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Cena do documentário Dance Dreams: Hot Chocolat Nutcracker, da Netflix.
Cena do documentário Dance Dreams: Hot Chocolat Nutcracker, da Netflix.| Foto: Divulgação/Netflix

Houve momentos em que estava deprimida, triste com o meu corpo, muito negativa e insegura. Mas tive de parar de me fazer de vítima perante mim mesma. Houve um momento em que pensei: “Se quero fazer isto, tenho de descobrir como fazer funcionar para mim”. Mas o difícil foi compreender que a arte que me escolheu não foi criada à minha imagem, e foi muito difícil chegar a essa conclusão. Mas, ao mesmo tempo, foi essa arte que me escolheu. Não tenho escolha senão fazê-lo e dar o meu melhor. (Kylie Jefferson)

Tenho por tradição particular, todo último dia do ano rever Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski, ou a minissérie Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman, que são dois filmes muito marcantes para mim e que sempre guardo para rever em ocasiões especiais. Mas esse ano fiz completamente diferente e não me arrependi. Por recomendação de minha esposa, assisti ao sensacional documentário Dance Dreams: Hot Chocolate Nutcracker, na Netflix – dirigido por Oliver Bokelberg, de séries como Scandal e Grey’s Anatomy –, sobre a montagem do espetáculo de dança O Quebra-Nozes de Chocolate, versão especialíssima da multipremiada bailarina negra Debbie Allen, e sua companhia Debbie Allen Dance Academy (Dada), em Los Angeles.

Meus olhos marejaram quando ouvi a citação que está em epígrafe – uma das muitas partes que me levaram às lágrimas. Kylie Jefferson é uma jovem bailarina e atriz, negra, de 26 anos – atualmente estrelando a série O preço da perfeição, também na Netflix –, que estreou no espetáculo da Dada aos 6, tendo sido a criança de menor idade a fazer parte da montagem. Já atuou em vários papéis e, quando da gravação, estava num dos principais, da Fada Rainha, personagem que lindamente flutua no ar através do tecido acrobático. Jefferson mostra o que é a vocação no melhor sentido do termo, dizendo que não foi ela que escolheu o balé, mas o balé a escolheu, e só restou a ela “senão fazê-lo e dar o meu melhor”. Sua história é como a de centenas de crianças e jovens que, todos os anos, passam pela Dada para os testes da montagem do Quebra-Nozes de Chocolate, que é o espetáculo que mais arrecada fundos (mais de 40%) para a companhia de Allen desde sua estreia, em 2009.

O talento, a vocação e o foco nos objetivos – sem distrações de qualquer natureza – são as molas propulsoras do sucesso

Debbie Allen ficou famosa por interpretar (também coreografou e dirigiu vários episódios) a professora de dança Lydia Grant na série Fama, baseada no filme homônimo de Alan Parker, vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora, em 1981. Allen cresceu no Texas em meio à segregação das leis Jim Crow, mas desde criança sabia que queria ser bailarina. Fez vários testes, foi rejeitada muitas vezes, até, aos 14 anos, ser aceita na companhia da conceituada bailarina russa Tatiana Semenova, o Houston Ballet Academy, com bolsa integral da Fundação Ford. Semenova praticamente a adotou, e viu sua pupila fazer muito sucesso após ser rejeitada pela Universidade de Artes da Carolina do Norte (depois recebeu um doutorado honoris causa), mas descobrir o seu futuro inspirada por figuras notáveis da dança contemporânea como Martha Graham, Meredith Monk, Twyla Tharp e o pioneiro dançarino negro Alvin Ailey e sua companhia Alvin Ailey American Dance Theater. Allen coreografou o Oscar dez vezes, foi nomeada ao Emmy 20 vezes (venceu três) e duas vezes ao Tony Awards, e também tem uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood.

O Quebra-Nozes é um tradicionalíssimo balé russo, cuja música foi composta por Tchaikovsky e com coreografia original de Marius Petipa, baseado num conto de E.T.A. Hoffmann adaptado por Alexandre Dumas. Tornou-se uma atração de Natal, pois se passa nesta data, e todos os anos arrasta um público enorme mundo afora. Mas Allen repaginou totalmente o original (apesar de amá-lo), e incluiu narradores, música e dança contemporânea; além de incluir outros lugares por onde a protagonista, Tara – Clara, no original – viaja. Há espaços para todas as idades, cores (apesar da maioria negra) e pesos na montagem; todos que se esforçam muito têm uma oportunidade, inclusive de representar vários papéis diferentes. Há um elenco fixo, mas todos os anos chegam alunos novos para a audição, e 75% têm bolsa de estudos. A exigência é alta e muitos não conseguem, mas são consolados pela própria Allen, que lhes diz que só precisam treinar mais e pede para que voltem.

