
Ouça este conteúdo
Lula levantou suspeita de irregularidade no processo eleitoral brasileiro. Dirigindo-se ao Tribunal Superior Eleitoral, o presidente indicou risco de “falcatrua” nas eleições. A revista Veja noticiou assim: “Lula ataca TSE ao sugerir que Justiça Eleitoral pode fazer ‘falcatrua’ nas eleições”.
O Brasil tem sido bastante sensível nos últimos anos a qualquer debate sobre o sistema eleitoral do país. Discussões sobre aprimoramento do processo de votação se tornaram um embaraço no espaço público. Discutir urnas virou tabu. Mas não para Lula.
Candidato à reeleição, o presidente levantou suspeita sobre o processo eleitoral como se dissesse que vai chover amanhã. Os abnegados guardiões da imagem eleitoral brasileira não deram nem um suspiro. Dessa vez, não apareceu ninguém para dizer que Lula atenta contra a democracia ao tentar desacreditar o processo de votação, etc. etc. Nenhuma das severas punições já aplicadas aos críticos do sistema eleitoral apareceu no horizonte.
Vale lembrar que o mesmo árbitro das eleições — contra o qual o presidente da República lançou um brado de desconfiança — teve atuações controversas favoráveis a Lula em 2022. Menções a determinadas relações políticas do atual presidente, por exemplo, foram consideradas impróprias — por supostamente desequilibrar a disputa em favor dos adversários dele.
Se não houve depois disso nenhuma decisão polêmica a favor da oposição por parte da Justiça Eleitoral, por que Lula estaria agora preocupado com “falcatrua” na eleição?
No mesmo discurso, o presidente voltou a alertar contra o perigo de interferência dos EUA na eleição brasileira. “Soberania”, como se sabe, virou palavra de ordem do PT — e a tentativa de polarizar com Trump é entendida no partido como um bom ativo eleitoral. Daí que, para alguns, ficou a impressão de que Lula estava falando da hipótese de as autoridades eleitorais brasileiras se dobrarem a alguma pressão da Casa Branca.
Estaria o presidente preparando um cenário para pôr em dúvida o processo eleitoral? Não faria muito sentido, considerando que ele e seus aliados têm se empenhado nos últimos anos para garantir publicamente que o sistema é seguro — e para tratar os eventuais críticos desse sistema como levianos. Ao mesmo tempo, seu governo impediu a entrada no país de dois observadores do presidente norte-americano, alegando possível interesse intervencionista.
A lógica da mensagem talvez seja essa: o sistema eleitoral brasileiro é seguro, mas pode se tornar vulnerável a partir de pressões do governo Trump. Será?
Seja como for, a hipótese é grave. E a possível vulnerabilidade do processo eleitoral — seja qual for a natureza da alegada “falcatrua” — foi levantada pelo presidente brasileiro. Seria, no mínimo, prudente a busca formal dos devidos esclarecimentos sobre a hipótese levantada. Se o próprio árbitro da eleição não tomou essa iniciativa, caberia ao parlamento ou mesmo ao Ministério Público fazê-lo.
Se ninguém interceder formalmente sobre a acusação feita pelo mandatário, fica entendido que o debate sobre segurança e transparência eleitoral no Brasil passa a ser exclusividade do presidente da República.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



