Engenheiro agrônomo Roberto Salgueiro, que completou 40 anos de prefeitura na última semana, trabalhando na parte de arborização urbana.| Foto: JONATHAN CAMPOS/GAZETA DO POVO

A maior parte das árvores de Curitiba tem o "mesmo pai". O engenheiro agrônomo Roberto Salgueiro completou 40 anos de trabalho na prefeitura e já plantou cerca de 310 mil árvores pelas ruas da capital paranaense. Mas detalhe: a cidade tem hoje cerca de 320 mil árvores ao longo das vias, o que significa que passaram pelas mãos de Salgueiro 95% de todo o conjunto verde que vemos nas ruas da cidade.

O engenheiro é responsável pelo funcionamento do Horto da Barreirinha, lugar em que são cultivadas as mudas que irão para as vias e locais públicos e, coincidentemente, onde começou a trajetória dele.

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De fato, foram muitas as árvores da cidade que passaram pelas mãos de Salgueiro. Sobre o número de mudas plantadas em seus 40 anos de prefeitura, o engenheiro não hesita em afirmar. “Eu tenho a contagem quase precisa. Curitiba tem 320 mil árvores nas ruas e, pelos meus cálculos, eu tenho certeza que plantei 310 mil”, enfatiza.

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Os anos de trabalho são recompensados em um passeio pela cidade. “Eu gosto de ir na caixa d’água, no Alto da Rua XV, durante a primavera, olhar para o Rebouças, tem muitas árvores ali e parece que a cidade some. Isto me deixa muito feliz, porque eu plantei muitas das árvores daquela região”, comenta.

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O engenheiro começou a trabalhar na administração municipal aos 23 anos, quando a atual Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) se chamava Departamento de Praças e Jardins. “No primeiro dia de trabalho, o engenheiro que era o responsável disse que nosso trabalho era cuidar das sementes, para que quando elas fossem para as ruas e pudessem se tornar árvores bem grandes. Eu pensava ‘até lá eu já não estou mais aqui”, recorda.

O trabalho hoje é conservar mudas no Horto da Barreirinha por pelo menos quatro anos antes de mandá-las para as ruas. Os plantios são feitos de acordo com pedidos na Central 156. "Eu espero aglomerar os pedidos, porque o vizinho fica sabendo e também quer", explica. Os pedidos vêm de todos os cantos. "Do CIC ao Atuba, do Santa Felicidade ao Cajuru, do Tatuquara ao Alto Boqueirão".

Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Jonathan Campos/Gazeta do Povo
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Lugares e projetos  

Salgueiro não esconde por quais ruas ele tem mais carinho na capital. “Eu tenho uma paixão muito grande pela Padre Anchieta e também Deputado Alencar Furtado, onde passa o expresso lá no Campo Comprido”, conta. A última é conhecida pelos curitibanos pela paisagem que se forma no outono, quando as folhas ficam vermelhas.

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As ruas citadas têm algo em comum: ambas recebem vias exclusivas de ônibus. E isso não é uma mera coincidência. “A minha ideia sempre foi de fazer um túnel vegetal, para que o ônibus sempre andasse na sombra”.

O projeto do túnel vegetal ainda se mantém, com novas árvores para serem plantadas. “Eu já marquei alguns pontos na Avenida Paraná e também tem a Sete de Setembro, que ainda não possui árvores”, acrescenta.

Mas os projetos têm um hipotético empecilho, eterna promessa de Curitiba: o metrô, que passaria pela Avenida Paraná e chegaria até o Terminal do Santa Cândida. “Eu não sou contra a evolução da cidade, mas eu fico com um pouco de receio. Se for implantado o metrô eu vou perder todas as árvores”, argumenta.

Evoluções  

Nesses 40 anos muita coisa mudou. Primeiramente, nas pesquisas para o trabalho em uma da época em que não existia internet. “Eu lembro do tempo que a gente tinha que fazer busca nos livrinhos. Quando chegaram as árvores japonesas, nós pedíamos ajuda para alguns amigos traduzirem para nós”, relata Salgueiro.

Também houve a evolução da cidade, com novos lugares a serem explorados. “Me recordo quando eu fui ao Tatuquara com o Greca [no primeiro mandato como prefeito] entregar os primeiros lotes no começo da década de 90, não tinha quase nada. Hoje eu vou lá fazer o plantio e praticamente virou uma cidade: tem banco, comércio, colégio, administração regional”, enfatiza o engenheiro.

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Foi nos anos 90 que Curitiba recebeu o título de Capital Ecológica. “Foi um orgulho ter participado dessa época. Havia fatores que influenciaram, como a área verde por morador, a coleta de lixo, que praticamente não existia em outras cidades”, relembra.

Esse título também influenciava a forma como o curitibano enxergava a cidade. Uma pesquisa foi realizada para saber o que fazia a população gostar de morar no município. “A primeira resposta era a arborização da cidade, e aquilo me deixou muito feliz". Uma reportagem sobre o levantamento foi publicada na Gazeta do Povo em março de 2000, na comemoração do aniversário de 307 anos da cidade. "Eu guardei esse recorte e tenho ele até hoje”, revela Salgueiro.

Mesmo com a possibilidade de se aposentar, Salgueiro garante que o trabalho não irá parar tão cedo. “Eu já poderia ter me aposentado faz cinco anos e continuo fazendo o que faço por amor. Enquanto tiver oportunidade de plantar uma árvore, eu farei”.