2008, do ponto de vista da literatura brasileira, é um ano com dois marcos. Há cem anos morria Machado de Assis. E, se estivesse vivo, João Guimarães Rosa completaria um centenário de existência. "As pessoas não morrem. Ficam encantadas." O autor da frase, afeito que era ao sobrenatural, talvez até desconfiasse que, além dele, a sua obra também se tornaria "encantada", como de fato se tornou.
O legado de Guimarães Rosa e basta citar "apenas" os seus dois primeiros livros, Sagarana (1946) e Grande Sertão: Veredas (1956) é apontado pela crítica e especialistas em literatura como algo único, até mesmo insuperável. Recentemente, um jornal paulista convocou júri para decidir quem seria "melhor": Machado ou Rosa? O autor de Dom Casmurro venceu a eleição. Mas, independentemente deste, ou de qualquer outro julgamento, Rosa realizou no mínimo um trabalho primoroso, para evitar o adjetivo "genial", no que diz respeito à linguagem.
De invenções
Guimarães Rosa foi inovador, sobretudo, ao criar uma linguagem, resultado da reelaboração da fala do interior mineiro, por onde o escritor circulou enquanto médico, em diálogo com a herança da tradição da literatura universal, que ecoava no leitor que Rosa foi. O professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paulo Roberto Pereira endossa a tese. "A importância de Guimarães Rosa se caracteriza por transformar numa linguagem originalíssima, sem igual na literatura brasileira do século 20, a língua e os temas utilizados. Ao trabalhar com a literatura regionalista, sertaneja, um gênero que estava praticamente estagnado, ele criou uma literatura muito pessoal com recursos da oralidade e do fluxo de consciência", afirma Pereira.
Conhecedor de 18 idiomas, Rosa dominava, com absoluta segurança, o francês, o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e, naturalmente, o português que ele revolucionou por meio de sua produção literária. E essa consciência e percepção idiomática, como não poderia deixar de ser, estaria a pulsar em sua ficção. "O português "roseano" parece até uma língua estrangeira. Ele se valeu do conhecimento de idiomas, oralidade, neologismos e de uma rara competência. Todas as palavras estão interligadas nos textos dele. Nada é aleatório", analisa a professora de Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB) Elizabeth Hazin.
O professor da Universidade de São Paulo (USP) João Adolfo Hansen tem uma tese sobre o porquê de Guimarães Rosa ter debravado novas e inusitadas veredas dentro da Língua Portuguesa: "A exemplo de outros grandes autores, como Dante, Mallarmé e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degrada, no seu caso, a língua da sociedade de classes, que é uma língua instrumental, massificada, desumana". O estudioso entende que Rosa, ao caminhar por inéditos horizontes via linguagem, e por meio de sua imaginação produtiva, e não simplesmente reprodutora do que está aí, também deixou como legado a idéia de que o vau (rio) do mundo é a coragem.
O mundo é o sertão
Mas não é "apenas" de linguagem que foi construído o universo roseano ou, na definição do escritor mineiro Luiz Ruffato, o "sertão roseano". A professora de Língua Portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Aira Suzana Martins, também autora de tese de doutorado sobre a pontuação na obra de Rosa, aponta para outro aspecto relevante na performance do escritor. "Ele foi, acima de tudo, um exímio contador de histórias, na voz do homem do sertão. Por meio da ficção, foi capaz de mostrar que o raciocínio refinado do homem culto e o pensamento do homem de poucas letras, no fundo, representam a mesma coisa, já que os valores humanos são universais", diz.
O professor de Literatura Brasileira da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Marcelo Franz completa o raciocínio da pesquisadora da UERJ. "Guimarães Rosa desenha um homem brasileiro primitivo, primevo, agrário, rural, mas com elementos universais, uma vez que o autor problematiza a condição humana", teoriza. A coordenadora do doutorado em Língua Portuguesa da UERJ, Darcilia Simões, tem algo a acrescentar em relação aos personagens roseanos: "Seus 'heróis' são homens simples, até mesmo 'loucos' ou marginais, que, no entanto, documentam a vida diferente do povo do sertão".
E, se "o sertão está em toda parte" e, como analisa o professor Marcelo Franz, da PUCPR, Rosa estabeleceu uma ponte entre o sertão e o mundo, o professor João Adolfo Hansen, da USP, salienta que uma das amálgamas da obra de Rosa por mais inacreditável que possa parecer é o amor. Hansen lembra que a literatura moderna, em geral, é negativa, e demonstra com muitas evidências que a vida como é não presta e deve ser destruída. "Rosa é estranhamente moderno, pois acredita que o amor é a mais forte forma de energia, tendo grande compaixão e absoluta generosidade por tudo quanto existe. É uma experiência rara. Ele escreve, por exemplo, que um exercício de santidade é amar uma cascavel", analisa Hansen.
"Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." Assim termina Grande Sertão: Veredas. E, simultaneamente, se abre um imenso mundo, ou sertão roseano, repleto de possibilidades. O sertão é o mundo.
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