de andrade

    ± 9 horas

    O sonho dos esquerdistas é ter uma igualdade social ao extremo:todo mundo pobre(exceto a cúpula do partido).

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  • N

    Nelson Correa

    ± 11 horas

    Muito bom sr Schüler. Gosto quando o sr escreve ou pensa livre das amarras de cobranças e posicionamentos de pares e sem isentismo. Esqueça o bolsonarismo, ele lhe atrapalha. Sucesso.

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  • A

    Adriel Farias

    ± 19 horas

    O problema é a pabreza. O estado é o maior causado de desigualdades, dar poder para o estado diminuir desigualdades é um tiro no pé.

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    Adriel Farias

    ± 19 horas

    O problema é a pabreza. O estado é o maior causado de desigualdades, dar poder para o estado diminuir desigualdades é um tiro no pé.

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  • R

    RAQUEL SILVA GOMES

    ± 20 horas

    O cara criticando o discurso da desigualdade depois acaba tropeçando nas próprias palavras quando fala do funcionalismo... Que ideia mais esdrúxula comparar a média dos servidores como se um técnico fosse a mesma coisa que um juiz ou um auditor ou auxiliar.. e colocar tudo no mesmo **** e simplesmente citar um estatística absurda para embasar um argumento esfarrapado...

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    2 Respostas
    • O

      Oliveira

      ± 19 horas

      Nem técnico nem juiz produz riqueza - vivem delas. Tá bom assim?

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    • A

      Adriel Farias

      ± 19 horas

      Acho que está equivocada não ele comparando juízes com técnicos, mas as profissões equivalentes da iniciativa privada e do funcionamos público, enfim um dos maiores provedor de desigualdades no Brasil é o estado.

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  • R

    Rômulo Viel

    ± 1 dias

    Sensacional!!

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  • S

    Sérgio Fonseca

    ± 1 dias

    Mente brilhante, textos brilhantes, ideias brilhantes, sejamos unidos e ajudaremos a formar um Brasil que tem tudo pra brilhar . Mas o caminho apesar de obviamente árduo é pela direita. Virar à esquerda o abismo pode ser pior do que já vivemos nos últimos 16 anos. Vamos formar uma forte aliança, o Brasil precisa voltar a pertencer aos brasileiros, de fato e de direito quem sabe até sempre. Parabéns Fernando. Sou admirador do seu trabalho.

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  • A

    André

    ± 1 dias

    Muito bom!

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  • M

    Marco Antonio Severo de Souza

    ± 1 dias

    Sinceramente, prefiro que os grandes empresários ganhem seus milhões enquanto eu ganho 200 mil por ano a todos ganharem 10 mil por ano. Essa conversa de desigualdade é papo de gente ressentida e invejosa.

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  • A

    Admar Luiz

    ± 1 dias

    É isso, Fernando, disseste tudo. Num país de castas e privilegiados ser conservador, pregar o livre mercado, a meritocracia, vai contra o status quo de quem quer que o estado faça tudo e controle nossas vidas. O exemplo do saneamento é esclarecedor. O estado não é capaz de levar nem o básico de tratamento de esgoto a população. E vem com esse papinho chulo de desigualdade. Pura inveja.

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  • M

    Mauro

    ± 1 dias

    Pois é, prezado Fernando, adorei o texto! Trabalhei em ETECs por 12 anos, e, no frigir dos ovos, o objetivo principal é "produzir certificados" produzir "estatísticas". O ideal: "capacitar e integrar as pessoas à dinâmica do mercado" Não é almejado!!! Fazer com que a APROVAÇÃO esteja em alta é palavra de ordem. Você acertou no alvo!!!! PURA RETÓRICA. Muito obrigado.

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