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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Vigilância

A PF não bisbilhotou apenas Mendonça: talvez tenha te bisbilhotado

A PF, antes símbolo de combate ao crime, parece ter sido transformada em instrumento de vigilância e pressão contra desafetos do poder. (Foto: ChatGPT sobre foto de Antonio Augusto/STF)

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Em setembro de 2023, quando ainda estava na condição de Ministro da Justiça, Flávio Dino, o atual juiz da Suprema Corte, afirmou a Lula que a Polícia Federal estava “a serviço de uma única causa, que é a sua causa”. Logo depois, acrescentou “a causa do Brasil”, talvez percebendo o ato falho da frase anterior. A Polícia Federal havia prendido Lula e realizado as diligências da Operação Lava Jato – antes de Lula voltar ao poder, era sinônimo de terror para a esquerda. Flávio Dino tinha um recado claro com a frase – se é que alguém consegue imaginar outro sentido para afirmar que uma polícia tem uma “causa”.

Descobrir qual é a nova “causa” lulista da Polícia Federal talvez não seja tarefa tão hercúlea, dadas as movimentações da PF a partir de decisões recentes do STF.

Nas atualidades (setembro de 2026), como Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dino protagonizou uma crise institucional ao reintegrar o delegado Andrei Rodrigues à chefia da PF. Em seu despacho, Dino criticou o colega André Mendonça por ter ordenado o afastamento de Rodrigues e paralisado relatórios de inteligência, acusando Mendonça de tomar “decisões em causa própria” motivadas por divergências pessoais e por ser parte no processo em que a PF é investigada.

Curioso o senhor Flávio Dino, que já foi do governo PT, alegar “divergências pessoais”, quando tem uma divergência pessoal com Mendonça. Mais grave é Dino querer, monocraticamente, desfazer uma decisão de uma turma do STF, o que o próprio regimento interno do STF proíbe. Ainda mais porque Dino alega apenas tal suposição de “divergências pessoais”, sem citar nenhum possível crime – nem mesmo um indício ou uma suspeita.

A notícia, sozinha, escancara algo de podre dentro do Estado brasileiro – mais especificamente, o que o STF tem feito com a Polícia Federal

No mês passado, a Polícia Federal realizou operação contra Luís Pablo Conceição de Almeida, jornalista desafeto de… Flávio Dino. A Operação foi considerada quebra do sigilo de fonte. Para justificar a busca pelas fontes do jornalista, Flávio Dino e Alexandre de Moraes alegaram que Luís Pablo era apenas um “blogueiro”. “Blogueiros”, afinal, não têm direitos – pense na expressão “blogueiro bolsonarista Allan dos Santos”. Ambos afirmaram ainda que a exigência do diploma de jornalista deveria voltar – norma imposta pela ditadura militar para controlar o que era escrito nas redações. A inovação legislativa a partir do Judiciário poderia transformar o Brasil no primeiro país em que é preciso ter um diploma para se escrever algo na internet.

A Operação da PF, deflagrada sob autorização de Alexandre de Moraes (para enorme surpresa da nação), acendeu o alerta até mesmo na grande e velha mídia, além do próprio restante do STF. Sem motivo: não é a primeira vez que o STF manda às favas o sigilo de fonte.

Bem pior: durante a CPI da Covid, o senador Alessandro Vieira supostamente quis saber de uma reunião da Pfizer que teria tido participação de Filipe Martins, então Assessor Especial para Assuntos Internacionais da Presidência e atualmente preso político. Em vez de convocá-lo à CPI, Vieira usou de um expediente só conhecido por totalitarismos: pediu uma quebra de sigilo brutal de Filipe Martins.

Exigiu todas as mensagens privadas em todas as redes sociais, todas as fotos pessoais (!), inclusive dos contatos, cópia integral do iCloud (!!), cópia de todos os apps, histórico de buscas no Google, histórico de geolocalizações e mais. O pedido foi aprovado por Rosa Weber.

Logo após, a CPI estendeu a quebra para todos os sites de direita (rotulados de “bolsonaristas”). O pedido só foi rechaçado pelos dois juízes indicados por Bolsonaro – todos os outros, Fachin incluso, votaram a favor. E onde ficou o sigilo de fonte, se toda a vida privada foi bisbilhotada?

Na época, até a Jovem Pan foi incluída. Vendo que pegava mal, Renan Calheiros afirmou que seu assessor havia incluído a emissora devido a um “copia e cola”. Merval Pereira alertou que, apesar de o pedido ser importante contra “os bolsonaristas”, poderia “ferir a liberdade de expressão” no caso da Jovem Pan. Os tais “bolsonaristas” continuaram sem direitos.

A transformação da PF em uma arapongagem contra desafetos políticos não é uma novidade dos últimos 2 meses.

