Manifestante em ato pró-Bolsonaro no domindo, 15 de março| Foto:
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A teimosia foi apresentada como virtude patriótica por uns e como resistência festiva por outros. Mas o que os manifestantes que se aglomeraram em atos pró-Bolsonaro em diversas cidades brasileiras, apesar das recomendações em contrário do Ministério da Saúde do governo que eles dizem apoiar, e frequentadores de barzinhos lotados no bairro Vila Madalena, em São Paulo, neste domingo (15), realmente demonstram é a falta de senso de comunidade de uma parcela da população brasileira.

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A pandemia do novo coronavírus está aí e não é piada nem fantasia. As autoridades socialistas da Itália trataram o alastramento da doença como fantasia e deu no que deu: mais de 21.000 contaminados e 1.441 mortos até o momento em que dou o ponto final neste artigo.

O sentido de evitar aglomerações, cancelar aulas, procurar ficar em casa o máximo possível (mesmo para quem está saudável) é justamente evitar que o vírus se alastre. Não importa que ele seja menos letal para os jovens: as medidas de prevenção que cada cidadão deve adotar individualmente servem para conter a circulação do vírus e proteger a população mais vulnerável, formada principalmente por idosos e pessoas com certas doenças preexistentes.

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Mas voltaremos a isso. Antes, falemos do tal senso de comunidade. Não é papo de comunista. Isso é coisa de capitalismo, e dos bons.

Há alguns anos, viajei à Nova Zelândia com uma missão que muito interessa a nós, brasileiros: descobrir as razões pelas quais o país tem o menor índice de corrupção do mundo (no ranking da Transparência Internacional, aparece frequentemente empatado com nações como Dinamarca e Finlândia). Uma das explicações que os especialistas de lá me deram dizia respeito à ética comunitária que permeia a sociedade neozelandesa desde que os primeiros britânicos se instalaram no arquipélago, no final do século XVIII.

A coesão social e o senso de comunidade dos neozelandeses em nada contradizem o capitalismo de linhagem anglo-saxônica que vigora no país. Ao contrário, essas características ajudam a explicar o êxito das políticas liberais que colocaram a Nova Zelândia em terceiro lugar no ranking mundial de Liberdade Econômica da Heritage Foundation e entre as nações com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta.

Junto com a valorização do mérito individual vem a disposição de trabalhar pelo bem comum. Eis porque a Nova Zelândia é um dos países com os maiores índices de participação em atividades filantrópicas e voluntárias. O sucesso pessoal reflete-se no respeito pela coisa pública e na preocupação com o bem-estar coletivo.

Esses são os princípios éticos que fazem com que os neozelandeses raramente se deixem corromper mesmo quando têm oportunidade (sempre há exceções, é claro).

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Um exemplo concreto são as chamadas "caixas de honestidade": produtores locais de flores, por exemplo, colocam baldes com buquês à venda em pequenas banquinhas de madeira na beira da estrada, sem ninguém cuidando. Quem quiser comprar algumas flores estaciona o carro no acostamento, pega a quantidade que quiser e coloca o dinheiro correspondente dentro de uma caixa. Ninguém leva flores sem pagar, ninguém rouba a caixa. Isso, para os neozelandeses, é mais do que honestidade: é senso de comunidade.

O que nos faz voltar à questão das medidas contra o alastramento do novo coronavírus. Antes de qualquer coisa, que não se diga que o vírus é inofensivo ou que ele não existe. É perigoso, sim. Uma de suas recentes vítimas foi o premiado arquiteto italiano Vittorio Gregotti, de 92 anos.

Sim, Gregotti era um idoso. Mas é aí que entra o senso de comunidade. Os jovens devem evitar contrair o vírus justamente para que ele não se alastre para pessoas no grupo de risco, como o arquiteto italiano, como os nossos avós ou pais.

Uma explicação imbatível do senso de comunidade aplicado à pandemia do coronavírus foi apresentada pelo estatístico americano Nassim Nicholas Taleb, autor dos aclamados livros "A Lógica do Cisne Negro" e "Antifrágil". Leiam o que escreveu Taleb, em coautoria com Joseph Norman, em artigo divulgado neste domingo (15), enquanto os brasileiros lotavam bares e atos políticos:

"A segurança coletiva pode exigir prevenção individual de risco excessiva, mesmo que entre em conflito com os interesses e benefícios do próprio indivíduo. Pode exigir que um indivíduo se preocupe com riscos que são comparativamente insignificantes."

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Ele continua: "Sob tais circunstâncias torna-se egoístico, até mesmo psicopático, agir de acordo com o assim chamado comportamento "racional" — fazer com que os rankings individuais de risco imediato entrem em conflito com os da sociedade, ou que gerem risco para a sociedade."

Ou seja, pelo bem coletivo, é preciso ter um cuidado individual maior do que a avaliação individual de risco exige.

O momento de evitar aglomerações é agora, quando o número de pacientes com coronavírus ainda não explodiu, para reduzir o impacto da epidemia em seu auge. Mas o pessoal que lota os bares da Vila Madalena prefere aproveitar ao máximo a boemia antes que tudo vire um caos e as autoridades mandem fechar os estabelecimentos, como aconteceu na Itália. É a festa pré-apocalíptica.

Enquanto isso, outro naco da sociedade brasileira tenta mostrar que sua fé política vence até infecções virais — com incentivo de seu Messias, que sai do seu palácio, onde o vírus já circulou, para usufruir do contato físico com o povo. É a festa da negação apocalíptica.

E quando faltarem leitos nos hospitais, vão todos dizer que era inevitável, que era o destino?

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A falta de senso de comunidade no Brasil não conhece fronteiras ideológicas.

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