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Em pouco mais de três anos, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) escalaram das sanções eleitorais para um conjunto crescente de restrições pessoais, que atingiram diferentes direitos fundamentais.
Ao longo desse período, medidas judiciais alcançaram a sua elegibilidade, a liberdade de locomoção, a comunicação pública, o exercício de direitos políticos, culminando na proibição de contato com o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, que é seu filho e seu advogado.
A série de atos traz gradual e inédito endurecimento de medidas cautelares e de consequências decorrentes dos processos eleitoral e criminal. O marco inicial ocorreu em 30 de junho de 2023, quando o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos pelo TSE por ter se reunido com embaixadores.
Por cinco votos a dois, a Corte entendeu que a reunião com o então presidente em julho de 2022, na qual questionava o sistema eletrônico de votação configurou ilícito eleitoral. Em outubro, o TSE impôs condenação extra pelo uso eleitoral das celebrações do Bicentenário da Independência.
Restrições escalam após investigações sobre tentativa de golpe de Estado
A partir de fevereiro de 2024, as restrições a Bolsonaro foram para além do campo eleitoral. No âmbito da Operação Tempus Veritatis, da Polícia Federal (PF), que apurava tentativa de golpe de Estado após derrota nas eleições de 2022, ele teve o passaporte apreendido e foi proibido de deixar o país.
Na operação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, o ex-presidente foi impedido de fazer contato com ex-auxiliares, também investigados. O endurecimento das limitações ganhou novo impulso em julho de 2025, quando o juiz determinou amplo conjunto de cautelares.
Bolsonaro passou a usar tornozeleira eletrônica, cumprir recolhimento ao lar em horários determinados, ficou proibido de utilizar as redes sociais, seja diretamente ou por meio de terceiros, e de fazer contato com diplomatas, além de não poder se aproximar de embaixadas e consulados.
O desdobramento judicial mais severo veio em 11 de setembro de 2025: a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes relacionados à suposta tentativa de golpe de Estado. A decisão unânime marcou a mais pesada e restritiva pena a um político brasileiro.
Mesmo após a prisão, Bolsonaro continuou sendo alvo de novas sanções
Em março de 2026, após enfrentar problemas de saúde, entre eles uma pneumonia bacteriana, Bolsonaro obteve autorização judicial para cumprir a pena em prisão domiciliar humanitária, permanecendo submetido ao monitoramento eletrônico e às demais cautelares impostas pelo STF.
As restrições à comunicação e à circulação foram mantidas em razão dos fundamentos apresentados pelo STF para preservar a decisão judicial. O capítulo mais recente dessa sequência ocorreu em 13 de julho de 2026, quando Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai.
A decisão foi tomada após a divulgação, nas redes sociais, de uma carta manuscrita na qual o ex-presidente declarava apoio à pré-candidatura do filho. Para o ministro, a divulgação foi uma tentativa de driblar a proibição de manifestação pública via terceiros e desvio da finalidade do direito de visita.
Os fatos listados por Moraes foram enviados ao Ministério Público Eleitoral para apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada. A defesa de Flávio rebateu a decisão, considerando que a incomunicabilidade imposta contraria garantias constitucionais e viola as prerrogativas como advogado.
Apoiadores de Bolsonaro veem consagração de perseguição política
O bloqueio por 90 dias das visitas de Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro, determinado por Alexandre de Moraes desencadeou reação quase unânime entre aliados do ex-presidente, que chamaram a medida de novo caso de perseguição política e interferência no processo eleitoral.
Flávio avaliou que a decisão visa afastá-lo do principal líder da direita até as eleições. Seu coordenador de campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), classificou a restrição como arbitrária, mesma linha de argumentação dos deputados Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF) e Gustavo Gayer (PL-GO), entre outros.
Entre juristas e advogados, Ives Gandra da Silva Martins, André Marsiglia e Sebastião Coelho sustentaram, em manifestações e entrevistas, que essa proibição é desproporcional, afronta direitos fundamentais de convivência familiar e reforça percepção de uso político e parcial de medidas cautelares.
As novas restrições a Bolsonaro e foram de pronto comparadas com a desigual situação vivida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando esteve preso, entre 2018 e 2019. Lula pôde dar entrevistas, divulgar cartas com conteúdo político e influenciar rumos de seu grupo político.
Para especialista, Alexandre de Moraes deu mais uma prova de abuso de poder
O cientista político Ismael Almeida critica a nova decisão de Moraes contra Jair e Flávio Bolsonaro e a vê como mais uma prova da escalada de abusos judiciais cometidos pelo ministro. “A lei deveria valer igual para todos, mas o que está sendo feito com Flávio Bolsonaro passa de qualquer limite legal”.
Ele lembra que, no Brasil, políticos presos já deram entrevistas, escreveram livros e se manifestaram de todas as formas possíveis, inclusive se lançando candidatos a presidente de dentro da cadeia. “Ao punir Bolsonaro por só divulgar uma carta, não se faz Justiça, mas se pratica excesso de poder”, diz.
O especialista lembra que, desde 2019, início do inquérito das Fake News, Moraes ultrapassou todos os limites do Estado de Direito. “Aceitar que um juiz possa cada vez mais editar medidas excepcionais sem limites claros é perigoso. Hoje, o alvo é um líder, amanhã pode ser qualquer cidadão”.
Nesse sentido, Almeida ressalta que a decisão de Moraes é preocupante por não atingir apenas a família de Bolsonaro. “Sem garantir segurança jurídica, ninguém mais sabe o que é ou não legal. E sem regras objetivas, sobra então apenas a vontade de quem está no poder”, conclui.