O Brasil virou o país da busca e apreensão e da quebra de sigilo, fazendo com que todos os grupos de WhatsApp hoje tenham preocupação com vazamentos e deduragem de qualquer piada

Já houve busca e apreensão até por um emoji em um grupo. A família Montovani teve até escritórios revirados por uma discussão na fila do aeroporto… de Roma. Quantas pessoas estão sendo monitoradas pelo inquérito das fake news?

O jornalista Cláudio Dantas revelou que, ao cumprir mandados de busca e apreensão contra o escritório de advocacia de Willer Tomaz, autorizados justamente por Mendonça, descumpriram a ordem de restrição colocada por Mendonça, que buscaria material apenas para a investigação, passando a vasculhar todo o escritório em busca de material que comprometesse Flávio Bolsonaro, que não é investigado no caso e nem tem nenhuma relação com os envolvidos – apenas foi arrolado como testemunha por Richarlison, que tem uma disputa judicial com Tomaz. Imagens da investigação foram parar no portal Metrópoles.

A investigação foi feita sob o comando de Andrei Rodrigues, o diretor da PF afastado por Mendonça e recolocado no cargo por Flávio Dino, o que garante que a causa da PF é “de Lula, do Brasil”.

O senador Marcos do Val, alvo de um dos inquéritos alexandrinos, teve uma foto íntima de sua esposa vazada e impressa no relatório policial. Sua esposa acabou pedindo o divórcio logo depois. Qual o objetivo do uso da Polícia Federal para esta “causa” que é “de Lula, do Brasil”?

A arapongagem foi só mais comentada no escândalo recente de André Mendonça. O ministro mostra que o relatório apócrifo e sem valor comprobatório usado por Moraes para incluí-lo, justamente, no inquérito das fake news (sob qual alegação, oh, céus?!), revelava que Mendonça estava sendo “monitorado” há, pelo menos, 30 dias.

“Monitorar” não significa apenas ser ouvido e relatado quando se manifesta publicamente. Significa ser seguido, bisbilhotado, investigado, ter a vida pessoal e íntima devassada. Há indícios claros de escuta ambiente para se descobrir o que Mendonça teria dito em resposta aos movimentos políticos de Moraes.

O aparato de inteligência da Polícia Federal, mais uma vez, estava montando relatórios com informações privadas – sem nem sequer um mero indício ou suspeita de algum crime –, além do crime de ser desafeto de quem a controla. A mídia nunca fez um muxoxo de reclamação contra a bisbilhotagem de Mendonça, nem de qualquer pessoa de direita.

André Mendonça tem tomado cuidado com quem conversa, exigindo que as pessoas deixem seus celulares em uma caixa blindada antes de conversar. Tem razão. Mas não está preocupado com bandidos, e sim com outros juízes do seu ambiente de trabalho, que utilizam a Polícia Federal de Lula, com sua “causa”, como uma guarda pretoriana. Como se a “causa” da Polícia Federal fosse atender aos desejos particulares de juízes indicados pelo tesourato PT-PSDB-MDB, inclusive para invadir a vida privada alheia.

Mendonça proibiu que a PF produza relatórios, inclusive para comunicação interna, destinados a “monitorar” ministros do STF, que chamou de “arapongagem institucional”. O que se pode perceber pelos autos é que foram produzidos ao menos seis relatórios entre 3 e 31 de agosto – um deles, autorizando “monitoramento e coleta dirigida”. Quem revirou o meu lixo?

A Diretoria de Inteligência Policial (DIP) vazou material de “difusão restrita”, para ser utilizado dentro da PF, diretamente para Alexandre de Moraes citar em suas decisões. Em vez de investigar bandidos, a inteligência da PF (ou seja, o órgão que cuida de reunir informações sobre inimigos, inclusive pessoais, inclusive íntimas) está sendo utilizada contra o juiz indicado por Bolsonaro.

De acordo com Lauro Jardim, recentemente Moraes, Lula e Alcolumbre reuniram-se justamente para discutir como brecar Mendonça no STF. Já Eduardo Tagliaferro, perito digital e ex-assessor de Moraes, revelou que Moraes costumava antes apontar um alvo e depois pedir para que encontrassem um motivo para prendê-lo. Revirando-se a metodologia alexandrina, parece coerente com toda a “troglodice de seus métodos”, como definido por Barbara Gancia.

Conter os relatórios da PF sobre ministros é importante no momento, mas ainda não diz nada sobre os cidadãos brasileiros que estão sendo bisbilhotados por uma PF que, quando não tinha “causa do Lula”, era uma das instituições mais respeitadas do Brasil – e, hoje, parece ter se transformado em uma guarda pretoriana particular da ala majoritária do STF, pronta para bisbilhotar qualquer desafeto, sem precisar de indício de crime nenhum.

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