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José Fucs

José Fucs

Eleição

A falsa neutralidade da turma do voto nulo

A eleição em dois turnos surgiu justamente para que o eleitor possa votar no candidato com o qual se identifica mais no primeiro turno e, no segundo, apoiar o que lhe parecer “o mal menor”. (Foto: Imagem criada utilizando o ChatGPT com base nas fotos de Beto Barata/PL e Ricardo Stuckert/Presidência da República)

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Com a polarização política cristalizada no país e a inexistência de um candidato da “terceira via” competitivo, a pregação em defesa do voto nulo num provável segundo turno entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro vem ganhando força entre os “isentões” nas últimas semanas.

Fazem parte do grupo integrantes do tal “centro democrático”, tucanos de variadas plumagens, os autodenominados “liberais progressistas” da esquerda envergonhada e até a chamada “direita limpinha”, que pretendem pairar acima da “polarização tóxica” que assola o país. O pessoal do MBL, de Renan Santos, líder do movimento e candidato à presidência pelo partido Missão, que ele mesmo fundou, também reza pela mesma cartilha.

Sob a justificativa de que Lula e Flávio são farinha do mesmo saco, de que ambos são líderes populistas, envolvidos direta ou indiretamente em malfeitos de todos os tipos, e de que vão transformar o Brasil, de um jeito ou de outro, numa autocracia, a turma do nem-nem se coloca como se fosse uma espécie de “reserva moral” da nação, que não “suja” as mãos dando seu aval a um dos polos da disputa.

“Desejo tudo do pior pra eles. Vou ser oposição e espero que tenha muita crise pra eles”, afirmou Renan recentemente, resumindo o sentimento de uma parcela considerável da isentolândia, ao revelar que não pretende recomendar voto nem em Lula nem em Flávio, se eles confirmarem a participação no segundo turno, como mostram todas as pesquisas.

Tido como um representante da direita – ou da centro-direita – e como um antipetista de carteirinha, ele se recusa a apoiar Flávio, ainda que isso possa levar Lula à vitória, como aconteceu em 2022, quando o adversário do petista era Jair Bolsonaro e ele e seus aliados já pregavam o voto nulo, que acabou tirando votos preciosos do ex-presidente.

“Eu quero que o Flávio seja preso! Se eu ganhar a eleição, vou prender o Flávio. Eu não quero sair na rua com ele”, acrescentou Renan, ao comentar sua recusa em participar das manifestações de sete de setembro ao lado do primogênito de Bolsonaro e candidato ao Planalto pelo PL.

Disputa acirrada

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, porém, o voto nulo pregado pelo grupo no segundo turno está longe de representar um atestado de neutralidade no pleito. Primeiro, porque, obviamente, ao deixar de votar em Flávio, provável candidato da oposição no segundo turno, seja lá por qual razão for, o eleitor acaba dificultando seu desafio de derrotar Lula – ainda mais numa eleição tão acirrada como a atual, na qual cada voto pode fazer a diferença.

Em segundo lugar, porque, como os votos nulos e brancos reduzem o universo dos votos válidos, que são levados em conta na apuração do resultado final, isso também acaba por favorecer o lulopetismo, que possui uma base eleitoral mais disciplinada e consolidada, sem que Lula, o PT e seus satélites tenham de buscar os votos dos eleitores independentes para vencer a eleição.

Quando a pregação do voto nulo cresce entre vozes da oposição, sob o argumento de que o representante do grupo no segundo turno e Lula “são dois lados da mesma moeda”, o efeito prático é a desmobilização do eleitor que votaria contra o PT por rejeição ao partido e a Lula, ao mesmo tempo em que a militância governista tende a comparecer em peso às urnas, para garantira reeleição do presidente.

A própria ideia de que tanto faz Lula ou Flávio ganhar a eleição já é uma clara tomada de posição, que ignora as diferenças existentes entre eles e pasteuriza o significado da vitória de um ou de outro para o país e os cidadãos. Ainda que os dois tenham telhados de vidro, não dá para colocá-los no mesmo balaio – e, ao fazê-lo, Renan e os demais isentões estão, na realidade, ampliando o risco de tudo isso que está aí continuar e de o lulopetismo se perpetuar no poder.

Não faz sentido ignorar que o próximo presidente deverá indicar ao menos mais quatro novos ministros ao STF (Supremo Tribunal Federal),se não houver o impeachment de algum dos atuais integrantes da Corte, com as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (2030) e a vaga aberta com a renúncia de Luís Roberto Barroso, ainda não preenchida.

