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Refugiados de locais afetados por bombardeios chegam a Lviv: cidades ocidentais da Ucrânia funcionam como “reserva de normalidade econômica”
Refugiados de locais afetados por bombardeios chegam a Lviv: cidades ocidentais da Ucrânia funcionam como “reserva de normalidade econômica”| Foto: EFE/ Borja Sánchez Trillo

Quase vinte dias após o início da guerra, a economia da Ucrânia sente um “impacto catastrófico”, com a “produção entrando em colapso” e a interrupção de serviços essenciais de abastecimento. A análise foi feita por Alexander Rodnyansky, consultor econômico do presidente ucraniano, à BBC News.

Até a última semana, a Ucrânia já amargava uma perda de U$$119 bilhões, segundo avaliação do vice-ministro da Economia do país, Denys Kudin, divulgada pela agência Reuters. O balanço apontava 75% das empresas fora de operação em regiões de conflito, o que inclui a maioria das companhias de metalurgia instaladas no leste ucraniano. De acordo com Kudin, a exportação de metais é responsável por uma importante fatia da economia nacional.

A destruição de cidades e equipamentos de infraestrutura, a interrupção na operação de grandes empresas ocidentais, como a Nestlé, e a perda de mão de obra, decorrente do alistamento de pessoas em idade economicamente ativa e da fuga de ucranianos do país, tem dificultado a manutenção da chamada economia de guerra.

Ao mesmo tempo em que o país registra queda na produção e na arrecadação de impostos, crescem os gastos com equipamentos bélicos, assistência de saúde aos feridos e auxílio à retirada de civis. Uma conta cada vez mais complicada, que tem levado a Ucrânia a buscar ajuda financeira externa para custear salários, assistência social e suprimentos.

Antes da invasão por parte dos russos, a previsão do Banco Central ucraniano para 2022 era um crescimento de 3,4% na economia, um bom prognóstico após as dificuldades enfrentadas na pandemia, de acordo com Alexander Rodnyansky. Com a guerra, no entanto, o futuro econômico do país é somente incertezas.

“Vemos uma economia falimentar, em que não há investimentos, as fábricas não conseguem exportar e a produção nacional de bens praticamente acaba. É tudo muito incerto, não se sabe se contratos de trabalho serão cumpridos, e nem mesmo se a Ucrânia vai conseguir sair desse conflito como um país independente. O fato é que a capacidade produtiva está indo embora”, analisa o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena.

Estratégia de cerco

O professor de Economia e Relações Internacionais do Ibmec SP Alexandre Pires recorda que, embora o lado leste da Ucrânia esteja sofrendo mais fortemente os ataques da Rússia, municípios na parte ocidental do país, como Lviv, seguem com serviços e empresas funcionando. “Essa região ainda funciona como uma reserva de normalidade econômica, mas até quando? Quando os russos quiserem, conseguem atacar rapidamente essas localidades”, afirma.

Na última sexta-feira (11), a Rússia começou uma investida em cidades no lado oeste da Ucrânia, até então livre de bombardeios. Os ataques atingiram Dnipro, Lutsk e Ivano-Frankivsk, acendendo um alerta para o risco de avanço russo na porção ocidental do país.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou, na semana passada, que os bombardeios a hospitais, ambulâncias e demais instalações de saúde têm crescido na Ucrânia. O país enfrenta falta de suprimentos médicos essenciais, como oxigênio, insulina, equipamentos de proteção, instrumentos cirúrgicos e produtos de sangue, segundo entrevista do diretor regional da OMS para a Europa, Hans Kluge, reproduzida pela CNN.

Com a capital desorganizada, o governo operando com dificuldade e o conflito drenando os recursos nacionais, Pires prevê que a Ucrânia dificilmente suportará a pressão russa. “Um país funciona de modo conectado. Não precisa de muito tempo, os estoques de combustível e alimento acabarão. Em um mês, os ucranianos estarão em total calamidade e provavelmente serão forçados a se render por causa da fome. A Rússia usa a tática de cerco e sabotagem, não permite ajuda humanitária, bombardeia corredores em razão disso, querem que o povo sinta fome e frio”, analisa o especialista.

Embora as regiões ucranianas mais próximas de Rússia, Belarus e litoral já sofressem desde a ocupação da Crimeia, em 2014, as cidades sentirão cada vez mais o peso do conflito. Isso porque a tendência é que os russos também bloqueiem o caminho de abastecimento e exportação do país por Odessa (maior porto marítimo da Ucrânia, que fica no Mar Negro). “Ainda que compradores externos não queiram isolar a Ucrânia, a estratégia dos russos tem sucesso”, diz Pires.

