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Jocelaine Santos

Jocelaine Santos

Liberdade de expressão é condição necessária para a democracia

Decepção

O que fazer com aquele seu amigo, conhecido ou parente que votou em Lula

Todo brasileiro decente – especialmente aquele que votou pela mudança de rumos no país – deveria, em vez de gastar munição atacando o eleitor que votou em Lula, estar mobilizado para impedir que Alcolumbre seja reconduzido ao comando do Senado. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Óbvio que é difícil entender gente que, diante do Brasil atual, prefere que as coisas continuem como estão. Ficamos profundamente decepcionados porque acreditávamos que a realidade brasileira – os fatos, puros e simples – seria suficiente para convencer qualquer pessoa de bem de que a única opção possível era mudar de direção. Não foi.

Mas a decepção não nos dá o direito de transformar o eleitor do outro lado em “inimigo”. Sim, eu sei: eles fazem isso conosco o tempo todo. Há anos, qualquer pessoa que ouse não ficar de joelhos diante do sistema e dos poderosos de plantão que estão ao lado de Lula é tratada como cidadã de segunda classe. É calada. É perseguida. É chamada de fascista por defender a liberdade. É tratada como antidemocrática por querer uma democracia melhor. É condenada por protestar por aquilo em que acredita. É linchada virtualmente com requintes de crueldade. Sei de tudo isso e, justamente por isso, não podemos fazer o mesmo.

Neste momento, há batalhas muito mais importantes do que entender porque tanta gente votou em Lula ou tentar convencer aquele seu amigo petista de que ele errou. Um exemplo prático? Não permitir que o Senado continue nas mãos de quem trabalha para manter tudo como está

Já escrevi aqui antes, após o resultado do primeiro turno, que “aceitar o direito de ‘votar errado’ é o primeiro princípio da democracia”. Por mais que algumas escolhas nos pareçam incompreensíveis, o voto é livre. Cada um vota de acordo com suas convicções, seus interesses, suas prioridades – e até suas ilusões, medos e apegos. Podemos achar que alguém fez uma péssima escolha. Podemos dizer isso, argumentar, criticar, tentar convencer o outro a mudar de opinião. O que não podemos é exigir que as pessoas votem como nós, tratá-las mal ou, pior, persegui-las porque fizeram uma escolha diferente.

E isso vale para a amiga que mora em outro país e que você considerava a pessoa mais sensata do mundo, mas que, ainda assim, apoiou Lula. Também vale para aquele parente lulista que vai te azucrinar no churrasco da família – não, nada de deixar de visitar sua família por causa dele. Ou para o vizinho que colocou a bandeira vermelha na janela e aquele desconhecido que passou buzinando enlouquecido pela sua rua depois da confirmação da reeleição de Lula, como se o Brasil tivesse ganhado a Copa, enquanto você – e eu, e um monte de gente – tentava engolir o choro e a decepção.

É difícil, claro. Exige muito da gente. Mas, sejamos realistas: qual é a opção? Passar a perseguir petistas – como eles fazem conosco – e tornar-se exatamente aquilo que denunciamos (e sabemos) ser desprezível, mesquinho e errado? Talvez você tenha visto o caso de uma influenciadora de Fortaleza que, ao ser abordada por uma criança que vendia balas, perguntou sobre sua preferência política, pediu que fizesse o gesto do “L” e, depois que ele atendeu, recusou-se a comprar os produtos. As amigas que estavam à mesa riram da situação. A criança foi transformada em instrumento de provocação política, como se a escolha eleitoral de sua família autorizasse alguém a humilhá-la. É uma atitude deplorável – independentemente de quem a pratique ou de qual candidato esteja defendendo.

E tem mais uma coisa: a quem você acha que interessa que o país continue dividido, com cidadãos olhando desconfiados uns para os outros e vendo em quem votou diferente um inimigo? Apenas aos poderosos supremos de sempre, que se acham invencíveis e imunes a qualquer questionamento e cujo único interesse é manter as coisas exatamente como estão; e aos políticos corruptos e populistas, que querem perpetuar-se no poder a todo custo, mantendo a população na ignorância e na miséria, para sempre dependente do Estado.

Estamos todos magoados, desiludidos, cansados de ver o Brasil sempre como o país das eternas oportunidades perdidas, mas é justamente agora que não podemos desistir. Podemos (e devemos) aceitar que as pessoas votem em quem quiserem, mas também é nosso dever não ficar de braços cruzados, aceitando passivamente as consequências desse voto. Precisamos insistir. Como escreveu um articulista aqui na Gazeta, “na noite mais escura, o brilho da luz é mais intenso”. Sigamos em frente.

Neste momento, há batalhas muito mais importantes do que entender porque tanta gente votou em Lula ou tentar convencer aquele seu amigo petista de que ele errou. Um exemplo prático? Não permitir que o Senado continue nas mãos de quem trabalha para manter tudo como está. Davi Alcolumbre, aliado de Lula e do Supremo, vem travando todas as tentativas de impeachment de Alexandre de Moraes.

Todo brasileiro decente – especialmente aquele que votou pela mudança de rumos no país – deveria, em vez de gastar munição atacando o eleitor que votou em Lula, estar mobilizado para impedir que Alcolumbre seja reconduzido ao comando do Senado. “Ah, mas como fazer isso?”, você pode se perguntar. Tenho algumas sugestões: acompanhe a atuação dos seus senadores, tanto daquele em quem você votou quanto daquele que não foi eleito por você, mas que representa seu estado.

Exija que eles se posicionem publicamente contra Alcolumbre e votem contra sua permanência no cargo. Questione-os nas próprias redes sociais e escreva para seus gabinetes em Brasília. Ainda que pareça que não, pressão popular tem peso, sim – especialmente quando exercida não apenas individualmente, mas também por associações, grupos, clubes ou entidades. Sejamos a minoria barulhenta, atenta, ativa e feroz na defesa daquilo em que acreditamos e no combate àqueles poderosos que querem perpetuar o que de pior existe no Brasil. É contra esses que devemos direcionar nossa indignação.

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