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A Revolução Afetiva e a substituição do racional pelo emocional
| Foto: Sergio Carabajal/Pixabay

Em julho de 2013, numa conferência da associação L’Abri realizada em Atibaia (SP), eu tentei pela primeira vez descrever essa transformação tectônica em nossa cultura, na qual a busca por verdade e sentido foi de repente abandonada por uma busca de autenticidade e legitimação moral.

Eu havia notado que os ataques do neoateísmo estavam perdendo importância, e pouca gente aparecia questionando a existência de Deus. As questões se tornaram mais emocionais e pessoais. Ainda não havia descoberto Charles Taylor ou Philip Rieff (que profetizara essas coisas antes de eu nascer), mas senti essa mudança de pulso nos estudantes de L’Abri e no mundo das mídias sociais. Eu já vinha matutando sobre o tema desde 2010, mas em 2013 decidir nomear a coisa como uma “revolução afetiva”. E tudo aconteceu naquele ano louco, em que estavam todos realmente à flor da pele.

O trato com as mídias sociais, ao menos, não deixava e não deixa dúvidas: há uma espécie de excesso afetivo que se derrama pelas conversas e interações virtuais, sejam quais forem os assuntos: política, sexo, pets. Não se trata apenas de emoções negativas, de odium politicum e das ejaculações de indignação on-line, mas também de desejos, anseios profundos, fixações em objetos de consumo, lugares para viajar, rostos e corpos belos, afeto animal, demonstrações de amor por ícones culturais e midiáticos.

A Revolução Afetiva

Tudo isso poderia até ser apenas um fenômeno das mídias sociais, mas são variados os sinais de que vivemos em uma cultura profundamente psicologizada e sentimentalizada. No mundo do trabalho, por exemplo, os testes de QI foram perdendo cada vez mais a importância diante dos testes de inteligência emocional. A capacidade de reconhecer, articular, expressar e gerenciar as emoções, cultivando ao máximo as emoções construtivas, ganhou sólida fundamentação com o advento da Psicologia Positiva a partir do princípio dos anos 2000, sob a liderança de grandes nomes como Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi, e tornou-se estruturante para a administração moderna e o mundo corporativo.

A teoria e a prática educacional vêm absorvendo essas mudanças e gerando novidades. Para citar um exemplo local, o Programa Raízes, coordenado por Antônia Burke com participação de pesos-pesados como Renato Janine Ribeiro, se descreve como um “projeto de educação socioemocional”, que pretende guiar o aluno “para que ele tenha autonomia e se torne protagonista de sua jornada”. A educação contemporânea é cada vez mais focalizada na inteligência emocional, no desenvolvimento da empatia e na busca pela autenticidade e pela autoexpressão.

Há uma espécie de excesso afetivo que se derrama pelas conversas e interações virtuais, sejam quais forem os assuntos: política, sexo, pets

É essa valorização da empatia e a sentimentalização das relações, em geral, o que está por trás de fenômenos mais triviais, como o interesse aumentado pelos “pets” e nítida tendência de pessoas contemporâneas, em contextos cosmopolitas, de preferir bichinhos – ou “serumaninhos” – aos seres humanos, e até mesmo às crianças. Muita gente trata seus animais como se fossem filhos e se desinteressam por crianças, o que motivou recentemente um puxão de orelha do papa Francisco.

Esses sentimentos populares têm sua contrapartida na crítica do filósofo Peter Singer ao “especismo”, que nega uma superioridade da espécie humana sobre outras espécies. Segundo o filósofo, seres capazes de sofrimento devem ser considerados e tratados de forma igualitária, não havendo, por exemplo, superioridade de um bebê sobre outro animal senciente. O argumento de Singer não é sem méritos, como sua defesa dos direitos dos animais, mas sua fundamentação dos direitos na vida dos sentimentos ganha reverberação especial numa cultura emotivista.

O exemplo mais importante e problemático da revolução afetiva é, naturalmente, a transformação da intimidade moderna, para tomar emprestado o título de Anthony Giddens: permanecemos em relacionamentos amorosos segundo a retribuição emocional que eles trazem, e não com base em compromissos morais de uma ordem superior, como pactos ou sacramentos.

