Publicidade
Roberto Motta

Roberto Motta

Jornalismo

O que é um jornalista e por que o debate sobre diploma é uma farsa

O debate sobre exigência de diploma para o exercício de jornalismo foi resgatado por ministros do STF. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Algumas pessoas, inclusive jornalistas, têm usado a expressão blogueiro para se referir a indivíduos que trabalham com a publicação de informações online. A aparente intenção é desqualificar os profissionais, negando a eles a importância que o trabalho de um “verdadeiro” jornalista possuiria.

Mas qual é a diferença entre um jornalista e um blogueiro?  

Ou, perguntando de outra forma: o que caracteriza o trabalho de um jornalista?

Certamente não é um diploma de jornalismo. Alguns dos maiores nomes da profissão nunca tiveram esse diploma.

O trabalho no jornalismo envolve um conjunto de habilidades, técnicas e conhecimentos que podem ser adquiridos fora de uma sala de aula. Na verdade, há coisas que o jornalista precisa saber que são praticamente impossíveis de serem ensinadas em uma universidade.

Jornalismo não é uma área do conhecimento, como biologia, química, física ou matemática. Jornalismo é uma atividade composta por um conjunto de habilidades e práticas. 

As habilidades principais de um jornalista são a capacidade de análise, o raciocínio lógico, a facilidade de articular e apresentar ideias e, evidentemente, a capacidade de escrever bem. Além disso, um bom jornalista possui ampla cultura geral e curiosidade intelectual, além de aprender rápido. 

O mundo está cheio de pessoas que possuem essas habilidades e que nunca assistiram a uma aula de jornalismo. Um diploma de jornalista não confere esses atributos. 

Existem inúmeros profissionais diplomados, em todas as atividades, cujo trabalho é de péssima qualidade. Muitos deles são desonestos.

Nossa cultura dá ao diploma uma importância que ele não tem. 

O Brasil, ainda apegado a diplomas e acostumado com regulação estatal, não está preparado para essa discussão.

Há alguns dias fiz uma postagem na rede X que dizia:

"Observe que a entidade que sugere a volta da exigência de diploma para quem trabalha como jornalista é a mesma que tem, na sua composição, pessoas que nunca passaram em concurso para juiz, mas exercem a função de magistrado".

Eu estava me referindo à polêmica, aberta pela Suprema Corte brasileira, sobre a volta da exigência de diploma de jornalista para quem trabalha com notícias. O curioso da polêmica é que ela foi iniciada pela própria Corte. Ela não foi uma resposta a uma necessidade da sociedade nem foi uma reivindicação de jornalistas. Ela, na verdade, foi consequência de uma operação policial, determinada pela Corte, que resultou na violação do sigilo de uma fonte jornalística. O sigilo da fonte é o direito que o jornalista tem de não revelar como ele obteve suas informações. 

A operação policial teve origem em rivalidades políticas do Maranhão, que foram trazidas para a Corte quando um dos líderes políticos locais foi nomeado magistrado.

A violação do sigilo da fonte – uma garantia constitucional – provocou protestos de muitos jornalistas e de entidades do setor. A resposta da Corte foi sugerir que a proteção constitucional só se aplica nos casos de jornalistas diplomados (o jornalista alvo da operação não concluiu o curso). Um ministro também sugeriu que, para evitar que a proteção do sigilo seja indevidamente invocada para fins criminosos, seria preciso restabelecer a exigência do diploma.

Inexiste conexão entre um diploma e a legalidade das atividades do seu portador. Muitos diplomados em cursos superiores cometem crimes. A garantia constitucional de sigilo da fonte, assim como outras garantias, constitui um direito fundamental dos cidadãos, independentemente de classe social, ideologia, etnia e nível educacional.

A tática de mudar de assunto e rebater a indignação dos jornalistas acenando com a volta da exigência do diploma funcionou. Diversos jornalistas, e pelo menos uma entidade de classe, aplaudiram a proposta da Corte, esquecendo a indignação quanto à violação do sigilo da fonte.

O Brasil, ainda apegado a diplomas e acostumado com regulação estatal, não está preparado para essa discussão. Ainda assim, é preciso entender que toda regulamentação de profissão é uma reserva de mercado. Quando se estabelecem requisitos para que alguém exerça uma profissão, está se limitando o número de profissionais. 

Quando o exercício da profissão envolve risco à vida ou à segurança das pessoas, regulamentação tem algum sentido. Mas é inevitável que a tentação de regular seja expandida para todas as áreas. Para perceber o absurdo disso, basta imaginar que amanhã pode ser exigido um diploma de literatura para quem quiser escrever livros, uma graduação em música para cantores e um registro profissional de poeta para quem quiser escrever poemas. Imaginem que, para fazer postagens em rede social, seja exigido diploma em curso superior de influencer

Não riam. 

Nada disso é diferente de exigir diploma de curso de jornalismo para quem publica notícias e quer usufruir da garantia do sigilo da fonte.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.