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Conferência em evento da UFPA: “celebração” dos 60 anos da Revolução Cubana.
Conferência em evento da UFPA: “celebração” dos 60 anos da Revolução Cubana.| Foto: Instituto de Ciencias Sociais Aplicadas ICSA/UFPA - Reprodução Facebook.

Cuba é um “paraíso” na terra e deve permanecer como está tornando-se assim uma espécie de museu do socialismo para ser admirado pelas próximas gerações. Esse pode ser o resumo rápido do evento “60 anos da Revolução Cubana” realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA), na semana passada, entre os dias 22 e 25 de outubro. Sem nenhum espaço para o contraditório, professores e “especialistas” teceram elogios à ditadura cubana e ao seu atraso.

“Você pensa que está em algum lugar da Europa”, disse em uma mesa redonda a economista Jurandir Novaes, da UFPA, ao contar de sua viagem a terras cubanas e como ela considerou positivo encontrar, por exemplo, um taxista “graduado” ou uma “garçonete que falava três idiomas”.

O clima de ufanismo esteve presente em todas as atividades. Seria compreensível se os professores não soubessem da falta de liberdade e da economia em frangalhos, além das ameaças aos direitos humanos no país. Mas, mesmo admitindo problemas, essas facetas da ditadura cubana foram vistas em conjunto como uma “contradição necessária” – direitos humanos suprimidos pelo “bem maior” do socialismo.

Os desafios de Cuba, segundo os “especialistas”, não são as medidas desastrosas implantadas quando Ernesto Che Guevara foi presidente do Banco Central de Cuba e Ministro da Indústria, ou a planificação da economia socialista, mas a “forte presença de capital estrangeiro no país”.

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“Houve uma fuga de cérebros em Cuba após o triunfo da revolução, muitos trabalhadores especialistas em diversas áreas fugiram para os EUA”, disse Luiz Bernardo Pericás, professor de História da USP. Mesmo assim, como, segundo ele, “o monopólio estatal é muito melhor que o monopólio privado” – dando a entender que o poder estatal é automaticamente o poder do povo –, Cuba seria um exemplo de sucesso, mesmo chegando a admitir que o socialismo tornou todos os cidadãos da ilha igualmente pobres.

“Quando, por exemplo, faltava biscoito de um lado da ilha, o governo confiscava o biscoito do outro lado para que ninguém fosse privilegiado”, contou ele com um sorriso no rosto, em tom de piada.

Pericás falou com orgulho dos carros da década de 50 na ilha, que funcionariam até hoje, já que o “povo cubano aperfeiçoou as técnicas de trabalho sem precisar abrir-se para o mercado externo”, como ordenou Che. “Os carros em Cuba devem funcionar melhor que o meu, que é novo”, insistiu.

Em outra conferência, o historiador Fabio Luis Barbosa, da Unifesp, também elogiou as coisas “velhas” de Cuba.

“Admite-se que as inovações tecnológicas não chegaram, ou se chegam, são sempre com muito atraso – e restrição –, mas que isso não é algo ruim, porque deixa a ilha com um aspecto de museu, algo para ser admirado, pois, a Revolução Cubana não deve ser estudada como um processo imediato, mas sim como um processo de longa duração”, disse.

Defesa da Guerrilha do Araguaia e da “ditadura do proletariado”

Durante a década de 1970, a esquerda armada cometeu várias execuções no Brasil, parte delas dentro da própria militância, sob a justificativa da resistência comunista contra o regime militar. Os chamados “justiçamentos” eram tribunais sem possibilidade de defesa, nos quais integrantes considerados traidores ou dissidentes eram condenados à morte pelos membros.

As execuções ocorreram principalmente entre 1971 e 1973, quando o governo de Emílio Garrastazu Médici acirrou o combate às organizações clandestinas. A Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo guerrilheiro criado por Carlos Marighella e principal braço armado da esquerda, foi o maior executor dos justiçamentos – inclusive contra os próprios membros da organização.

Alguns desses guerrilheiros participaram da famosa “Guerrilha do Araguaia”. No evento, a professora de História Leila Mourão Miranda, também da UFPA, justificou os atos do grupo “em prol da instauração da ditadura do proletariado no Brasil”.

“O projeto capitalista se esgota e coloca em risco a espécie humana”, disse Leila Miranda, com o silêncio da plateia, sem nenhuma voz contrária.

Cuba... “ditadura democrática”?

Nas palestras na UFPA, também defendeu-se que a ditadura cubana seria, quem diria, “mais democrática do que qualquer país capitalista”.

Fabio Luis Barbosa afirma que seria não uma democracia com eleições, mas com o “atendimento dos anseios da população”. E ele tentou convencer que não existe tanta migração de cidadãos cubanos. “É possível, sim, migrar de Cuba, mas no geral, as pessoas não querem, porque não ficam vislumbradas com o mundo fora da ilha”.

A realidade

De acordo com o último levantamento do Pew Research Center, 56 mil cubanos fugiram da ilha em 2016, 43 mil em 2015 e 24 mil em 2014. Desde a revolução cubana, em 1959, até 2016, cerca de 2 milhões saíram do país e pediram asilo internacional, a maioria nos Estados Unidos. Cuba tem hoje um pouco mais de 11 milhões de habitantes.

O relatório de 2018 do Human Rights Watch relatou 4,5 mil detenções arbitrárias em Cuba, de janeiro a outubro de 2017. Segundo a organização, “os detentos são muitas vezes espancados, ameaçados e mantidos sem comunicação durante horas ou dias”.

A ditadura cubana controla praticamente todos os meios de comunicação em Cuba e restringe o acesso a informações do exterior. As escolas utilizam ainda livros soviéticos da primeira metade do século XX e Fidel Castro e Che Guevara são tratados como heróis – não se aprende sobre as atrocidades que cometeram.

A comercialização de dados móveis para internet só foi permitida em Cuba há pouco mais de seis meses. Em julho deste ano, o governo cubano soltou uma resolução pela qual considera como contravenções a difusão de dados “contrários ao interesso social, à moral, aos bons costumes e à integridade moral das pessoas”, palavras vagas que na prática, em uma ditadura, podem ser aplicadas para justificar qualquer abuso do governo estatal.

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