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O ex-presidente americano Donald Trump em evento na Carolina do Sul, em março deste ano
O ex-presidente americano Donald Trump em evento na Carolina do Sul, em março deste ano| Foto: EFE/EPA/RICHARD ELLIS

Em janeiro de 2020, o então presidente dos Estados Unidos estava em seu melhor momento. A economia americana estava no auge e o povo estava feliz. A reeleição estava garantida. Sem ter o que criticar com consistência, seus opositores tentavam convencer o mundo de que Donald Trump empurraria o mundo para uma catástrofe nuclear por ter autorizado um bombardeio que matou no Iraque aquele que era o principal nome do aparato de terrorismo de Estado promovido pelo Irã, o general Qasem Soleimani.

Lá do outro lado do mundo, na China, o vírus da Covid-19 ainda era um desconhecido dos políticos (e estranhamente possivelmente também da Inteligência). Veio a pandemia e com ela a sucessão de erros de Trump. O primeiro deles foi desdenhar da peste em público, para alentar a base histérica, e praticamente esconder o trabalho que ajudou o mundo a obter as vacinas em tempo recorde.

Depois veio o caso de George Floyd, vítima de omissão de socorro por parte de um policial e que virou pretexto para tocar fogo nas ruas e emparedar ainda mais o governo. Os Estados Unidos pegaram fogo. Já que o mundo não ia acabar naquela tal guerra com o Irã, resolveram então tocar fogo nos racistas, fascistas e na história.

Trump parece que não havia entendido nada. Apertou o passo rumo ao abismo em uma estrada pavimentada com esmero pelas teorias conspiratórias do QAnon – uma evidente operação psicológica de origem estrangeira e possivelmente estatal.

A confusão entre verdades, hipóteses, mentiras deslavadas e manipulação foi a receita que levou o presidente Trump a pisar em todas as cascas de banana pelo caminho. A maior de todas foi o seu discurso derradeiro que desaguou na marcha rumo ao Capitólio e a sua invasão – claramente facilitada por alguém interessado no cenário de caos. Mas o que importa?

Trump passou quatro anos de governo sendo chamado de fascista, nazista, antidemocrático, golpista e qualquer outra coisa do gênero dos xingamentos políticos possíveis. Aguentou bem. E para mostrar que estava certo frente a seus críticos, dava passos mais largos ainda na estrada – a mesma citada dois parágrafos atrás – rumo ao abismo.

O presidente republicano foi derrotado, mas saiu gigantesco das eleições. Com muito mais votos que na eleição anterior e como símbolo de um movimento. Mas não entendeu nada. Preferiu se jogar no abismo de 6 de janeiro, legitimando tudo aqui que diziam que ele era.

Trump encolheu. Virou vexame. Há quem acredite que ele voltará à Casa Branca, mas há muito mais gente disposta a enviá-lo para prisão. Nesta semana, os movimentos no Congresso dos Estados Unidos mostraram que isso não é uma teoria. A cada dia surgem novas peças (algumas bem questionáveis, mas isso importa?) que servem para justificar o seu indiciamento.

Muitas das loucuras de Trump e sua base furiosa foram reações a mais torpeza do antitrumpismo gratuito. Eram desmerecidos. Desqualificados. Quase desumanizados. Afinal, eram a cesta de deploráveis, como chegou a ser definido por Hillary Clinton na campanha eleitoral. Trump e sua turma eram feitos para apanhar, eram bons de cuspir.

No Brasil, é gado. É assim que os bolsonaristas são chamados. E foi banalizado. Com uma grande dose de boa vontade, pode-se dizer que a ofensa tem como origem o comportamento bovino da base que segue o berrante do líder. Mas, com uma gota de honestidade, é preciso reconhecer que é a mais pura desumanização.

Todos os grandes jornais e revistas brasileiros endossam isso. Os termos aparecem em colunas, caricaturas e charges. Nesta semana, a Folha deu um passo além e jogou as mulheres bolsonaristas na cesta dos deploráveis de Trump. Fez uma série de analogias sobre a infelicidade sexual e afetiva do grupo e pintou o presidente Jair Bolsonaro, com sua macheza rudimentar, como uma espécie de consolo que preenche o vazio dessas senhoras suburbanas e que dão duro em máquinas de costura, atrás de balcões ou passando pano pelo chão.

Olhando para os Estados Unidos e para o Brasil, é impossível não ver semelhanças.

O resultado da compostagem da intolerância disfarçada de defesa da democracia é um ponto de fricção constante. Não pode ser chamado de causa, mas é um dos maiores fatores da radicalização e da destruição da civilidade.

Ao assumir o antitrumpismo patológico, parte importante da sociedade americana fechou os olhos para problemas reais que não foram enfrentados para não alimentar a agenda dos deploráveis. Valendo-se deste silêncio, a China avançou sobre o Ocidente em velocidade jamais vista. Os russos transformaram Washington em um salão de festas, ora regando as pirraças dos democratas, ora aplacando a carência afetiva republicana.

No baile do caos, a América Latina se perdeu e a Europa parece ter ficado à deriva. Vulnerável sob aspectos políticos, culturais e militares. É o tal mundo em rearranjo que estamos vendo surgir.

No Brasil, não foi e não é diferente. Há um ambiente de conflito constante. O bolsonarismo reage raivoso e ressentido ao ambiente de constante apedrejamento. É uma relação incorrigível. E para pisotear o governo, foi feito no Brasil exatamente o que se registrou nos Estados Unidos. E não falta quem se aproveite. A China se aproveitou disso. Avançou, sob o silêncio do antibolsonarismo, mais do que nunca.

Bolsonaro está caminhando por uma estrada cheia de armadilhas. Muitos dos seus ladrilhos são muito parecidos com aqueles que fizeram parte da estrada do desastre de Donald Trump. A impressão que fica é que o Brasil copia o que há de pior e não faz o mínimo para não repetir os erros dos outros. Ou como escreveu Mark Twain: “A história nunca se repete, mas rima”.

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