Confiança recobrada

O julgamento dos envolvidos no esquema do mensalão recobra grande parte da confiança que o Judiciário brasileiro havia perdido. Um a um, todos os réus vêm sendo condenados pela maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Desmanchou-se a tese empregada pela defesa de que os crimes cometidos eram eleitorais (caixa 2) e que a esta altura já estariam prescritos. E, em sendo assim, todos seriam absolvidos.

Não tem sido este o entendimento do STF para o qual não importa o destino que tiveram os recursos ilegalmente arrecadados. Houve propina, lavagem e quadrilha organizada, crimes não prescritos. Se confirmada a tendência, não há quem escape. Foi caso do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, condenado por receber no caixa R$ 50 mil dentre o conjunto dos milhões movimentados.

Faltando 38 dias para a eleição, o quadro de empate técnico entre os três principais candidatos começa a se alterar de forma mais nítida. É o que aponta a segunda rodada da pesquisa Datafolha/RPC, divulgada ontem à tarde, apresentando dois destaques: o crescimento da candidatura à reeleição de Luciano Ducci e a queda de Gustavo Fruet em relação à primeira rodada do mesmo instituto, de 21 de julho passado.

Ratinho Jr. manteve-se no mesmo patamar da pesquisa anterior, com 27 pontos, mas foi alcançado por Luciano Ducci, que saiu de 23 e agora ostenta 27. Fruet, que tinha 23, caiu para 20. Rafael Greca manteve-se na quarta colocação, mas também experimentou decréscimo de 10% para 8%. A margem de erro é de 3 pontos porcentuais para cima ou para baixo.

Com entrevistas nos dois últimos dias, a rodada de ontem já apresenta reflexos da propaganda eleitoral em rádio e tevê. O tempo de televisão de Ducci é maior do que a soma dos tempos de seus dois contendores mais diretos. Acrescente-se a superior qualidade técnica de seus programas e a imagem de "realizador" que lhe favorece a apresentação de obras de sua gestão – atributo que Fruet e Ratinho Jr. não têm como se valer.

Esta pode ser uma das explicações para o crescimento de Ducci para um pouco além da margem de erro. Por outro lado, embora tenha oscilado para baixo dentro da margem (de 23% para 20%), a queda de Gustavo não se deve apenas ao tempo ou à técnica de seu programa eleitoral. Contra ele subsiste a resistência de boa parte do eleitorado classe média que lhe era fiel, em razão de sua aliança com o PT, além da dificuldade de penetrar nas camadas mais periféricas, território dividido entre Ducci e Ratinho.

Até hoje, desde o sentimento de rejeição às alianças que formalizou para viabilizar sua candidatura, Gustavo não se deteve em explicar (e convencer) seus eleitores de que não teve outra opção após ver-se impedido de se manter em sua antiga legenda, o PSDB, e por ela se candidatar. A incoerência apontada tem sido um fator fortemente explorado pela campanha de Luciano Ducci, reforçada por jornais e folhetos de origem desconhecida que tentam ligar a imagem de Gustavo ao "mensalão" – justo no momento em que o STF condena às pencas os envolvidos no esquema.

O desenrolar da campanha de 2012 parece repetir o que ocorreu em 1990. Nesta, eram candidatos ao governo estadual o então senador José Richa, o ex-prefeito Roberto Requião e o deputado José Carlos Martinez. Richa era o primeiro em todas as pesquisas e parecia imbatível; Martinez, aliado do recém-empossado e ainda prestigiado presidente Collor, o "caçador de marajás", navegava sem problemas. Requião era o que menos chances parecia ter de sequer disputar um eventual segundo turno.

Diante desse quadro, Requião deu severo combate a Richa. Teve sucesso ao acusar o ex-governador de acumular várias aposentadorias, incluindo-o no rol dos combatidos marajás – o suficiente para desidratar seu prestígio, jogá-lo para o último lugar nas pesquisas e tirar-lhe a chance de disputar o segundo turno.

Martinez venceu com larga vantagem sobre Requião. As armas de destruição foram então assestadas contra Martinez. O principal lance ficou na história – aquele em que se inventou o pistoleiro "Ferreirinha" e a quem se atribuiu ter servido à família de Martinez. Vencedor e empossado, Requião quase perdeu o mandato em razão do crime eleitoral.

Os tempos são outros, mas a estratégia parece se repetir: o importante, agora, é tirar Fruet da disputa, inicialmente (como José Richa em 1990) o favorito do eleitorado. Isto é, os estrategistas de Ducci, ao que parece, já teriam escolhido Ratinho Jr. como adversário preferencial no segundo turno. Se, nestes 38 dias que faltam para a eleição, se confirmar o que hoje aponta a pesquisa, não é de se duvidar que tente dar a Ratinho Jr. o mesmo destino de Martinez.

Metodologia

A pesquisa do dia 21 de julho ouviu 832 eleitores. Registro: 00017/2012. A pesquisa do dia 29 de agosto ouviu 832 eleitores. Registro: 00085/2012. Nos dois levantamentos, a margem de erro: 3 pontos para mais ou para menos.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]