Bicicletaria Cultural oferece espaço de convivência e apoio aos cicloentregadores da capital.| Foto: Theo Marques/Divulgação
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Desde o início da pandemia de coronavírus um serviço que até então passava quase despercebido aos olhos da maior parte da população tornou-se uma das atividades essenciais para garantir que produtos, mantimentos e alimentação chegassem até a casa daqueles que se mantêm em quarentena para se prevenir do vírus. Nos últimos meses os cicloentregadores tornaram-se uma classe extremamente necessária. Entretanto, tamanha relevância, na maioria das vezes, não se reflete no dia a dia desses trabalhadores que convivem com uma rotina extenuante de trabalho pedalando até 100 quilômetros por dia, muitas vezes além das 12 horas diárias, para tentar conseguir pouco mais de um salário mínimo ao mês. Além dos riscos que a própria pandemia impõe a esses grupos, os perigos de se rodar dentre os automóveis é outro desafio enfrentado regularmente.

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Percebendo essa alta demanda e as necessidades de seus frequentadores, a Bicicletaria Cultural resolveu ampliar os serviços que já oferecia desde 2011 aos ciclistas e passou também utilizar sua estrutura para prover refeições diárias à categoria que, muitas vezes, se encontra numa situação paradoxal: quem vive de entregar comida não raro se vê passando o dia sem o próprio almoço.

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Uma das sócias do espaço, Patrícia Valverde, explica que o local já contava com um ambiente de convivência onde os trabalhadores têm à disposição um refeitório com micro-ondas para que possam esquentas suas marmitas, banheiro, vestiários, compartilhamento de ferramentas, locais de carregamento dos celulares, wi-fi, estacionamento para as bikes e armários para acomodar as sacolas de entrega. “Passamos a oferecer um serviço que de fato atende uma carência que vem dessa comunidade. Costumamos dizer que somos uma iniciativa privada para uma demanda pública”, diz.

A ideia começou a ganhar corpo após a parceria com um aplicativo da capital, porém, com o tempo, a colaboração acabou e a própria bicicletaria passou a tocar o projeto. Já a ideia das refeições surgiu após outra ação colaborativa, dessa vez com a ONG Gastromotiva, que passou a disponibilizar as marmitas aos cicloentregadores. “Sempre fomos esses lugar de apoio e de abrigo”, afirma Valverde. Todos os dias são ofertadas em média 50 refeições, que são anunciadas no grupo de aplicativo da Bicicletaria Cultural

Aumento expressivo no número de entregadores

Segundo a empreendedora, desde 2018 foi percebido um aumento expressivo no número de cicloentregadores e pessoas que trabalham com logística por meio da bicicleta, não só os que prestam serviços por aplicativos, como também entregadores de água, gás e outros produtos na região central da cidade. Se antes o perfil desses profissionais era prioritariamente formado por jovens, muitas vezes ainda em busca do primeiro emprego, com a pandemia a situação se inverteu. Com o crescimento do desemprego, tirando muitos profissionais do mercado de trabalho - alçados à informalidade -, atualmente grande parte desses ciclistas é composta por pais de família que viram na atividade uma forma de garantir o mínimo de renda necessária à própria subsistência. “O que a gente percebeu foi um aumento muito grande no número de entregadores e o perfil de pessoas que nos procuram está muito plural nos últimos meses”.

Com isso foram necessárias algumas adaptações para tornar o espaço mais adequado para esse grupo. Foram abertos novos recintos, além da ampliação de algumas estruturas já existentes. Tudo conforme as necessidades foram surgindo. “Fomos desenvolvendo essa afinidade, essa escuta da bicicletaria para as necessidades desses trabalhadores que começaram a ser cada vez mais frequentes aqui. Após a pandemia, passamos a nos preocupar em acessar esses grupos e fazer com que eles compreendessem que aqui é um espaço de apoio”, comenta a empreendedora.

Fundado em 2011, o local tornou-se ponto de encontro entre os ciclistas da cidade. A iniciativa já foi reconhecida por diversos prêmios internacionais.| Foto: Theo Marques/Divulgação
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Projeto Entrega Amiga

O projeto Entrega Amiga é uma ação de apoio coletivo para viabilizar a manutenção desse espaço de convivência e que também convida a sociedade a participar e a subsidiar alguma parte dessa estrutura. “Chamamos a sociedade para a responsividade social. Para que possamos todos prestar um tipo de apoio para essa categoria que se tornou um elo entre nós. Precisamos que eles tenham uma qualidade para a manutenção do próprio trabalho” diz Valverde.

