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No século 19, Francesco Faà di Bruno, matemático e padre, buscou mostrar que a fé na presença real de Cristo na Eucaristia era compatível com as teorias atomistas.
No século 19, Francesco Faà di Bruno, matemático e padre, buscou mostrar que a fé na presença real de Cristo na Eucaristia era compatível com as teorias atomistas.| Foto: Sérgio Alexandre de Carvalho/Pixabay

A minha viagem a Salta (já recomendei a vocês que visitem a cidade, não recomendei?) continua rendendo. Duas colunas atrás, mencionei que a editora da Universidade Católica de Salta havia acabado de lançar uma coleção de livros de autores locais, e um deles veio na minha mala: é Francesco Faà di Bruno – El aporte de la ciencia a la teologia eucarística, de Emmanuel Ginestra, doutor em Filosofia e especialista em História da Ciência. É um volume curtinho e que nos apresenta uma figura relativamente desconhecida, mas muito fascinante, que buscou uma síntese entre ciência e fé em uma época tremendamente desafiadora do ponto de vista intelectual.

A primeira parte traz uma biografia de Faà di Bruno, nascido em uma das famílias mais influentes do Piemonte pré-unificação italiana. Dono de um intelecto privilegiado, especialmente para a matemática, viu-se passado para trás em várias ocasiões, como quando lhe foi negada a cátedra universitária que tanto desejava, apesar de seu doutorado conquistado na França e de inúmeras publicações que o qualificavam para o posto. Um dos motivos? Sua religiosidade, que ele jamais escondeu mesmo em uma época de crescente anticlericalismo. Além de excelente matemático, Faà di Bruno era católico devotíssimo, com fervor eucarístico e uma preocupação social admirável, que o levou a fundar inúmeras obras sociais em Turim, imitando o que havia visto em Paris. Preocupou-se especialmente com a formação intelectual e profissional de estudantes e mulheres, e com as condições de trabalho dos operários. No fim da vida, Faà di Bruno resolveu tornar-se sacerdote; em uma época em que vocações tardias eram muito incomuns, ele precisou apelar ao papa Pio IX para ser ordenado, e teve entre seus amigos e aliados ninguém menos que Dom Bosco. No centenário de sua morte, em 1988, o padre matemático foi beatificado por João Paulo II.

O positivismo foi uma influência intelectual fortíssima para Faà di Bruno – não no sentido de levá-lo à perda da fé religiosa, mas de incentivá-lo a exaltar a ciência e o cientista, que o matemático enxerga como essenciais para o progresso de uma sociedade. A matemática, assim, surge como o modelo de ciência: “para Francesco, verdadeiro é sinônimo de matemático”, afirma Ginestra. A importância da racionalidade também se reflete na forma como Faà di Bruno encara a religião: ela “não é apenas uma relação transcendental, insondável e incomunicável, mas impõe aos homens uma exigência racional pela qual se deve justificar o que se crê. Não pode ser um simples fideísmo ou especulação mística”. Faà di Bruno se caracteriza por ortodoxia doutrinal e grande devoção eucarística. E, muitas décadas antes de Ian Barbour elencar a “integração” como um de seus quatro modelos de relação entre ciência e fé, Faà di Bruno falava em “síntese” e “harmonia”. Diz Ginestra: “uma necessita da outra para que juntas consigam a harmonia não apenas conceitual, mas da sociedade. A concórdia entre ambos os saberes gera frutos teóricos e sociais”.

Muitas décadas antes de Ian Barbour elencar a “integração” como um de seus quatro modelos de relação entre ciência e fé, Faà di Bruno falava em “síntese” e “harmonia”

Faà di Bruno se mostra consciente dos limites da ciência, e é preciso destacar um aspecto peculiar do pensamento do matemático piemontês. Na linha de seu mestre francês Augustin Cauchy, defendia que, “se não concorda com o dado revelado, a ciência deveria reconsiderar seus enunciados”, já que no fim das contas as contradições são aparentes. Nisso, Faà di Bruno parece divergir de São Roberto Belarmino, para quem, diante de uma evidência científica que se chocasse com a interpretação da Escritura, seria mais prudente rever essa interpretação que simplesmente descartar a evidência. Ambas as posturas, no entanto, partem do princípio de que ciência e religião são dois caminhos para a única verdade e não pode haver contradição real entre elas.

É na terceira a última parte que fica justificado o subtítulo do livro. Primeiro, Ginestra explica como a transubstanciação se consolidou como a resposta oficial da Igreja Católica a uma questão fundamental: como Cristo pode estar verdadeiramente presente na Eucaristia? Destaca-se, aqui, o papel de São Tomás de Aquino, que explicou e defendeu a transubstanciação em verso e prosa, literalmente – foi ele quem compôs o Adoro te devote, no qual cantamos o “Deus escondido que se oculta verdadeiramente sob estas aparências” e em relação a Quem “a vista, o tato e o gosto falham”. Enquanto isso, os filósofos, e depois os cientistas, se ocupavam com outras perguntas essenciais: de que são feitas as coisas? Se tudo está em movimento, como se pode apreender a realidade? Durante a vida de Faà di Bruno, o modelo atômico estava se consagrando como a melhor explicação. O problema é que atomismo e transubstanciação estavam em aparente rota de colisão. “Segundo esta concepção, a mudança de entidades se efetiva quando suas propriedades mudam. Se as qualidades se alteram, então a substância também se modifica. Então, as possibilidades de que Cristo esteja presente no pão e no vinho e que essas substâncias desapareçam, ainda que suas propriedades permaneçam, é impossível. Ou temos Cristo ou seguimos tendo pão e vinho”, diz Ginestra. Faà di Bruno resolveu enfrentar o problema e propor uma solução.

