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Ministra “consternada”

Confira trajetória e como votou Cármen Lúcia ao longo dos seus 20 anos no STF

Cármen Lúcia diz que liberdade de imprensa “não está em questão” no Brasil
Cármen Lúcia pendeu a ambos os lados da bússola política. (Foto: Andre Borges / EFE)

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A ministra Cármen Lúcia fez, nesta terça-feira (15), um desabafo emocionado, dizendo-se envergonhada e triste com o momento da Corte. Como a magistrada historicamente pendeu para um e outro lado da bússola ideológica, sua manifestação foi recebida com ironia de ambos os lados do espectro político.

Poucos aceitaram seu pedido de desculpas e um reconhecimento implícito de que a Corte chegou ao seu ponto mais baixo. As suas votações parecem alimentar críticas por variarem de direção, sendo a ministra considerada parte de um “grupo intermediário” em crises internas do STF, ao lado de Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli.

Lava Jato e condenação de Lula

Se por um lado a ministra, que foi indicada ao STF por Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, esteve alinhada à ala mais punitivista durante o escândalo de corrupção da Lava Jato, foi só a operação perder apoio popular para ela passar a ter posições mais garantistas. Cármen votou para anular condenações de Lula.

A ministra também teve uma relação de confiança com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes e alinhou-se a eles na contenção da suposta intenção golpista do governo de Jair Bolsonaro e na repressão de críticas públicas ao STF.

Em pautas de liberdade de expressão, teve posições mais liberais, como quando disse “Cala a boca já morreu” e depois seguiu uma visão mais restritiva, quando acompanhou atos de Moraes no inquérito das fake news e correlatos.

Cármen Lúcia formou maioria no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023, quando tornou Bolsonaro inelegível e votou no STF para a condenação do ex-presidente junto com os demais réus do "Núcleo 1" em 2025.

Indicada STF há pouco mais de 20 anos, em 21 de junho de 2006, para ocupar a vaga deixada pelo ministro Nelson Jobim. Segunda mulher na história a presidir o STF, esteve no comando durante o biênio 2016/2018. Nesse período, também assumiu a Presidência da República em caráter interino algumas vezes, substituindo outros chefes na linha sucessória que estavam em viagens.

Edson Fachin e Cármen Lúcia se reúnem à noite. EFE/ Andre Borges (Foto: EFE)

Seus votos sem alinhamento imediato acabaram sendo potencialmente decisivos para desempatar votações.

Confira suas posições em momentos decisivos:

Mensalão (AP 470, 2012)

Votou para absolver 13 réus dos núcleos político, publicitário e financeiro do crime de formação de quadrilha (incluindo José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares).

Acabou por condenar outros por corrupção e lavagem de dinheiro.

Prisão em segunda instância

Historicamente, ela foi favorável à execução da pena após condenação em segunda instância (votos consistentes desde 2009, incluindo no HC de Lula em 2018). Ficou vencida quando o STF mudou o entendimento em 2019 , com o fim da prisão automática em segunda instância. Após a mudança, aplicou o entendimento majoritário por colegialidade, determinando solturas no TRF-4.

Suspeição de Sergio Moro (caso triplex de Lula, 2021)

Mudou de voto (tinha rejeitado a suspeição em 2018) e formou maioria na 2ª Turma para declarar Moro parcial, com base em novos elementos (condução coercitiva, interceptações de advogados, divulgação de áudios e delação de Palocci). Restringiu o efeito ao caso específico de Lula.

Inquéritos de fake news e liberdade de expressão

Votou pela manutenção do inquérito das fake news em 2020: “Liberdade de expressão não pode ser biombo para criminalidade e para impunidade”. Acompanhou condenações de Daniel Silveira) e medidas restritivas no TSE (remoção de conteúdos, resolução permitindo remoção de ofício por Moraes).

Em 2022, votou contra a exibição do documentário da Brasil Paralelo sobre o atentado a Bolsonaro até o fim do segundo turno, que classificou de “situação excepcionalíssima”.

Por outro lado, ela liberou vídeos de Lula chamando Bolsonaro de “genocida” e, neste ano, não tomou nenhuma atitude contra o desfile de carnaval de Lula na Sapucaí.

Inelegibilidade de Bolsonaro (TSE, 2023)

Ela deu o voto pela maioria para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos, com a justificativa da reunião com embaixadores e desinformação sobre urnas.

Condenação de Bolsonaro e réus da suposta “trama golpista” (1ª Turma do STF, 2025)

Cármen Lúcia deu o voto decisivo que formou maioria pela condenação de Bolsonaro e outros sete réus por organização criminosa, tentativa de golpe, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e outros crimes. Afirmou haver “prova cabal” de que Bolsonaro liderava o plano.

Marco temporal das terras indígenas

A ministra votou pela derrubada do chamado Marco Temporal, o critério da data da promulgação da Constituição de 1988, acompanhando a maioria (com ressalvas em alguns pontos, como as indenizações).

Outros posicionamentos:

Assinou carta com lideranças de esquerda defendendo “manutenção e expansão dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres”, que foi considerado um eufemismo à agenda pró-aborto, em 2022.

Votou para derrubar alterações que afrouxavam a Lei da Ficha Limpa, entendendo que elas esvaziavam a proteção à moralidade administrativa.

Na sessão desta terça-feira sobre o caso envolvendo Alexandre de Moraes e o Banco Master, expressou sua consternação, se disse “envergonhada”, “triste” e citou “mal-estar cívico”. Ela votou acompanhando Edson Fachin para manter os julgamentos separados.

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