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Saúde

R$ 35 para escapar do SUS

Com as deficiências crônicas do Sistema Único de Saúde, empresas e instituições aproveitam para vender serviços médicos “populares” baratos no centro de Curitiba

  • PorEstelita Hass Carazzai
  • 18/10/2008 22:00
Balcão da MedPrev, pioneira dos serviços de saúde popular em Curitiba: preço baixo para não matar ninguém do coração | Daniel Derevecki/Gazeta do Povo
Balcão da MedPrev, pioneira dos serviços de saúde popular em Curitiba: preço baixo para não matar ninguém do coração| Foto: Daniel Derevecki/Gazeta do Povo

Os panfletos são distribuídos aos montes nas esquinas do centro de Curitiba. Em letras graúdas, eles anunciam a quem se destinam: àqueles que "não têm plano de saúde", que "precisam de uma consulta ou exame médico" e que "não podem esperar pelo atendimento na fila do SUS ou nos postos de saúde". Prometendo consultas e exames até 70% mais baratos do que o praticado por clínicas particulares, empresas e instituições especializadas em oferecer serviços de saúde "populares" aproveitam um vácuo deixado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e conquistam clientes de baixa renda. Quem pode, paga para fugir das filas.

Há pelo menos oito dessas empresas e instituições no centro de Curitiba. A maioria se declara sem fins lucrativos, mas nem por isso a atividade deixa de movimentar um volume significativo de dinheiro. Não à toa, as empresas estão próximas a dois grandes terminais de ônibus da capital paranaense, a Praça Rui Barbosa e o Terminal Guadalupe, onde desembarcam diariamente mais de 190 mil pessoas vindas da Região Metropolitana de Curitiba e dos bairros da cidade. É do interior do Paraná e dos postos de saúde da capital que vem a maioria de seus clientes, atraídos pelos baixos preços dos exames e consultas e pela possibilidade de rápido atendimento.

"A gente atende muita gente pobre", diz a presidente do Instituto MedPrev, Mirian Ribeiro da Fonseca. "É tudo gente que não tem plano de saúde, ou que a doença pegou de surpresa." Apenas esta instituição, que se declara sem fins lucrativos e é pioneira na atividade em Curitiba, recebe aproximadamente mil pessoas por dia – o que dá uma idéia do volume de pacientes, médicos e dinheiro que a atividade movimenta.

Consultas a R$ 35

Tal como ocorre na maioria das outras instituições, na MedPrev o usuário não paga mensalidade, anuidade, ou taxa de cadastro: a cobrança é feita apenas pelo que ele usa. As consultas com clínicos gerais custam R$ 35; para especialidades, o preço é de R$ 43. Exames laboratoriais e de imagem, consultas odontológicas, cirurgias e até internamentos também estão no rol da MedPrev – ao contrário de outras, que, em grande parte dos casos, se limitam às consultas e exames.

Qualquer procedimento deve ser agendado e pago nas próprias empresas. Raramente o paciente escolhe o médico ou agenda consultas diretamente com o profissional. Poucas dão acesso à lista de médicos credenciados. Em cada procedimento agendado, as instituições embutem na conta uma "taxa de manutenção". Assim, em geral só uma parte do valor pago pelo usuário é repassado aos médicos e laboratórios. É daí que sai o montante que sustenta – e aquece – a atividade.

No Instituto MedPrev, por exemplo, são agendadas 300 consultas por dia. A cada consulta realizada, de R$ 10 a R$ 13 ficam com a instituição – a receita apenas com esse procedimento, portanto, é de R$ 60 mil mensais, sem contar exames, cirurgias e internações. Mirian estima que 200 mil pessoas já foram atendidas pelo instituto desde sua fundação, há sete anos.

As despesas, evidentemente, não são poucas: a MedPrev ocupa cinco conjuntos comerciais na Praça Rui Barbosa e tem mais uma loja em um edifício no Batel, emprega 35 funcionários em Curitiba e dois dos membros da diretoria recebem remuneração. São R$ 4 mil por mês para a presidente e R$ 2 mil para o vice-presidente. "Um diretor de um órgão como esse pode ganhar um salário de Presidente da República, mas a gente ganha bem menos", comenta Mirian. Sinal de que a saúde do caixa da entidade vai bem.

Na Associação Brasileira dos Usuários dos Serviços de Saúde, a Abra Saúde, o número de usuários já ultrapassa a casa de 20 mil. A instituição existe há cinco anos e é uma das poucas que cobra anuidade dos associados – são R$ 130 por família. "Nós fizemos um acordo com a Procuradoria de Defesa do Consumidor de que não cobraríamos mensalidade, para não sermos confundidos com planos de saúde", diz o presidente da associação, Celso Miranda. A receita da Abra Saúde vem apenas da anuidade, diferentemente do que ocorre com a maioria das concorrentes. As consultas com clínicos gerais, ortopedistas e cardiologistas são gratuitas, feitas por médicos "da casa"; para as outras especialidades, o valor cobrado é de R$ 35 – dinheiro, neste caso, repassado integralmente aos profissionais, tal qual acontece com os exames. Dois mil médicos atendem pela instituição, que também declara não ter fins lucrativos.

Novos negócios

As novatas neste mercado ainda não têm um volume expressivo de consultas ou associados, mas procuram atrair clientes fazendo boas ofertas. A ProVitae, por exemplo, está em atividade há cinco meses e atendeu pouco menos de 200 pessoas. Ela promete preços até 40% menores do que as outras. Uma consulta pela instituição custa de R$ 35 a R$ 38, e um exame de glicemia ou colesterol sai por menos de R$ 3. "Tem gente que faz pesquisa. Vê o preço aqui, vê nas outras... As pessoas estão mesmo é procurando preço bom", comenta o consultor da entidade, José de Carvalho Filho, que faz parte do Conselho Fiscal da ProVitae.

Há quem, satisfeito com os preços e a rapidez do serviço, leve panfletos das instituições do ramo a postos de saúde e a cidades do interior para divulgar àqueles que estão na fila do SUS. As próprias enfermeiras e atendentes dos postos chegam a indicar as empresas, como aconteceu a uma senhora cujo pai teve câncer de esôfago, há três anos. "Ele precisava fazer um exame, e pelo SUS ia demorar três meses. Aí a moça do postinho me falou da empresa e me passou o telefone. No dia seguinte eu já estava aqui." Ela gastou R$ 120 no exame. "É bom porque é rápido."

Tal como ela, outras milhares de pessoas atendidas pelo SUS no Paraná têm urgência no atendimento: em 2006, 16 milhões de exames foram requeridos pelo sistema no estado. Não é pequeno, portanto, o filão que as empresas e instituições de encaminhamento médico têm a explorar: é suficiente para encher a salinha de qualquer uma delas por pelo menos alguns anos.

A Gazeta do Povo entrou em contato com outras duas empresas de encaminhamento médico, a Eficaz Saúde e a VittaMed, que também operam em Curitiba, mas não houve resposta aos contatos da reportagem até o fechamento desta edição.

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Colaborou André Marques.

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