Se Lula for reeleito, ele vai reforçar a presença da esquerda no Supremo, garantindo seu controle por décadas. De acordo com o noticiário, um dos indicados poderá ser a deputada Gleisi Hoffmann, candidata ao Senado pelo Paraná e ex-presidente do PT.

Flávio, por sua vez, promete conter o ativismo judicial e sinaliza ao eleitorado a escolha de nomes que respeitem a Constituição e os códigos legais, atuem dentro de seu quadrado, sem interferir nos demais poderes, e defendam a propriedade privada e as bandeiras conservadoras nos costumes, como a oposição ao aborto e à legalização das drogas.

A vitória de um ou de outro, portanto, será decisiva para que o STF tenha mais ministros que apoiam as arbitrariedades de Alexandre de Moraes, como Flávio Dino, Dias Toffoli e Cristiano Zanin, ou ter mais ministros como André Mendonça. Só quem é cego, surdo ou mal-intencionado pode achar que eles são iguais e que isso não é algo que deva ser considerado na hora de definir o voto.

Enquanto Lula provavelmente intensificará, com apoio de ministros do STF, suas investidas pela “regulação” das redes sociais e da mídia, Flávio tende a preservar a liberdade de expressão defendida pela oposição. No plano externo, enquanto Lula deverá aprofundar a aproximação com a China, a Rússia de Vladimir Putin, o Irã dos aiatolás e os regimes de esquerda sobreviventes na América Latina, Flávio deverá estreitar os laços com os Estados Unidos de Donald Trump e com Israel, reforçando a ligação do Brasil com os valores da civilização ocidental.

Em relação às finanças governamentais, tingidas de vermelho por Lula, apesar do aumento obsessivo de impostos, a tendência é ele dobrar a aposta na gastança realizada no atual mandato, que levou os juros à estratosfera e turbinou a dívida pública. Outro dia, ele já disse que é preciso parar com “essa babaquice de fazer superávit fiscal”. Flávio, por seu turno, acena com uma agenda liberal na economia, com o reequilíbrio do Orçamento, por meio de um corte nos gastos, e a redução de impostos para alavancar a atividade econômica e os empreendedores.

Na segurança pública, não será diferente. Enquanto Lula deverá continuar a defender o desencarceramento, as visitas íntimas e as saidinhas dos presos, já que “são poucos que não voltam à prisão”, como afirmou em 2024, Flávio vai defender o endurecimento das penas e o combate ao narcotráfico, aderindo ao Escudo das Américas, criado por Trump para enfrentar o crime organizado na região.

Desonestidade

Não é necessário ser bolsonarista para entender que, apesar de Lula e Flávio terem seus problemas, cada um ao seu modo, dizer que a vitória de um ou de outro não faz diferença é, na melhor hipótese, uma simplificação irresponsável e, na pior, uma desonestidade pura e simples. Não por acaso, Flávio, Zema e Caiado firmaram há meses um acordo para apoiar no segundo turno o candidato dos três que for o mais votado no primeiro turno, em vez de pregar o voto nulo como Renan e outros isentões.

“Se eu não estiver no segundo turno e houver qualquer candidato disputando contra o Lula, minha posição é muito clara: pode ser esse copo aqui contra o Lula que eu voto no copo. Porque votar no Lula é votar no atraso”, disse Zema numa entrevista recente, sintetizando a posição do grupo.

Ainda que muitos eleitores que rejeitam Lula e não morrem de amores por Flávio tenham de tapar o nariz para votar no filho 01 de Bolsonaro, como muitos eleitores fizeram com Lula em 2022 “pela democracia”, não há outra opção para derrotar Lula e o PT.

A eleição em dois turnos surgiu justamente para que o eleitor possa votar no candidato com o qual se identifica mais no primeiro turno e, no segundo, apoiar o que lhe parecer “o mal menor”, o menos pior entre os dois mais votados na etapa inicial.

Pregar o voto nulo neste cenário, tratando como iguais os desiguais, é abrir espaço para o PT aparelhar ainda mais o Estado e consolidar sua hegemonia política, colocando o Brasil num buraco ainda maior do que já está. Flávio, é certo, está longe de ser o candidato ideal de muita gente. Mas é o que tem para hoje para defenestrar Lula e o PT do poder, feliz ou infelizmente, conforme o ponto de vista.

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