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Comportamento

Presídio entre amor e ódio

Cidade expõe o medo e o preconceito com familiares dos detentos e tenta aproveitar os pequenos benefícios econômicos

 | Hedeson Alves/ Gazeta do Povo
(Foto: Hedeson Alves/ Gazeta do Povo)

Uma rápida conversa com moradores de Catanduvas deixa a impressão de que ali nada mudou com a instalação do primeiro presídio federal de segurança máxima do país, em 2006. Nem parece que ao lado estão alguns dos criminosos mais perigosos do Brasil. E tudo parece tranqüilo mesmo após o noticiário de que para lá foram transferidos 26 traficantes cariocas presos após a retomada do Complexo do Alemão. Mas se o bate-papo se estender por mais cinco minutos, dá para perceber que a rotina dessa cidade de 10 mil habitantes, no Oeste do Paraná, a 468 km de Curitiba, sofre influência direta do presídio, cujos reflexos estão no convívio social e na economia.

O lado bom dessa relação é a percepção de segurança graças à presença de policiais e agentes penitenciários, além dos pequenos ganhos econômicos com a circulação de mais pessoas na cidade. Mas há uma relação até cruel em relação às cerca de 40 famílias que se mudaram para Catanduvas por um motivo muito particular. Numa cidade pequena, o estigma de ser parentes de um criminoso ganha ares de segregação social. As esposas de presidiários não conseguem nem comprar pão sem ser alvo de olhares de receio ou desprezo. "Elas trouxeram medo de que aconteça aqui o que aconteceu no Rio", diz uma vendedora.

As pessoas começam a reparar em coisas que nem notariam se não fosse a penitenciária, como a dona de uma loja de roupas que sofreu um assalto há dois anos e ficou amarrada dentro de casa. Havia um paraguaio entre os quatro ladrões e isso a levou a associar o fato com o presídio. "Eles vêm fazer visitas e na volta assaltam por aí." Donos de lojas atribuem furtos às esposas de presos, mas, por medo, ninguém faz acusações formais. Elas, por sua vez, reclamam da discriminação.

"Se vamos ao mercado, tem sempre dois ou três seguranças que ficam de olho na gente", fala uma jovem. Ela mora numa casa alugada com outras sete mulheres e quatro crianças, vindas do Mato Grosso do Sul, Alagoas e Espírito Santo. "Emprego para a gente é impossível, por mais que tenha currículo bom", relata outra, que mora com uma filha pequena e é uma das poucas a possuir carro. Ninguém diz o nome para evitar represálias, pois, segundo elas, qualquer problema é motivo para suspensão das visitas.

O clima é tenso também por causa dos relacionamentos amorosos. As jovens de Catanduvas acusam as forasteiras de serem dadas a relacionamentos extraconjugais com rapazes da cidade. A rusga só não é maior porque há ainda os agentes penitenciários e os policiais federais, que, por vezes, circulam pela cidade. "Durante a construção do presídio, 151 mulheres ficaram grávidas por causa da presença dos homens da Força Nacional de Segurança", contou uma moradora em tom de piada.

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