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São quase mil páginas e a editora não se preocupou em deixar o livro mais leve. A leitura de “Anna Kariênina”, de Tolstói, me exigiu o intelecto e o físico, porque me obrigou a usar as duas mãos algumas vezes. Quando cometi a imprudência de ler só com uma das mãos, no ônibus, cheguei ao ponto final com o braço doendo. Além disso, foram semanas de leitura e, na metade do livro, só lembrava que a Anna tinha traído o marido. Ou seja, estava mais perdido que o Fachin na sessão de ontem (15).
O livro, aliás, ficou embaixo da TV, que transmitiu horas e horas de uma trama mais interessante. A Rússia czarista tinha lá suas particularidades, mas não perde para o Brasil alexandrino. E aqui faz um tempo mais agradável. O calhamaço cumpriu outra função: apoiou um livro menor e umas contas não pagas. A forma do livro também é importante, pensei.
Mujiques
Uma outra forma recebeu elogios de Flávio Dino. Entendi que o devido processo legal também era importante e que, sem ele, processo vira perseguição e justiça vira justiçamento. Assim como, sem a capa e a encadernação, meu livro seria um manuscrito e as folhas provavelmente se perderiam pelo chão da casa.
Talvez tenha sido o café que demorou para coar mas, quando eu volto, com a caneca na mão, a defesa da forma dá um salto. Dino passa a exaltar a capa como se fosse o livro. “Rito”, “regimento” e “procedimento” são palavras pronunciadas com gosto. Ele diz que é isso que importa e que o resto fica “lá pra fora”, onde, deduzi, estávamos nós, pobres mujiques.
“Observe a decência!”
Em seguida, o czar, digo, o Moraes, reforça que não há qualquer método no processo todo. E me parece que não tinha mesmo. Pelo menos, eu leigamente não conseguiria explicar quem deveria ser o relator e qual seria o prazo para manifestação. Moraes tem razão? Até que, surpreendentemente, é Gilmar Mendes quem me esclarece tudo, com didatismo exemplar. O decano explica que não se pode expor um colega, mesmo que esteja envolvido, pois é preciso ter decência.
Cuspiria o café no chão se estivesse em um clichê. Mas digo que fui transportado para a Rússia czarista e que cheguei a sentir frio. “Observe a decência!”, pede o marido traído de Anna Kariênina, perdoando a traição e eventuais malfeitos apurados preliminarmente em inquérito. Ele só não perdoou a quebra do decoro, da pompa, da forma.
Chave
Para quem, como eu, se perder em “Anna Kariênina” ou na sessão do STF, afirmo que a chave de leitura é a mesma. Tanto a sinopse do livro quanto a ementa do julgamento são a representação de um velho conselho: “Isto não pode sair daqui”.
André Luiz Corrêa publica a newsletter Crônicas do Badé.