De acordo com ela, enquanto as grandes empresas de aplicativos não se responsabilizam por um espaço de acolhimento, toda a ajuda é necessária. “Resolvemos fazer um financiamento para arrecadar recursos e garantir uma estrutura para que a gente possa oferecer esses serviços e esse apoio aos cicloentregadores”, diz a proprietária no vídeo de apresentação da campanha.

Para participar do projeto, basta acessar a página: www.benfeitoria.com/entregaamiga e contribuir.

Venda de marmitas

Outra ação que tem ajudado a manter o espaço é a venda solidária de marmitas, quinzenalmente. Além do apoio da comunidade, o projeto também contou com o trabalho coletivo dos próprios cicloentregadores, que se uniram pela causa e entregaram as refeições de forma gratuita pela região. “A comunidade abraçou, comprou algumas marmitas e os próprios trabalhadores, em agradecimento, entregaram essa marmita sem custo algum. Esse valor arrecadado voltou pra gente poder subsidiar e continuar mantendo essa estrutura e arcando com os custos”, diz Valverde.

Uma nova ação acontece neste sábado, 22 de agosto, em comemoração ao Dia Nacional do Ciclista, celebrado no dia 19 de agosto e também para festejar o aniversário da Bicicletaria Cultural, que completa nove anos de serviços prestados aos ciclistas da cidade. Em razão da pandemia, o horário de funcionamento do espaço precisou ser reduzido das 10 h às 18 h de segunda à sexta-feira e das 15 h às 18 h aos sábados. A Bicicletaria está localizada no subsolo da Rua Presidente Faria, 226, próximo ao tubo da Estação Central.

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Rotina menos difícil

O espaço oferecido pela Bicicletaria Cultural tem tornado a rotina dos cicloentregadores menos difícil. De acordo a proprietária, o retorno por parte dos trabalhadores tem sido bastante positivo. “Eles têm aprovado a qualidade da marmita, falam com carinho daqui. Tem tido uma boa receptividade e afinidade mesmo. Talvez a gente esteja atendendo mesmo o que eles estão precisando. Eles também falam que com as marmitas começaram a compreender que aqui é um espaço de apoio ao ciclista”, comemora.

Políticas públicas

Na Câmara Municipal de Curitiba correm dois projetos de lei com sugestões para a regulamentação da atividade de cicloentregadores e normas para a prestação desse tipo de serviço. Dentre as propostas estão a obrigatoriedade de que as empresas forneçam o equipamento de proteção aos trabalhadores, como capacetes, coletes e dispositivos de sinalização e alerta nas bicicletas, além de espaços físicos com água potável, energia elétrica, banheiros e wi-fi. Medidas semelhantes já foram aprovadas em outras capitais do país, como São Paulo.

Segundo Patrícia Valverde, a falta de regulamentação, as condições precárias de relação de trabalho oferecida pelos aplicativos e mesmo a desorganização faz com que, muitas vezes, esse grupo acabe não se identificando como uma categoria legítima e deixe de questionar ou até mesmo identificar as próprias necessidades.

“De fato precisamos de alguma regulamentação que faça com que esses aplicativos participem do apoio a esses trabalhadores. Eles não são autônomos, pois não são completamente livres. As regras do mercado definiram um novo tipo de autônomo e eles não cabem bem nessa categoria. Eu diria que o cicloentregador é uma classe de trabalho que ainda está em desenvolvimento. É isso que vemos por aqui”, conclui.

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Condições pioraram após a pandemia

Uma pesquisa recente da Universidade Federal do Paraná (UFPR) apontou para as mesmas impressões. De acordo com o levantamento da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir), após a pandemia os cicloentregadores tiveram que se sujeitar a uma maior jornada de trabalho, menor remuneração e ausência de qualquer iniciativa das empresas para fornecimento dos equipamentos de proteção básica para se proteger da Covid-19.

Os resultados foram analisados com base em 298 questionários online respondidos por entregadores de aplicativos das principais empresas de plataformas digitais no Brasil, como iFood, UberEats, Rappi e Loggi, em 29 cidades brasileiras, com concentração em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Curitiba. Os entregadores entrevistados, na maioria, são homens (94,6%) que se reconhecem como brancos ou pardos (83,9%), com idade entre 25 e 44 anos (78,2%).

Mais de 57% deles afirmaram trabalhar acima de nove horas diárias, percentual que ampliou para 62% durante a pandemia. A jornada de 78,1% dos entregadores é de seis a sete dias por semana. Para os trabalhadores, o aumento da jornada está relacionado a novas contratações durante a pandemia, provocando a redução das chamadas para entregas. Dessa forma, eles passaram a trabalhar mais horas para manter a remuneração.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]