Essa mudança, que se espalhou por todos os cantos da sociedade moderna, levou a redefinições na concepção de casamento e de família. A nova família é eudemonística, tendo sua legitimidade baseada na qualidade dos afetos e no grau de felicidade emocional, e não no parentesco ou em deveres morais; a mudança, que começou no imaginário literário, na mídia tradicional (como as novelas, no Brasil) e na cultura de massa, finalmente desaguou no direito de família e no STF, com o casamento sendo redefinido, de união durável de homem e mulher para qualquer união sexual-afetiva, sem nenhum imperativo de perdurabilidade. A mudança chegou, notoriamente, ao Houaiss:

“Família: 1 núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que ger. Compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária e estável.”

É claro. Eu sempre soube que a turma da pelada do finde era uma família mesmo. União, afetividade, o mesmo espaço, solidariedade, e ninguém falta, nem que a mulher tranque as portas. Por que não?

Ao mesmo tempo em que as emoções tomam a dianteira no imaginário moral, educacional, econômico e político, uma crise sem precedentes de saúde mental se desenha em escala global

Ironias à parte, o movimento dos “direitos afetivos”, no âmbito jurídico, deve ser visto como uma manifestação particular e institucional desse processo muito mais amplo. Suas raízes não são absolutamente claras, mas a tese da socióloga israelense Eva Illouz é a de que foi a fusão do capitalismo de consumo com a psicologia moderna que criou o que ela chama de “capitalismo emocional”, com o consumo sendo psicologizado e as relações afetivas tornando-se cada vez mais consumistas. Isso explica muito bem a transformação da intimidade moderna e todo o movimento dos direitos afetivos; embora uma de suas dimensões seja a defesa dos direitos humanos de pessoas LGBTQIA+, a potência do seu discurso se deve à agenda de desregulamentação dos mercados sexual-afetivos, segundo a lógica do capitalismo emocional. A liberação sexual, como um todo, foi basicamente a “tomada da bastilha” pela burguesia desse capitalismo emocional.

E, ao mesmo tempo em que as emoções tomam a dianteira no imaginário moral, educacional, econômico e político, uma crise sem precedentes de saúde mental se desenha em escala global. Já mencionamos aqui o relatório de 2018 da comissão Lancet de saúde mental e sustentabilidade, que advertiu sobre uma epidemia global de saúde mental em curso, com milhões de fatalidades e uma expectativa de trilhões em custos globais. Em 2019, uma pesquisa da American Psychological Association revelou significativo aumento dos problemas de saúde mental de jovens americanos ao longo da década anterior – precisamente o período após a emergência das redes sociais e do smartphone. A revolução afetiva traz uma demanda elevada de inteligência emocional e de consciência psicológica, mas não se vê melhoria do estado emocional da população global. Pelo contrário, a coisa parece estar piorando – e isso sem contarmos com o impacto da pandemia nos últimos dois anos.

Nova evidência científica

Marten Scheffer, professor do Departamento de Estudos Ambientais da Universidade de Wageningen, é um estudioso da estabilidade de sistemas complexos e tem um interesse particular em transformações radicais no clima e nas sociedades humanas – os tipping points, “pontos de inversão” ou de “virada”. E ele aparentemente identificou evidências de uma inversão crítica na civilização moderna.

Scheffer liderou um time de pesquisadores de Wageningen, Eindhoven e Indiana numa pesquisa de larga escala sobre racionalidade e emoção na linguagem, de 1850 até o presente. O estudo foi publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences dos EUA (PNAS) em novembro passado: “The Rise and Fall of Rationality in Language”. A equipe analisou a linguagem de milhares de livros de 1850 a 2019, disponíveis nos bancos de dados da Google nGram, comparando os resultados com uma análise similar dos bancos do New York Times, no mesmo período, e das buscas de palavras no Google desde 2004 em sete línguas diferentes. O método envolveu a identificação de um grupo de 5 mil palavras mais usadas em inglês e espanhol em milhões de livros, e uma metodologia para identificar o subgrupo de palavras que passaram por mudanças mais intensas na frequência de uso.

