Jornalista segura jornal com críticas a Boris Johnson, em frente à residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Londres, 13 de janeiro| Foto: EFE/EPA/ANDY RAIN
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O premiê britânico Boris Johnson está balançando no cargo. Chefe do governo do Reino Unido desde junho de 2019, primeiro sucedendo Theresa May dentro do partido Conservador e depois eleito em dezembro de 2019, Johnson tinha bom desempenho perante a pandemia na avaliação da opinião pública. Os últimos meses, entretanto, fizeram um estrago na sua imagem, especialmente por uma série de gestos vistos como hipócritas pelo eleitorado, contradizendo as responsabilidades de um líder.

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Jornalista conhecido do público, Johnson foi prefeito de Londres de 2008 a 2016. Em meados daquele ano tornou-se o Secretário de Relações Exteriores do governo de Theresa May. Principalmente, foi um dos principais nomes e rostos da campanha pelo Brexit, talvez o maior político estabelecido que defendeu essa posição. Ao menos publicamente, claro. May, por exemplo, embora encarregada de executar o Brexit, não era uma brexiteer e, mais de uma vez, no governo Cameron, foi gravada criticando a ideia.

Foi essa bandeira que o projetou para suceder May na eleição interna do partido Conservador e, depois, para vencer as eleições gerais. A de ser um defensor do Brexit que o colocaria em prática, nem que fosse necessária uma ruptura sem negociações, como ele ameaçava na época. Todas essas questões já foram abordadas em colunas anteriores no nosso espaço, desde a sucessão conservadora até problemas ligados ao Brexit, como a fronteira interna da ilha da Irlanda e a questão de Gibraltar.

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Pandemia

A saída britânica da União Europeia já seria um desafio complicado em condições normais. Junto com isso veio a pandemia de Covid-19. O dia 31 de janeiro de 2020 é simbólico. É tanto o dia em que oficialmente o Reino Unido deixou de ser um membro da UE quanto o dia em que foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em solo britânico. O primeiro óbito veio no dia sete de março e, no dia 23 daquele mês, a primeira  Stay at Home Order, “Ordem de Ficar em Casa” numa tradução livre.

Viagens não-essenciais foram suspensas, as pessoas foram instruídas a manter distância e evitar contatos, escolas, bares e empresas foram fechadas. Duas atividades podem exemplificar bem a relação entre o Brexit e a pandemia. A primeira é a dos profissionais de saúde, já que muitos que trabalhavam no Reino Unido e eram cidadãos de países europeus ficaram em situação de incerteza burocrática. O que poderia ser um pequeno revés em tempos normais se tornou um problema muito maior durante uma pandemia.

O segundo exemplo é o da alfândega, já que as incertezas pós-Brexit deixaram ainda mais caótica a situação de abastecimento de insumos de saúde e do funcionamento das cadeias de abastecimento. As duas primeiras ondas da pandemia atingiram o Reino Unido de forma grave. O país é o trigésimo do mundo em mortes por milhão. Para efeito de comparação, o Brasil está em 14º, os EUA em 19º e a Irlanda em 75º. O Reino Unido também é um dos países que mais testa no mundo.

Foram realizados mais de 400 milhões de testes, o terceiro no mundo em números absolutos e um dos dez mais em números proporcionais. Isso é mais de seis vezes o número de testes feitos no Brasil. A política de testagem, junto com outras políticas públicas e uma intensa campanha de vacinação, com a produção doméstica de imunizantes, fez com que o governo britânico conseguisse entrar no ano de 2021 com a pandemia relativamente sob controle.

Opinião pública

E quem diz isso não é a coluna, é a opinião pública britânica. A aprovação de Johnson em abril de 2020 estava na casa dos 60%, antes de desabar para 34% ao fim do ano. Enquanto os conservadores levaram 43,6% dos votos em dezembro de 2019, as pesquisas feitas em maio e em junho de 2021 davam até 47% das intenções de voto para o partido, com a aprovação do governo na casa dos 50%. Hoje, ambos os números desabaram e Boris Johnson enfrenta uma grave crise de imagem.

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A reprovação ao governo está chegando na casa dos 70% e as últimas pesquisas eleitorais colocam 40% das intenções de voto para a oposição trabalhista que, hoje, seria a vencedora nas eleições gerais. Em 16 de dezembro de 2021 o distrito de North Shropshire realizou eleições para substituir o parlamentar Owen Paterson, que renunciou ao cargo. A eleita foi Helen Morgan, dos Liberal Democratas, na primeira vez na História em que os conservadores foram derrotados no distrito.

