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Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial.
Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial.| Foto: Salvatore Di Nolfi/EFE/EPA

“Não há movimento proletário, ou mesmo comunista, que não tenha agido no interesse do capital, na direção indicada pelo capital e no decorrer do tempo permitido pelo capital – ainda que seus líderes mais idealistas jamais tenham suspeitado disso” (Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente)

Como venho mostrando em diversos artigos, desde o fim da Guerra Fria o pequeno grupo de pessoas que realmente mandam no mundo – e que, como já dizia Benjamin Disraeli, é composto por personagens muito diferentes do que imagina o cidadão comum – encontrou a fórmula ideal para instituir, na prática, uma forma de governo mundial: a síntese entre o dinamismo econômico do capitalismo liberal e a eficiente tecnologia de controle político desenvolvida pelos regimes comunistas. Essa síntese resulta, hoje, numa concentração historicamente inédita de poder e dinheiro nas mãos das elites globalistas que controlam as organizações internacionais e, por meio delas, a política interna de quase todas as nações do planeta. Contrariando o princípio de representatividade política consagrado na Revolução Americana, o que temos hoje é 100% taxation without representation.

A pandemia mostrou como aquela síntese pôde chegar ao estado da arte, promovendo, como sempre fizeram os regimes comunistas tradicionais, uma incrível transferência de recursos das mãos do cidadão comum para as da Nomenklatura globalista, pois o único marxismo existente, e historicamente observável, é aquele por meio do qual a propriedade privada dos pobres é expropriada e entregue aos ricos: os mandatários do regime e seus amigos. “Você não será proprietário de nada e será feliz” – foi uma das previsões para 2030 feitas pelo Fórum Econômico Mundial, de Klaus Schwab, idealizador do “Great Reset” pandêmico. E o subtexto em elipse é: nós seremos os proprietários de tudo (até mesmo de seus corpos e de seus filhos). “Você comerá muito menos carne” – foi outra previsão. E o subtexto em elipse – que poderia ter sido concebido pelo ditador venezuelano Nicolás Maduro – é: deixe toda a carne para nós!

Com efeito, a Covid-19 parece ter sido um “presente de Deus” para muita gente. Para a esquerda americana e mundial, obviamente, como confessou a atriz e militante Jane Fonda. Para a China, pátria-mãe do vírus, e única economia a ver crescer o seu PIB em 2020 (projeções indicam que, até 2028, ele será o maior do mundo). Para as Big Pharma, cujos lucros explodiram com a venda de vacinas (só a Pfizer, por exemplo, viu seu lucro multiplicar por seis, chegando a US$ 8,1 bilhões no terceiro semestre de 2021).

Mas, de modo mais generalizado, o que temos visto durante a pandemia é realmente uma avassaladora transferência, não apenas de direitos humanos e liberdades civis, mas também de dinheiro, que, junto com esses outros bens, escoa das mãos dos trabalhadores (incluindo nessa categoria os pequenos e médios empresários) e vai parar nos bolsos dos grandes capitalistas. E o mais curioso: com o aplauso efusivo da esquerda mundial, outrora autoproclamada porta-voz dos desfavorecidos, mas hoje reduzida à função de garoto de recados dos donos das maiores fortunas do planeta, gente como Soros, Gates, Bezos, Zuckerberg, Omidyar et caterva, que a financiam e instrumentalizam.

O que temos visto durante a pandemia é uma avassaladora transferência, não apenas de direitos humanos e liberdades civis, mas também de dinheiro, que escoa das mãos dos trabalhadores (incluindo os pequenos e médios empresários) e vai parar nos bolsos dos grandes capitalistas

No começo de 2021, um relatório da Oxfam intitulado “O Vírus da Desigualdade” concluiu que a pandemia acentuou o abismo entre ricos e pobres em todo o mundo. Em 2020, só a fortuna somada dos dez homens mais ricos do planeta teve um aumento de US$ 540 bilhões. E, entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020, a riqueza dos mil maiores bilionários da Terra aumentou US$ 3,9 trilhões, resultando num total atualizado de US$ 11,9 trilhões, valor equivalente ao que os governos dos países do G-20 gastaram no enfrentamento à Covid-19. O relatório informa, por exemplo, que só a fortuna de Jeff Bezos cresceu tanto no período que ele poderia dar um aumento de US$ 105 mil a todos os 876 mil funcionários da Amazon e ainda assim preservar a riqueza de antes da pandemia.

Enquanto isso, diz ainda o documento, a recuperação dos mais pobres poderá levar 14 vezes mais, e demorar mais de uma década para ocorrer. A Oxfam estima um aumento de 200 milhões a 500 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza em 2020, uma reversão do quadro de diminuição da pobreza global observada nas últimas décadas. Também a Organização Internacional do Trabalho calculou que o impacto da pandemia sobre os trabalhadores de todo o mundo foi uma perda de aproximadamente US$ 3,7 trilhões em poder aquisitivo, o que representa cerca de 4,4% do PIB global. Curiosamente, o valor dessa perda corresponde quase que exatamente ao do ganho dos bilionários, que, como dito acima, foi de US$ 3,9 trilhões.

É simbólico: a covidocracia globalista conseguiu, em escala monumental, aquilo que o comunismo sempre realizou nas nações onde chegou ao poder: concentrar toda a renda nas mãos da elite dirigente. Para as demais pessoas, resta a utopia neocomunista imaginada por Slavoj Žižek, intelectual orgânico do globalismo, para quem a pandemia trouxe a oportunidade de criar um benfazejo estado de exceção global. A utopia zizekiana teria por modelo ideal a Wuhan dos primeiros dias da peste: “Uma cidade fantasma, as lojas com a porta aberta e nenhum cliente, somente aqui e ali uma pessoa a pé ou um carro, indivíduos com máscaras brancas”.

Eis, segundo Žižek a imagem “de um mundo não consumista” e “em paz consigo mesmo”. Um mundo em que você não terá nada (nem posses, nem liberdade, nem voz, nem fé), mas, em caso de bom comportamento, será mesmo muito feliz, quase tanto quanto um ratinho de laboratório.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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