No domingo (13), um ataque russo à base militar de Yavoriv, cerca de 25 quilômetros da fronteira com a Polônia, reforçou a tese de que a Rússia trabalha na tentativa de isolamento da Ucrânia. Isso porque o local bombardeado funcionaria como um importante acesso para ajuda militar e armamentos enviados aos ucranianos por potências do Ocidente.

Crise populacional

O professor lembra que o cenário de sucessivas instabilidades também vinha refletindo em uma crise populacional na Ucrânia, nas últimas décadas. “Antes da guerra, estatísticas já mostravam a morte de um ucraniano a cada 48 segundos, por problemas nutricionais, alcoolismo, falta de atendimento médico. O país é foco de uma tensão geopolítica inescapável.”

Com um encolhimento de algo em torno de 300 mil pessoas por ano, a população ucraniana, que era 50 milhões de habitantes, na derrocada da URSS, foi reduzida a cerca de 40 milhões, antes da invasão russa.

“Agora, há em torno de 5 a 10 milhões de ucranianos sentido muito o impacto da guerra e os outros 30 a 35 milhões passando por uma mudança de vida, abrigando parentes, ajudando refugiados, recebendo migração interna. Esse efeito populacional da guerra não é fácil. Mas só teremos uma dimensão ao fim do conflito, que é quando as estatísticas aparecem”, avalia.

Entrada na UE

Nesse contexto de colapso econômico, o economista Igor Lucena acredita que a melhor alternativa para a Ucrânia é ingressar na União Europeia (UE), o que representa não apenas uma salvaguarda jurídica e política, mas sobretudo econômica. “Eles podem abrir mão da Otan, mas não da União Europeia. Com a adesão, o país terá acesso a fundos em euro, alguns deles destinados a diminuir desigualdades regionais, usados em nações como Portugal, Espanha e Irlanda”, exemplifica.

Segundo Lucena, os recursos da UE podem ser fundamentais em um contexto de reconstrução do país no pós-guerra. “É um processo que leva tempo, mas a Ucrânia pode seguir o exemplo de países como a Lituânia, que conseguiram um fabuloso crescimento econômico”, acrescenta.

Alexandre Pires lembra que, historicamente, a Ucrânia tem funcionado como um “Estado tampão”, onde são controladas as tensões entre Rússia e Ocidente. “Os conflitos das grandes potências se dão ali, não no território da Otan e da União Europeia. A Ucrânia estava tentando deixar de ser isso”, afirma.

Uma Ucrânia livre e soberana, portanto, tem importante papel geoestratégico para o Ocidente. Por isso, na visão e Pires, toda a ajuda financeira ocidental é justa nesse contexto. “A cada ucraniano em combate, é como se um ocidental combatesse. A guerra tem testado a capacidade militar do Putin e enfraquecido sua imagem, tudo isso é um trabalho que serve para o Ocidente. Embora seja muito difícil a Ucrânia vencer, se ocorresse uma vitória, o país precisaria receber do Ocidente toda a ajuda possível”, defende.

Ajuda internacional

Na última semana, o Reino Unido anunciou o envio de US$ 100 milhões ao orçamento ucraniano, “para mitigar as pressões financeiras criadas pela invasão não provocada e ilegal da Rússia”, segundo comunicado divulgado no site oficial do governo britânico. O repasse será feito via Banco Mundial e pode ser usado para apoiar os salários do setor público e as redes de segurança e pensões na Ucrânia.

“Desde o ataque ilegal e brutal da Rússia, vimos o mundo se erguer em solidariedade ao povo indomável da Ucrânia. A ajuda do Reino Unido já está chegando àqueles que mais precisam, fornecendo suprimentos essenciais e apoio médico”, disse o primeiro-ministro Boris Johnson.

O Reino Unido também informou que tem incentivado outros países a reunir recursos em um Fundo Fiduciário Multidoador do Banco Mundial, estabelecido nesta semana para apoiar o governo ucraniano.

Na tentativa de ajudar a mitigar o impacto econômico da guerra, o Conselho Executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou na quarta-feira (9), US$ 1,4 bilhão em ajuda de emergência à Ucrânia. O órgão alertou, em comunicado, que o conflito provocará uma "profunda recessão" no país.

"As necessidades de financiamento são grandes, urgentes e podem crescer significativamente à medida que a guerra continuar", disse a diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, por meio da nota.

Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (10) o repasse de US$ 50 bilhões para a Ucrânia, através do Programa de Alimentos das Nações Unidas, segundo a vice-presidente americana, Kamala Harris.

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