O Piccolo omaggio della scienza alla divina eucaristia busca levar a ideia de síntese e harmonia entre ciência e fé para o caso específico da Eucaristia. Enfatizando a diferença entre os conceitos de “substância”, “acidentes” e “extensão”, Faà di Bruno argumenta ser possível “seguir crendo na presença [real] de Cristo [na hóstia consagrada] e aceitar o atomismo como teoria explicativa da realidade”. É preciso separar o físico do metafísico, e a contradição só apareceu quando uma área resolveu se intrometer na outra. A substância de algo não é o conjunto de suas qualidades quantificáveis. Curiosamente, o instrumento de Francisco para buscar a síntese e a harmonia é... a independência. Como diz Ginestra:

“Francesco (...) chega a uma conclusão que satisfaz a ambas as esferas do saber: a melhor opção é a separação dos terrenos. Sua solução estará centrada na diferenciação de planos: por um lado, o discurso metafísico do hilemorfismo, e, por outro, reservar as afirmações do atomismo ao plano físico. A teoria aristotélica da mudança de substâncias e/ou de seus acidentes pode ser usada como uma afirmação filosófica, mas não científica. A cientificidade do aristotelismo já não cabe nem em um plano cosmológico nem em um plano físico.” (p. 112-113).

Faà di Bruno quer mostrar, em uma época marcada por um racionalismo que vê a religião com suspeita, que a fé religiosa não é irracional nem mesmo quando propõe algo como a presença real de Cristo na Eucaristia

Sem conhecer absolutamente nada de Faà di Bruno, quando peguei o livro imaginava que me veria diante de uma tentativa de oferecer explicações naturais para o que, no fim das contas, é um milagre. Quem me lê há mais tempo sabe que eu vejo esse tipo de coisa com um pé atrás, especialmente quando percebo uma mentalidade segundo a qual um fenômeno como a Estrela de Belém ou o Milagre do Sol de Fátima precisa ter uma explicação natural. Mas felizmente não é isso o que Faà di Bruno faz. Seu esforço é de outra ordem: mostrar, em uma época marcada por um racionalismo que vê a religião com suspeita, que a fé religiosa não é irracional nem mesmo quando propõe algo extraordinário como a presença real de Cristo na Eucaristia. Como afirma o autor ao encerrar o livro:

“Francesco tinha o problema de harmonizar uma teoria materialista com uma teologia que afirmava a presença de Cristo ainda que os sentidos captassem outra realidade. O que esse cientista e crente procurava era achar um espaço que superasse o conflito aparente, que resolvesse para os católicos o posicionamento em uma teoria com alta capacidade explicativa e que não negasse a doutrina oficial. A reflexão central do Piccolo omaggio, como consequência derivada, é que o atomismo não é contrário à fé, e que buscar a harmonia dos conhecimentos não é utópico nem irracional.” (p. 123)

Essa característica não passou despercebida de João Paulo II; na homilia da missa em que Faà di Bruno foi beatificado ao lado de outros cinco Servos de Deus, o papa exaltou a vastíssima obra social do matemático-padre italiano, mas lembrou que “também no campo científico ele soube levar seu testemunho coerente de crente, em um período no qual a dedicação à ciência parecia incompatível com um compromisso sério de fé”.

Serviço: Tenho a impressão de que conseguir a versão impressa por aqui será difícil, mas o ebook está disponível na Amazon e no site da editora.

Falando em livros...

... não deixe de conferir A razão diante do enigma da existência, o livro que reúne quase 30 entrevistas publicadas pelo Tubo de ensaio nestes 15 anos de blog e coluna. Os entrevistados são cientistas, teólogos e filósofos como Marcelo Gleiser, Guy Consolmagno, George Coyne, William Lane Craig, Jennifer Wiseman, cardeal Gianfranco Ravasi e Peter Harrison. Falamos sobre Teoria da Evolução, a fake history de ciência e fé, a origem do universo, bioética e vários outros temas.

Simpósio internacional sobre neotomismo e evolução tem transmissão on-line e gratuita

A Universidade Austral, em Buenos Aires, promove nesta quinta-feira, dia 16, um simpósio internacional sobre neotomismo e Teoria da Evolução, com especialistas de universidades argentinas e da Vrije Universiteit Amsterdam. As palestras serão em inglês e espanhol. Se você calhar de estar na capital argentina no dia, a Austral fica na Cerrito 1250 – a Cerrito é uma espécie de “marginal” da 9 de Julio, sentido sul. Mas, para a maioria de nós, o negócio vai ser acompanhar o simpósio pelo Zoom. Em qualquer dos casos, é preciso se inscrever com antecedência.

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