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José Fucs

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Eleição

A “vitória de véspera” de Flávio e a dolorida derrota para Lula nas urnas

Flávio não reconheceu derrota e disse que pedirá anulação dos resultados.
Flávio não reconheceu derrota e disse que pedirá anulação dos resultados. (Foto: Andre Borges/EFE)

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A derrota de Flávio Bolsonaro no pleito de domingo gerou um sentimento de perplexidade e revolta nos quase 60 milhões de brasileiros que, segundo o resultado oficial anunciado pelo TSE, cravaram 22 nas urnas para dar uma guinada radical nos rumos do país – e não é para menos.

Diante da ampla rejeição ao lulopetismo, havia a expectativa, reforçada por quase todas as pesquisas, de que Flávio iria impor a Lula seu maior revés político, impedindo-o de indicar mais quatro ministros do STF em seu quarto mandato e de aparelhar ainda mais a instituição pela esquerda.

Seus apoiadores esperavam também que ele apoiasse o impeachment de ministros do Supremo pelo Senado, em especial de Alexandre de Moraes, e atuasse para recolocar a Corte no seu quadrado, caso saísse vencedor. Com a vitória de Lula, porém, a perspectiva de mudança em tudo isso que está aí foi para o vinagre.

Logo após a divulgação do resultado final, Flávio declarou que deve entrar com um pedido de anulação da eleição. Segundo ele, a decisão tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, de passar por cima do TSE e prorrogar por duas horas a votação em todo o país, quando as urnas já estavam fechadas em quase todas as seções, teria beneficiado o PT e tumultuado o processo eleitoral.

Embora descabida e arbitrária, é improvável que a decisão de Zanin – ex-advogado de Lula e indicado por ele para o Supremo – explique a diferença de 4,4 milhões de votos do presidente sobre Flávio. Se o seu pedido se concretizar, o mais provável, considerando o apoio sistemático que o petista recebe da maioria dos ministros do TSE e do STF, é que ele não leve a nada.

Pior: pode até agravar sua situação na Corte, onde ele já é alvo de outros inquéritos, como o do financiamento do filme Dark Horse pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o de suspeita de lavagem de dinheiro por meio da empresa Alcazar Holdings, controlada por seu amigo, o advogado Willer Tomaz, também envolvido na compra da tal ilha reivindicada pelo “craque” Richarlison.

Sala-cofre do TSE

Ao falar sobre sua decisão de pedir a anulação da eleição, Flávio alegou também que, depois da decisão de Zanin, os fiscais do PL foram expulsos da sala-cofre do TSE, onde se concentra a apuração e onde são guardadas as matrizes dos programas que fazem as urnas funcionarem, turbinando as suspeitas de que pode ter havido alteração na totalização dos votos para dar a vitória a Lula.

Trata-se de uma acusação grave, que ainda carece de evidências para se sustentar. No momento, com as informações disponíveis, é difícil dizer até que ponto a suspeita tem fundamento na realidade ou não passa de uma teoria conspiratória destinada a justificar sua inesperada derrota e a manter a tropa de choque da direita mobilizada. Agora, o que se pode dizer desde já é que as votações de Lula e de Flávio seguiram tendências imprevistas.

Uma das questões que despertam mais dúvidas está relacionada à evolução dos votos dos dois candidatos do primeiro para o segundo turno. De acordo com a apuração do TSE, Lula recebeu nada menos que 10,4 milhões de votos a mais agora do que na etapa inicial da disputa. Passou de um total de 53,9 milhões para 64,3 milhões de votos (+ 19%). Flávio, por sua vez, teve só 3,7 milhões a mais. Foi de 56,1 milhões para 59,8 milhões (+ 6,6%).

Isso significa que, dos quase cinco milhões a mais de votos válidos registrados no segundo turno, decorrentes da redução recorde nas abstenções e nos votos brancos e nulos, e dos cerca de 9 milhões de votos recebidos por outros candidatos no primeiro turno que migraram para Flávio ou Lula, o petista ficou com 74% do total.

O candidato da oposição recebeu só 26% desse quinhão, mesmo levando em conta que três dos quatro candidatos mais votados na rodada inicial que não passaram para o segundo turno – Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que somaram 6,3 milhões de votos – deram apoio formal a ele, embora nem sempre essas alianças se traduzam em votos dos eleitores.

Considerando que o eleitorado apoiou uma legião de governadores, senadores e deputados federais identificados com a direita apenas três semanas antes, é algo que parece inverossímil. Pode até ter ocorrido, por razões que ainda não são claras e ainda devem render muita discussão nos partidos, na academia e na imprensa.

No estado de São Paulo, aconteceu um fenômeno parecido, conforme a contabilização dos votos pelo TSE. Lula recebeu 2,5 milhões de votos a mais no estado do que no primeiro turno, enquanto Flávio obteve pouco mais de um milhão. Na capital paulista, Lula fechou o segundo turno com 3,864 milhões de votos (55,5% dos votos válidos), 800 mil votos a mais do que os 3,052 milhões obtidos no primeiro turno (46,6% dos válidos). Flávio, que obteve 2,76 milhões de votos no primeiro turno (42,1%), conseguiu 337 mil a mais no segundo, chegando a3,098 milhões(44,5%).

Em Minas, terra do deputado federal Nikolas Ferreira, o mais votado do país, com 3,12 milhões de votos, e do governador eleito Cleitinho, que apoiaram Flávio, Lula não apenas cresceu mais do que Flávio como conseguiu virar o resultado do primeiro turno em seu favor.

“Campanha do medo”

Talvez, ao final, a “campanha do medo”, tradicionalmente desferida por Lula e pelo PT contra seus adversários, tenha sido bem-sucedida mais uma vez contra Flávio. É possível também que, no fim das contas, o “Exército de Lula” criado e protagonizado pelo deputado André Janones, bem como as manifestações robustas promovidas pelo PT, tenha levantado a moral da turma e dado uma contribuição considerável para a vitória de Lula, embora a iniciativa tenha sido ridicularizada nas redes pelos apoiadores de Flávio.

Pode ser, ainda, que o pacote eleitoreiro de “bondades” anunciado por Lula depois do primeiro turno, com a conivência do TSE e do STF, tenha conseguido alcançar seu objetivo, alavancando votos para Lula. Ou então que o desempenho de Flávio nos debates da Globo e da Band não tenha sido tão bom quanto diziam seus aliados ou que sua campanha subiu no salto, como afirmaram alguns analistas, devido à liderança alcançada no primeiro turno.

De repente, tudo isso somado, além da queda da abstenção e dos votos brancos e nulos, pode explicar como Lula, que havia recebido 2,2 milhões de votos a menos que Flávio no primeiro turno, teve 4,4 milhões de votos a mais que ele na segunda etapa. O fato é que o resultado da eleição surpreendeu todo mundo, dos dois lados.

A história está recheada de exemplos, no Brasil e no mundo, em que os favoritos perderam eleições dadas como certas no dia anterior. Em 1985, o ex-presidente Fernando Henrique perdeu uma eleição “ganha” para o ex-presidente Jânio Quadros na disputa pela prefeitura de São Paulo. Chegou até a tirar foto sentado na cadeira do prefeito – que foi “desinfetada” depois da apuração por Jânio – antes do pleito.

Agora, independentemente do que pode ter causado sua derrota, Flávio deve entrar para a galeria de honra dos ganhadores de eleição de véspera, para desespero e frustração de seus apoiadores e de todos os brasileiros que tinham a expectativa de deixar o lulopetismo para trás e mudar os rumos do país.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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