Pois bem: a equipe descobriu que palavras associadas com a racionalidade e com instituições e atividades coletivas, como “determinar”, “conclusão”, termos associados a atividades científicas e à quantificação, aos negócios e à economia, à organização social, tempos e lugares, apresentaram um crescimento progressivo desde 1850 até os anos 1980, quando começam a cair, com essa queda se acelerando rapidamente a partir de 2007.

Por outro lado, outro grupo de termos, relacionado com os sentimentos e a atividade pessoal ou individual, vinha caindo desde 1850 e então se eleva dramaticamente no mesmo período em que a linguagem “racional” começa a decair. Termos relacionados a crenças e sentimentos pessoais (como “imaginar”, “perdoar”, “curar”, “confiar”, “duvidar”, “temer”, “esperar”, “o eterno”, “o santo”, “Deus”, “mistério”, “sentir”, “suspeitar”), sentidos (“sentir”, “cheirar”, “silenciar”) ao corpo, a atividades individuais (como andar e sorrir) tornam-se muito mais presentes. Até mesmo os pronomes têm seu uso modificado, com uma predominância do singular sobre o plural a partir dos anos 1980.

O padrão de “gangorra” notado entre esses dois blocos de linguagem, e a transformação rápida e recente, que no gráfico aparece como a forma de “taco de hóquei”, são o tipo de coisa que interessa a Marten: pontos de virada. O padrão de subida dos termos “racionais” e de descida simultaneamente com a subida dramática dos termos “emocionais” se repete a partir de 2004 em todas as sete línguas (inglês americano, inglês britânico, alemão, espanhol, francês, italiano e russo). Parece que um processo de virada começou nos anos 1980 e se firmou, definitivamente, em torno de 2007.

Está em curso uma forte tendência à individualização e à sentimentalização do nosso imaginário moral. Essa tendência reflete algum tipo de desequilíbrio entre duas dimensões da própria natureza humana

Marten tem uma explicação muito interessante e complementar, na minha opinião, para o fato de a mudança ter um padrão de “gangorra”.

“Provavelmente, os polos opostos de conceitos humanos versus conceitos sociais que nós identificamos possam também ser interpretados em termos de como eles se relacionam com dois modos de operação cognitiva fundamentalmente diferentes, o sistema 1 (‘pensamento rápido’ ou intuição) versus sistema 2 (‘pensamento lento’, a racionalidade)... a mudança universal e robusta que nós observamos sugere um rearranjo histórico no equilíbrio entre coletivismo e individualismo e – inextricavelmente ligados – entre o racional e o emocional.”

A teoria dos dois sistemas foi desenvolvida pelo psicólogo experimental Daniel Kahneman, que levou o Nobel por praticamente fundar a economia comportamental. Essa mesma teoria é usada por outros psicólogos sociais, como Jonathan Haidt. Este último, como se sabe, vinculou nossos sentimentos morais a dois conjuntos, um nos empurrando para uma ênfase na individualidade e outro na coletividade. Os resultados de Marten parecem confirmar essas ideias; está em curso uma forte tendência à individualização e à sentimentalização do nosso imaginário moral. Essa tendência reflete algum tipo de desequilíbrio entre duas dimensões da própria natureza humana.

Mas como se deu esse desequilíbrio? Temos, segundo o estudo, dois momentos cruciais: os anos 1970-80 e o ano de 2007. Começando com a data mais recente: o que aconteceu nessa época?

O principal candidato parece ser a emergência global das mídias sociais em meados dos anos 2000. De fato, elas comprovadamente estão associadas a alguns processos acelerados de mudança, como a Primavera Árabe. As mídias possivelmente ampliaram radicalmente a exposição do usuário a informações sobre os problemas da civilização contemporânea e de estilos de vida alternativos, e também facilitaram a disseminação de desinformação e teorias conspiratórias. Tudo isso alimentou um clima de descontentamento e tendências antissistema, favorecendo alienação social, investimentos individualistas e alternativos.

Os pesquisadores citam outro estudo da linguagem publicado em 2021, por J. Bollen, indicando um aumento das distorções cognitivas nas últimas décadas, incluindo atitudes negativas contra si mesmo, o mundo e o futuro. Ou seja, uma desilusão generalizada. Realmente há uma percepção de que as mídias sociais tornaram-se um lugar de radicalização emocional.