Os leitores talvez se lembrem quando, na coluna sobre as eleições para o congresso da Argentina, em novembro de 2021, comentamos que a popularidade de Alberto Fernández estava em baixa. Na ocasião, foram publicadas fotos da festa de aniversário da primeira-dama, Fabiola Yáñez, em 14 de julho de 2020 na residência presidencial de Olivos, com vários convidados que não utilizavam máscara de proteção. Dissemos aqui em nosso espaço que “o estrago da hipocrisia explícita estava feito”.

Afinal, enquanto a população precisava lidar com diversas medidas de restrição sanitárias, o próprio presidente, que deveria ser o exemplo, as violava. Aglomeração, festinha, convidados sem máscara sorridentes nas fotos. Pegou muito mal, para ser gentil. Boris Johnson passa com a mesma coisa agora. Duas festas vieram a público, ambas na residência oficial de Downing Street, com entre vinte e quarenta pessoas envolvidas, música, queijos e vinhos.

Uma delas foi em maio e a outra nas semanas anteriores ao Natal. Ambos momentos de restrições sanitárias no país. Em dezembro uma assessora de imprensa já havia renunciado, após um vídeo em que ela “brincava” sobre uma festa supostamente fictícia. O premiê, na época, pediu desculpas pela assessora e afirmou que "garantiram-me repetidamente, desde que essas alegações surgiram, que não houve festa e que nenhuma regra foi quebrada".

Sua versão mudou para uma confissão de que existiu uma festa, mas ele não estava presente. Depois, que ele esteve lá, mas não festejou. Perante o parlamento, disse que pedia sinceras desculpas e que apenas cumprimentou seus funcionários. “Entrei naquele jardim logo depois das seis do dia 20 de maio de 2020 para agradecer a grupos de funcionários antes de voltar ao meu escritório, 25 minutos depois, para continuar trabalhando (...) Pensando bem, eu deveria ter mandado todos de volta para dentro”.

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Renúncia?

Esse acaba sendo um golpe na imagem de um governo que já é afetado por outros problemas, como aumento de casos da nova variante ômicron e problemas ainda ligados ao Brexit, como as disputas marítimas com a França. Nas palavras do próprio premiê, enquanto a população faz sacrifícios por 18 meses e não pôde sequer se despedir direito de seus entes queridos, os fazedores de regras as quebravam. Parte do parlamento o vaiou e a oposição pede sua renúncia.

E não apenas a oposição trabalhista. Sir Ed Davey, líder dos Liberais Democratas, pediu pela renúncia de Johnson, afirmando que as festas feriram a confiança pública no governo e que "a rainha sentada sozinha, lamentando a morte do marido, é a imagem definitiva do lockdown". Principalmente, alguns nomes conservadores, como Andrew Bridge, já falam em um voto de desconfiança. São necessários 54 parlamentares conservadores ou a maioria do parlamento para iniciar o processo.

E aqui surgem duas questões importantes. Uma é que a situação pode piorar, com outras supostas festas reveladas, ou eventuais detalhes das festas já sabidas, como terem ido além da meia noite ou convites que diziam para trazer sua própria bebida alcóolica. Inclusive, especula-se uma festa de despedida para um fotógrafo oficial que teria ocorrido durante o luto oficial pela morte do príncipe consorte Phillip. Caso isso tenha ocorrido, Boris Johnson sabe. E sabe que não conseguirá manter a aparência por muito tempo.

Segundo, os conservadores certamente querem impedir uma articulação que cause a dissolução do parlamento e uma nova eleição geral. O atual parlamento possui mandato até maio de 2024. Daí pode-se concluir que o partido Conservador buscará uma solução dentro de seus quadros. Boris Johnson seria “convidado” a uma renúncia honrosa, abrindo caminho para uma eleição interna ao partido. O país teria então um novo, ou uma nova, premiê, que teria dois anos para renovar a confiança no governo.

É algo muito similar ao que ocorreu na Suécia, onde Stefan Lofven renunciou em setembro para abrir caminho para um novo governo que teria um ano para se preparar para as eleições. Caso Johnson não renuncie, existe o caminho do voto de desconfiança interno ao partido. Finalmente, é claro, é possível que Johnson consiga superar a crise, o que soa muito improvável hoje, ainda mais com possíveis novas revelações. Provavelmente uma renúncia virá por aí.

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