
Ouça este conteúdo
A declaração recente da primeira-dama Janja da Silva, defendendo a retirada imediata do Discord do ar no Brasil, trouxe de novo à tona a regulação das plataformas digitais. A fala da socióloga aconteceu em cerimônia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que endurece punições por violência sexual contra crianças e adolescentes.
Ao justificar a defesa do bloqueio, Janja citou o caso de uma adolescente de 13 anos de Naviraí (MS) que, no mês passado, teria sido induzida por um grupo investigado na Operação Lívia a se automutilar e cometer suicídio em uma transmissão ao vivo no Discord.
VEJA TAMBÉM:
O ato durou entre 40 e 50 minutos e foi assistido por mais de 200 pessoas – algo recorrente no Discord. Uma segunda vítima, de 17 anos, também foi atingida, mas sobreviveu.
"A gente precisa retirar imediatamente o Discord do ar. A gente precisa bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma... Eu não posso aceitar ver uma menina de 13 anos se mutilar ao vivo... se enforcar e morrer", declarou Janja.
Aproveitando a presença de autoridades, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, ela cobrou ao vivo o banimento da plataforma. Em resposta, a AGU anunciou a preparação de uma Ação Civil Pública pedindo a responsabilização e a suspensão da plataforma, alegando descumprimento da legislação brasileira e ausência de mecanismos efetivos de proteção a menores, como a verificação de idade.
Novo critica Janja: "gasta muito e quer censura"
Em publicação nas redes sociais, o partido Novo declarou que a pretensão de Janja, de banir a rede social, configuraria uma tentativa de "censura" da internet. A agremiação defendeu a aplicação da lei.
“Janja é a cara desse governo: gasta muito e quer censura. O Novo é contra a censura ou derrubada de redes sociais. Se há ilegalidades, quem infringe a lei deve ser investigado e punido. Ordenar a desativação de uma rede social é coisa de ditadura”, disse no X o partido.
Janja costuma responder aos críticos de seus gastos falando que praticariam "discurso misógino".
Mas o que é o Discord?
Fundado em 2015 pelos desenvolvedores americanos Jason Citron e Stanislav Vishnevskiy, o Discord é um serviço de comunicação por chat, voz e vídeo.
Originalmente voltado para a comunidade de jogos eletrônicos, com raízes nas experiências de jogos como Final Fantasy XI e ao estúdio Hammer & Chisel, a ferramenta expandiu-se rapidamente para grupos de estudo, trabalho remoto, criadores de conteúdo e fãs de cultura pop.
Ao contrário de redes tradicionais como o X ou o Instagram, o Discord não possui um feed público central. Ela não aparece em pesquisas no Google, sua lógica não é da viralização, mas da criação de grupos privados.
"Você tem ali uma comunidade mais fechada, que cria conteúdo para si mesma, e não uma comunidade em que as pessoas criam o conteúdo para se tornarem famosas, para se tornarem influencers e ganhar dinheiro", diz em entrevista à BBC Brasil o pesquisador João Victor Ferreira, da Universidade de Brasília (UnB), autor de uma premiada dissertação sobre a radicalização política dentro do Discord.
Sua arquitetura é baseada em "servidores": espaços criados pelos próprios usuários, que podem ser públicos ou privados. Esses ambientes contam com canais organizados, permissões de moderação, bots automatizados e ampla personalização.
“O Discord tem arquitetura na qual se pode criar servidores privados e canais fechados, de forma em que apenas com um convite ou uma permissão é possível entrar”, afirmou o especialista em crimes cibernéticos, Rodrigo Fragola.
Brasil em 2º lugar
Entre 2025 e 2026, a plataforma alcançou a marca de cerca de 200 milhões de usuários ativos mensais no mundo. Embora não existam dados oficiais específicos por país, o Brasil figura consistentemente entre seus maiores mercados globais, tendo chegado a ocupar a segunda posição em volume de visitantes em determinados períodos.
Embora seja utilizado no Brasil de forma legítima por milhões de jovens para sociabilização e estudos, o formato de servidores privados, que se soma à falta de verificação rigorosa de idade e à moderação frágil, transformou a rede em terreno propício para a criação das chamadas "panelas" e a disseminação de grupos extremistas.
