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Polzonoff

Polzonoff

Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Não tô

Tá sem assunto?

SEM ASSUNTO
A pedra que eu menciono no texto. (Foto: Paulo Polzonoff Jr.)

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Outro dia escrevi sobre frutas. No dia seguinte, sobre passarinhos. Não satisfeito, alguns dias mais tarde escrevi sobre o nome de uma ponte, nuvens e até expus o dilema de dar ou não caviar a um mendigo. Diante disso, alguns leitores invariavelmente perguntam se estou sem assunto. Reclamam. Não estou. Nunca. O que me falta, isso sim, é encontrar leitores dispostos a consumir isto que, mesmo quando fala de política ou guerra cultural, tenta ser um registro do cotidiano. Da vida. V, i, d, a. Vida.

Mas tudo bem. E obrigado por perguntar. Até porque um dos clichês da crônica jornalística é justamente esse do estar sem assunto. Da crise existencial diante da página em branco. [BOCEJO] Resquício de um tempo em que havia prazo. E tédio. Hoje não há nem uma coisa nem outra. Para você ter uma ideia, agora mesmo abri meu arquivo de ideias aqui e anotei vários assuntos que gostaria de desenvolver em crônicas futuras. Mas quem quer ler sobre a professora rural que lutou na Revolução Constitucionalista de 1932 ou sobre o Padre Zezinho ou sobre o fato de eu ter passado meia hora brigando com a IA por causa de uma contração de + artigo?

Descompasso

Meu problema nunca é falta de assunto. Pelo contrário, sofro é de excesso de assunto. Absolutamente tudo o que me cerca me interessa. Até esta pedra aí aqui, ó. Uma foto antiga. Citações no meio de calhamaços. Gestos à toa que ganham contornos épicos. Anônimos que nunca quiseram ser mais do que são. Se paro cinco minutos para pensar nessas coisas, pluft!, já me ocorre escrever. Além disso, sou daqueles que odeia quando o silêncio paira sobre a mesa, sabe? De modo que estou sempre puxando assunto. Qualquer assunto. Da aparentemente inevitável CazéTVização do jornalismo até o infinito. Principalmente o infinito.

Vejo, porém, que de vez em quando há certo descompasso entre o que interessa ao leitor ler e o que interessa a mim escrever. Se estiver errado agradeço a correção, mas me parece que o leitor só quer saber de política e guerra cultural, guerra cultural e política. O que é uma pena, porque a vida é bem mais do que isso. Outro dia mesmo teve um alinhamento entre a lua, Vênus e Júpiter no céu. Mas muita gente preferiu ignorar e se ater ao arranca-rabo entre André Mendonça e Gilmar Mendes ou ao envolvimento de Jaques Wagner no caso do Banco Master. E tudo bem. É uma escolha. Como, aliás, foi uma escolha usar este espaço hoje para explicar que não, não estou sem assunto.

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