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 | Foto: Acervo Diário Popular/ Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Acervo Diário Popular/ Arte: Felipe Lima

Quando eu era criança, meu pai tinha uma banquinha de revistas. E banquinhas são um dos lugares mais democráticos do planeta. Mais do que o coreto da praça e o pátio do colégio. Mais do que os estádios de futebol e os jogos de peteca. De modo que ter sido criado atrás daquele balcão não me causou nenhum tipo de transtorno emocional. Acho.Foi na banquinha que assisti às caras de impávido colosso ao ver Leila Diniz, grávida e de biquíni, na capa da revista Manchete. Sorry, meninos, eu vi. Foi ali, também, que "de menor" espiei as páginas abusadas de O Pasquim. Ali me senti o próprio Jamil Warwar investigando o caso Cláudia Lessin Rodrigues. Coroas, lembram-se de Doca Street e Ângela Diniz?

Na banca fiquei sabendo que Darlene Glória, doida demais, "segurou na mão de Deus". E ouvia falar em Mariel Mariscot e Tenório Cavalcanti como se fossem vizinhos da Petit Carneiro. Perdi a conta de quantos vizinhos levaram a Vera Fisher para casa numa edição da Playboy. Meninos, essa eu não vi.

Mas minhas melhores lembranças dos tempos de revistaria são as do carnaval, quando o Diário Popular estampava despudoradas fotos do Baile dos Enxutos, codinome do Gala Gay, festa que por duas décadas animou os salões do Clube Operário, no São Francisco. Naquela época, vai ver, Curitiba não era tão reacionária como se propaga – ou pelo menos não naqueles dias em que milhares faziam justiça ao carnaval em bailes que iam do Thalia ao Literário.

Vocês não imaginam a rapidez com que minguavam as pilhas de jornais do dia seguinte ao Gala Gay. A cobertura alavancava também a venda de cigarros, figurinhas, paçocas e o que mais pudesse despistar o impacto de Veruska, tão à vontade na primeira página. O estoque de piadinhas destiladas no ato de compra desrespeitava os preceitos quaresmais. Eram crimes nada delicados. Ah, bocas malditas.

Não raro, algum freguês contava ter ido ao Operário com a mulher e um casal amigo, coisa e tal, amenizando a confidência com frases band-aid do tipo "só por sarro", "a patroa insistiu" ou "Deus me livre: úl-ti-ma vez!". Era o que bastava para se formar rodinha e dá-lhe fofocar o evento onde brilhava a Divina Aloma e Safira Bengel, para citar duas musas setentinas. Aos fedelhos como eu, cabia aprumar as orelhas de abano e fingir estar interessadíssimo num gibi da Mônica.

O Gala Gay derrubou seu último paetê na década de 1990, deixando à deriva Saritas e Samantas, Danielles e Lejaras. Àquela altura, a banquinha do pai tinha sido vendida. Pena. Lá, em plena era do chumbo grosso, discutiam-se pratos do dia como a inflação e a dívida externa. E se compravam revistas de mulher pelada junto com o último fascículo de enciclopédias da Abril – essa grande invenção que forrou de livros capas dura as modestas paredes de nossas casas.

Confesso que só me dei conta da importância do Gala Gay já marmanjo, ao ouvir uma professora da Belas Artes, a artista plástica Teca Sandrini, detalhar suas andanças pelo Operário. Mulher sensível e viajada, adorava espiar os camarins e se emocionava ao ver as mães penteando suas filhas travestis e transexuais. A fala de Teca vinha acompanhada de menções ao "amor incondicional" descrito por Erich Fromm no belo A arte de amar.

Pois é – ano passado, os ativistas Márcio Marins, da Parada da Diversidade, e Carla Amaral, do Transgrupo Marcela Prado, decidiram tirar o Gala Gay do limbo. Deram início ao resgate vasculhando os arquivos do Diário Popular. Com esse material, a dupla Luciano Coelho e Marcelo Munhoz dirigiu um documentário – munição da boa para a gente entender a tolerância de tantas famílias e da moçada, sem folga para a babaquice.

Na ocasião, Carla e Márcio me pediram um texto sobre o tema. Variei feito um folião da Bahia para escrever. As datas são incertas, muitas candidatas se foram para o baile eterno e sobram desculpas para a distração. Ora a gente pasma diante da quantidade de público – algo como 5 mil pessoas por edição –, ora se enreda nas saborosas arruaças de salão, como a da "boneca", como se dizia, que desmaiou no palco e perdeu a faixa para uma concorrente.

Naquele desfile, foi Leila contra Graziella, heroínas de um drama de carnaval, numa cidade esquecida por Momo. Parece ficção. Mas não é. O Gala Gay desmente umas tantas certezas curitibanas. Tenho por testemunha a palavra da turma do balcão. Eram historiadores graduados em Leila Diniz, Darlene Glória e Divina Aloma, a diva do Operário. É tudo verdade.

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