A lista de ocorrências registradas em investigações policiais no país inclui:
- Atos de violência transmitidos ao vivo: planejamento e transmissão de agressões contra pessoas em situação de rua, automutilações e maus-tratos a animais. Em 2025, a Polícia Civil apreendeu adolescentes espalhados por seis estados acusados estes crimes.
- Crimes sexuais: exploração sexual infantil, chantagem, aliciamento, pedofilia e o chamado "estupro virtual".
- Extremismo e discurso de ódio: disseminação de misoginia, homofobia, discurso de ódio e recrutamento para atos violentos.
Casos emblemáticos marcaram os últimos anos, como as investigações de 2024 e 2025 sobre agressões coordenadas a moradores de rua e o plano desmantelado pela Operação Fake Monster, em maio de 2025, que envolveu a articulação de um atentado a bomba direcionado à comunidade LGBTQIA+ durante o show da cantora Lady Gaga no Rio de Janeiro.
Tentativas de bloqueio
A investida de Janja não é o primeiro movimento da esquerda contra o app. Em 2025, o então deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) acionou o Ministério Público Federal pedindo a suspensão temporária do aplicativo.
Na ocasião, o parlamentar argumentou que a empresa operaria de forma "clandestina" no país, sem representação legal com poderes plenos ou CNPJ ativo no período, o que dificultava notificações judiciais. Boulos classificou o espaço como "QG de extremistas" e ressaltou que a medida buscava a regularização e a cooperação com as leis brasileiras, comparando o processo à suspensão do X ocorrida em 2024.
O Ministério da Justiça, em parecer emitido à época, reconheceu as falhas de moderação, mas posicionou-se contra o banimento total, alegando haver cooperação em episódios pontuais.
O Marco Civil da Internet, de 2014, chegou para proteger a liberdade de expressão, responsabilizando plataformas por conteúdo de terceiros apenas após ordem judicial e seu descumprimento. A partir de 2019, com o inquérito das fake news, na prática o Supremo Tribunal Federal tem servido como órgão regulador do que pode ou não pode ser publicado na internet.
X fora do ar em ano eleitoral
Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, o X ficou fora do ar entre agosto de 2024 até outubro daquele ano, em que era disputada uma eleição municipal. É senso comum que as redes sociais costumam ter domínio maior do ativismo da direita, o que levantou acusações do magistrado de intervir no debate democrático.
O ministro disse, na época, que o STF "fez todos os esforços possíveis" e concedeu todas as oportunidades para que o X Brasil cumprisse as ordens judiciais que evitariam a suspensão.
“Lamentavelmente, as condutas ilícitas foram reiteradas na presente investigação, tornando-se patente o descumprimento de diversas ordens judiciais pela X Brasil, bem como a dolosa intenção de eximir-se da responsabilidade pelo cumprimento das ordens judiciais expedidas, com o desaparecimento de seus representantes legais no Brasil para fins de intimação e, posteriormente, com a citada mensagem sobre o possível encerramento da empresa brasileira”, afirmou o ministro.
Países que já baniram o Discord
Rússia: o Discord foi bloqueado em outubro de 2024 por não cumprir leis locais de remoção de conteúdo considerado ilegal.
Turquia: foi bloqueado em 9 de outubro de 2024 por decisão judicial por caso de abuso sexual infantil, obscenidade e recusa em compartilhar dados com autoridades.
China: o Discord foi bloqueado pelo "Grande Firewall", como a maioria das plataformas ocidentais de comunicação.
Irã: o Discord foi bloqueado permanentemente por controle de informação e segurança nacional.
Jordânia: o bloqueio total (relatado em 2025), oficialmente por proteção de menores e ordem pública.
Camboja: bloqueado em junho de 2026 pelo regulador local de telecomunicações, sob alegação de ligação a jogos de azar ilegais e supostas atividades ilícitas.
Coreia do Norte: o acesso a internet ocidental e plataformas estrangeiras é completamente proibido.
Posicionamento da empresa
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo para se manifestar sobre os episódios citados, o Discord não retornou nossos contatos. O espaço segue aberto e o texto será atualizado caso haja manifestação oficial.
Em notas anteriores enviadas à imprensa, a plataforma costuma reiterar a postura comum às grandes empresas de tecnologia: declara possuir política de tolerância zero contra ilegalidades, afirma colaborar ativamente com as autoridades policiais e assegura manter representação legal no Brasil, além de promover um “ambiente acolhedor”.