O homem psicológico

Uma possibilidade, para explicar essa mudança a partir de 1975, seria um desânimo com o sistema “neoliberal”. Não é impossível. Mas outros momentos no século 20 também viram graves crises econômicas sem esse tipo de mudança de imaginário. Além disso, devemos notar que muita coisa começa nessa época também; uma delas, não considerada no artigo, é a emergência da nova esquerda e dos movimentos identitários, que se deu simultaneamente com a ascensão neoliberal, segundo o conhecido argumento de Mark Lilla. Podem ser dois lados da mesma moeda.

Eu penso que cabe, aqui, levantar outra bola. Philip Rieff publicou em 1966 seu clássico O Triunfo da Terapêutica, no qual descreveu a emergência de um novo paradigma moral e identitário, que ele denomina “homem psicológico”. O homem psicológico é alguém desligado de fins comuns e ocupado em agradar-se e encontrar bem-estar emocional. Esse mesmo padrão é chamado por Christopher Lasch, em 1979, de “cultura do narcisismo”. E entre os dois, em 1968, Francis Schaeffer publicou seu livro Escape from Reason (A Morte da Razão), advertindo sobre a fragmentação do universo do homem contemporâneo, pelo abandono da crença em Deus, do engajamento na comunidade de fé, e a negação da racionalidade.

O homem psicológico é alguém desligado de fins comuns e ocupado em agradar-se e encontrar bem-estar emocional

Não penso que seja puro acaso o fato de essas profundas análises culturais terem emergido precisamente no período em que o sentido da racionalidade e do coletivo entra em decadência e um sentimentalismo individualista assume a liderança na imaginação social moderna. Outros nomes como Eva Illouz e Charles Taylor veem na mesma época uma transformação importante na vida subjetiva do ser humano moderno. Illouz o chama de Homo sentimentalis.

Será possível que uma mudança de valores, a partir do fim dos anos 1960, projetada a partir da elite cultural dos países desenvolvidos, tenha operado de forma sincronizada com a nossa cultura de hiperconsumo, de modo a universalizar uma ética individualista e sentimentalista? Penso que essa hipótese, além de plausível, é corroborada pela pesquisa de Marten Scheffer e pela piora na saúde mental global, detectada nos últimos anos.

Como devemos descrever essa combinação de negação da realidade, autoabsorção psicológica e sofrimento mental? O que temos é, usando a linguagem de Ernst Becker em A Negação da Morte, uma neurose narcísica generalizada.

O estilo de religiosidade que temos hoje é muito diferente do que tínhamos até os anos 1960; é muito mais individualista e sentimentalista. É menos um projeto comunitário e ético, e mais um projeto pessoal e estético

Mas e quanto à religião? Francis Schaeffer acreditava que a “morte da razão” – que nos fez desembocar na pós-verdade – resultava da descrença em Deus. No entanto, o estudo de Scheffer sugere que o tema da espiritualidade e da fé está entre os que emergiu com a ascensão da afetividade. Mas o que isso significa? Não necessariamente que a religião esteja em ascensão. Esse não é o caso, definitivamente, na Europa ou nos EUA.

Uma resposta possível é que o estilo de religiosidade que temos hoje é muito diferente do que tínhamos até os anos 1960; é muito mais individualista e sentimentalista. É menos um projeto comunitário e ético, e mais um projeto pessoal e estético. Nesse sentido, a revolução afetiva parece ter tomado conta da imaginação religiosa também. “Deus” e a “fé” não são tanto o Deus de Abraão, Isaac e Jacó ou a fé dos mártires, mas um valor agregado e uma fonte de consolo subjetivo. Não é uma realidade lá fora, mas uma ferramenta psicológica.

Nesse caso, o fenômeno descrito por Marten Scheffer e seus colaboradores, de uma “ascensão e queda da racionalidade na linguagem”, é um sintoma de algo maior. Ele resulta de uma massiva introversão espiritual e psicológica na cultura moderna, que se aliena de Deus, da história e da comunidade e se fixa no cultivo de seu bem-estar emocional. E a maior necessidade das nossas sociedades narcísico-neuróticas, nesse caso, é encontrar a realidade de Deus, da comunidade e do outro.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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