Outra impressionante bailarina se chama April Watson, cuja expressão no rosto transmite uma mistura de sentimentos. Como ela mesma diz: “As pessoas geralmente me acham quieta, e, na maioria das vezes, tenho muito a dizer ou muito em que pensar, mas não sei como fazê-lo. Às vezes tenho tantas emoções dentro de mim. E a única forma de aliviar as emoções, o medo ou a ansiedade é através da dança”.

Allen diz que Watson é uma das mais talentosas bailarinas que passaram por suas mãos; sua pele retinta, de ébano cintilante, exala uma imponência incomum para sua idade, e a primeira bailarina negra a participar de uma grande companhia de balé, Laure Anderson, diz que, quando viu Watson pela primeira vez, pensou: “Nossa, de onde veio isso?! É alguém que nasceu com tudo”. Aliás, Anderson também faz uma afirmação interessante sobre seu início e sua carreira: “Nunca pensei: ‘Quero ser bailarina’. Não com 7 anos. Só achava divertido ter aulas. Então não percebi o impacto de ser afroamericana e bailarina principal. E descobri que não havia muitas; na verdade não havia nenhuma à época, a não ser no Alvin Ailey ou no Teatro de Dança do Harlem. Mas eu só queria dançar. Não estava focada em ser a primeira negra seja o que for. Só queria dançar”.

Mais uma vez o talento, a vocação e o foco nos objetivos – sem distrações de qualquer natureza – são as molas propulsoras do sucesso. April Watson nos surpreende e mostra, assim como Kylie Jefferson, na citação em epígrafe, que a arte é sua vocação e não há para onde fugir: “Como bailarina, você está sempre tentando encontrar o próximo lugar para ir ou tentando melhorar. E, às vezes, parece que estamos apenas a fazer audições e não conseguir nada. Então, a vida de uma bailarina é muito difícil. Mas não me imagino fazendo outra coisa”.

Por isso o documentário me emocionou tanto; ver crianças, jovens e adultos tão focados, tendo oportunidade de mostrar o seu talento independentemente de sua cor, sexo, altura, idade ou religião, todos muitos focados em seus objetivos e em seus sonhos; ver professores tão dedicados, pessoas que vieram de contextos muitas vezes tão adversos – uma das professoras, Chaltel Heath, de hip hop, cresceu num abrigo – se destacarem por terem encontrado sua verdadeira vocação, é reconfortante porque vemos que, no fim das contas, nada resiste ao talento. Ver meninos que só pensavam em dançar hip hop descobrirem a importância e beleza do balé clássico, é algo bonito de se ver. Como diz a professora de balé clássico da companhia, Madame Giana Jigarhan, trazida diretamente do Bolshoi, eles, ao serem apresentados “à beleza do balé e à beleza da arte [...], começam a apreciar a beleza da vida também”. Óbvio que tudo isso só é possível num ambiente em que as oportunidades não são restritas a um pequeno grupo, mas ampliadas pela iniciativa e capacidade de realização de pessoas como Debbie Allen. Não se trata de reservar vagas, mas de ampliá-las e diversificá-las naturalmente, como parte do projeto; a mentalidade aqui é empreendedora, não reivindicatória.

As teorias que associam o mérito somente ao resultado de um esforço por meio da disputa (como a ideia falaciosa de meritocracia), como se o “lugar social” de uma pessoa em sua vida e/ou carreira fosse determinante para seus resultados, colocando, assim, a desigualdade como um empecilho – quando não, como uma muralha intransponível –, nada mais fazem que demonizar o mérito real – que é, para além do resultado, a capacidade, o talento, a vocação para iniciar um empreendimento (seja ele qual for) e lutar para concretizá-lo. E isso não tem a ver com dinheiro – a obsessão dos materialistas – ou com direitos; a liberdade e a superação das dificuldades são fundamentais para o amadurecimento de qualquer ser humano, cuja realização maior não é ficar rico, mas buscar a virtude e a dignidade. E a dignidade não é um bem exterior, não pode ser comprada com bens materiais, pois, como diz o grande professor e sábio Ernesto Carneiro Ribeiro: “todas as riquezas do mundo não valem uma só vida de virtudes”. E o documentário Dance Dreams: Hot Chocolate Nutcracker é uma aula de vocação, virtude e dignidade.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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