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Me acompanhe para ver algo de curioso acontecendo com este texto. Ele começa com uma confissão que não é exatamente novidade para meus leitores fieis: gosto de MPB. Apesar de umas coisas e por causa de outras. Gosto, não consigo deixar de gostar e estou razoavelmente em paz com isso. Digo “razoavelmente” porque o policiamento do (mau)gosto alheio é inevitável e irritante. Irritante e inevitável.
Depois dessa confissão, vem a admiração. É, admiração. Porque fiquei feliz ao ver que vários artistas da MPB se uniram a artistas de teatro, todos esquerdíssimos e progressivaços, na campanha “Block Tigrinho”. Tá, feliz talvez seja exagero. Fiquei contente. Animadinho. É que era sábado e eu tinha bebido umas. Sabe como é. De qualquer modo, estavam lá Caetano, Chico e Gil. E mais um monte daquele povo que você encontra facilmente fazendo o L pelas ruas do Leblon.
Desgraça
O objetivo declarado da campanha é conscientizar a população dos males das bets. Não só do Tigrinho. Das bets esportivas também. Ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Uma população que, vale lembrar, está cada vez mais endividada por causa dessa desgraça que é acreditar na sorte. Mais do que isso, a desgraça está em acreditar que o dinheiro, muito dinheiro, e dinheiro fácil, resolverá todos os problemas do sujeito. A dos artistas é, pois, uma causa nobre, vai? Uma causa à qual jamais me oporia apenas por serem os artistas quem são.
Mas aí veio a decepção. É que comecei a sentir um pensamento melancolicamente descrente querendo gritar bem alto aqui dentro do crânio. Lutei. Resisti o quanto pude. Mas não teve jeito. Quando percebi, estava me perguntando como agiriam esses mesmos artistas que hoje fazem campanha contra as bets se, na ausência da Lei Rouanet e dos generosos cofres da elite woke, as empresas de apostas começassem a financiar as turnês, peças de teatro e filmes deles. Droga. Queria acreditar na boa-fé das pessoas. Dessas pessoas. Mas não consigo.








