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Os atos mais recentes da tropa de choque de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal deixam transparecer um desespero indisfarçável. O motivo é a perspectiva, a cada dia mais concreta, de uma vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula na corrida presidencial.
Em um cenário igualmente plausível, em que a direita conquiste a maioria no Senado e escolha o novo presidente da Casa, o impeachment de Moraes passa de hipótese a certeza em 2027.
Hoje, Lula atua como barreira de contenção no Senado contra a queda do ministro, que se mostrou um aliado fiel para castigar seus adversários políticos. Reeleito, o petista nomearia quatro novos ministros, e Moraes chegaria à presidência do STF, em setembro de 2027, com forte influência sobre o Palácio do Planalto e a garantia de novos aliados para blindá-lo.
Se eleito para a Presidência, Flávio mudaria esse quadro. Com a faixa presidencial, dificilmente se oporia ao impeachment de Moraes no Senado — uma reivindicação de seus eleitores para reparar a condenação de seu pai e dos apoiadores presos no 8 de janeiro de 2023.
Os aliados de Moraes no STF sabem que sua eventual destituição não pararia nele. O primeiro impeachment de um integrante da Corte abriria caminho para um efeito dominó. As provas crescentes sobre o assédio de Daniel Vorcaro no Judiciário poderiam arrastar Dias Toffoli e outros magistrados envolvidos em negócios com o banqueiro.
Uma investigação contra Moraes no próprio STF também abriria espaço para apurações sobre outros integrantes. O novo Senado teria munição de sobra para fundamentar múltiplas condenações por crime de responsabilidade.
Daí decorre a urgência febril em estancar, de pronto, a abertura do inquérito. O objetivo é abortar, na origem, qualquer movimento de regeneração institucional do tribunal.
A tumultuada sessão do último dia 15 foi convocada para decidir sobre a abertura da investigação contra Moraes. O que ocorreu antes, durante e depois expõe com clareza a tática de seu grupo no STF. A ordem é blindar o colega, atirando impiedosamente contra quem defende a apuração.
Flávio Dino disparou diretamente contra o presidente da Corte, Edson Fachin. Acusou-o de conduta irregular ao assumir a relatoria do expediente sobre Moraes. Defendeu, em contrapartida, que o caso fosse apensado às acusações contra André Mendonça. Indo além, propôs julgar na mesma sessão todos os magistrados suspeitos de receber recursos ou benefícios de Vorcaro.
A manobra busca misturar casos distintos e jogar todos na mesma vala comum. Ao inflacionar o risco de uma crise institucional que ultrapasse o STF e alcance outros tribunais do Judiciário, o grupo tenta forçar um "acordão" geral pelo arquivamento sumário de tudo.
Antes da sessão, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes movimentaram-se com urgência para obter acesso irrestrito às conversas de Vorcaro. Encerrada a sessão, jorrou na imprensa uma enxurrada de mensagens comprometedoras do banqueiro com Kassio Nunes Marques. O ministro já sofria pesada fritura nos bastidores, bem ao estilo de Gilmar Mendes, para abandonar o caso.
A pressão funcionou. Com o pretexto de presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques declarou-se impedido. Menos um voto a favor da investigação, mais uma vitória tática da ala de Moraes.
Com a deliberação empurrada para o período pós-eleitoral, a meta agora é desgastar a relatoria de André Mendonça. Na própria sessão, Gilmar e Moraes acusaram o colega de retardar propositalmente o relatório e divulgá-lo em plena campanha eleitoral para favorecer Flávio. Ainda insinuaram que ele omitiu os fatos sobre Nunes Marques para garantir seu voto.
Trata-se do prelúdio de uma investida ainda mais drástica. Se a narrativa prosperar, estará aberta uma avenida para advogados de investigados arguirem a suspeição de Mendonça nas investigações do Master e do INSS. Se o ministro for declarado parcial na supervisão dos inquéritos, anulam-se todas as provas colhidas pela Polícia Federal sob sua autorização.
É a mesma receita aplicada contra Sergio Moro para destruir a Operação Lava Jato. A artimanha não salvou apenas os políticos envolvidos no petrolão; livrou também magistrados do STF e do STJ citados nas apurações.
Salvar Moraes é apenas o primeiro passo. O objetivo final é barrar a moralização do STF e blindar os políticos e ministros amigos de Vorcaro.

Jornalista de política especializado na cobertura de Justiça. Desde 2009 em Brasília, observa de perto como se move o poder, o direito e a imprensa. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




